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Histórias
de assombrações, criaturas mágicas e fenômenos
sobrenaturais fazem parte da cultura da cidade
André Azevedo da Fonseca

Mulheres
misteriosas aparecem, revelam segredos e combinam encontros...
até que acabam descobrindo que a defunta estava morta
há mais de 20 anos |
Dr. Humberto
Ferreira, famoso médico de Uberaba, falecido em 2002, foi
um importante pesquisador da doença de Chagas e um pediatra
muito querido pelas famílias da cidade. Era notório
seu espírito caridoso. Dr. Humberto sempre atendia de graça
as pessoas que não podiam pagar. Não se sabe se era
promessa, superstição, ou simplesmente um hábito
de bom samaritano, mas o fato é que o médico também
não costumava cobrar consultas realizadas depois da 18hs
nem mesmo em emergências domiciliares. A história
a seguir foi relatada pelo professor da Uniube, Newton Mamede, que
ouviu do próprio Dr. Humberto em uma entrevista de TV.
Era
noite. Em uma casa localizada num determinado bairro da cidade,
uma família sofria e chorava por causa da menina doente.
Ela estava muito mal, a coisa parecia ser grave, e os pais, pessoas
simples, não sabiam o que fazer, nem tinham condições
para levá-la a um hospital. De repente, toc toc toc, batem
à porta: era o Dr. Humberto, que dizia ter sido chamado para
atender a criança. A família ficou surpreendida com
a visita inesperada. O médico logo se aproximou, examinou
a garota, fez o diagnóstico, recomendou alguns procedimentos
e encaminhou para o tratamento.
A
nuvem da desgraça pareceu ter se dissipado daquela casa.
A menina estava salva. Todos ficaram mais tranqüilos, graças
à confiança que depositavam nos cuidados do pediatra.
Mas ficaram também curiosos, pois ninguém da casa
havia ligado para ele. Quem havia chamado o Dr. Humberto?
Depois de alguma conversa, tomaram coragem e perguntaram. O médico
olhou para uma das velhas fotografias emolduradas na parede, apontou
para uma delas e disse: "Foi aquela mulher ali".
Foi
como uma facada no coração. Houve gritos, sustos,
olhos arregalados, suores frios, parece que alguém desmaiou.
Dr. Humberto assustou-se também com a reação.
Uma das mulheres na casa, pálida e meio sem voz, explicou
a ele, gaguejando e tremendo as mãos, que a mulher da fotografia,
a tal que, segundo o médico, o chamara para salvar a menina
ai cruz credo, havia morrido há anos!
Histórias
de fantasmas, criaturas mágicas e fenômenos sobrenaturais
são freqüentes em uma cidade mineira de forte cultura
religiosa como Uberaba. Mesmo os moradores urbanos, mais céticos
e racionalistas, ainda guardam um ou outro caso fantástico
para contar e juram de pés juntos que é tudo
verdade. Além disso, um dos fatores que enriquece esses relatos
populares característica fundamental na tradição
da história oral é a diversidade das versões,
ou seja, cada um que ouve um caso acrescenta elementos de seu universo
cultural ao contá-lo. De boca a boca, temperadas pelo contexto
histórico, as histórias adquirem novos sabores e acabam
por reunir os ingredientes mais significativos do imaginário
coletivo de uma época.
O
professor Mamede lembra da divertida insolência de seu pai
um pequeno exemplo da riqueza anárquica da criatividade
popular. Quando o velho lascava uma piada, costumava atribuir as
situações ridículas dos personagens anônimos
a alguns nomes conhecidos da vizinhança, e contava a história
como se o caso fosse verdadeiro. "Por exemplo, em uma piada
que tinha um bêbado, em vez de começar dizendo: era
uma vez um pinguço que pediu um ovo no bar, etc
,
ele se lembrava de algum bebum conhecido no bairro e dizia: sabe
o Zé Maria, marido da dona Joana que mora ali na rua de baixo?
Pois é, esses dias ele pediu um ovo no bar
",
conta Mamede, às gargalhadas.
Mesmo
com a diversidade dessa literatura oral, algumas situações
e personagens se repetem. É difícil quem não
conheça alguma variação da história
da mulher fantasma que assombra o caminhoneiro na estrada; do defunto
que aparece e dá o endereço do cemitério e
uma das mais populares do morto que dá recados
e é identificado através de foto, como no caso do
Dr. Humberto. Independente das interpretações ao gosto
do freguês (místicos, psicanalistas, espíritas,
evangélicos, católicos, umbandistas, céticos,
etc), mas sem dúvida influenciado pela literatura espírita
muito presente na região, o fato é que, verdadeiras
ou não, essas histórias constituem-se em referências
culturais da identidade de Uberaba, e influenciam fortemente no
sistema de valores dos moradores. A jornalista e professora da Uniube,
Celi Camargo, guarda uma história boa, da categoria "morto
que dá recados e é identificado através de
foto":
"Fazer
matéria de finados é aquela pentelhação
sempre", brinca a jornalista. Ela queria pautar alguma coisa
diferente para publicar no jornal. Enfim, encontrou um caso curioso
de senhora que trabalhava lavando túmulos no cemitério.
Foi procurá-la no batente. "Perguntei se ela tinha uma
história daquelas. Ela disse que sim, e me contou
o seguinte:
Uma senhora muito vistosa, usando um vestido "mamãe
dolores" (vestidinhos estampados, com saia rodada) pediu
que eu lavasse um certo túmulo. Mas ela disse que estava
com pressa, não podia esperar que eu terminasse. Mas garantiu
que, depois que eu lavasse, era pra procurar em um endereço
que me deu, perto do Uberabão, e ir lá receber o pagamento."
A
lavadora de túmulos foi ao endereço indicado, mas
a dona que atendeu a porta disse que não era lá. A
velha insistiu e decidiu não arredar pé, porque tinha
certeza que o endereço estava certo. Descreveu a senhora
do vestido mamãe dolores e queria receber o pagamento
de qualquer jeito. A dona da casa ela estava fazendo almoço
percebendo que a velha estava bem intencionada, pediu que
entrasse. Na verdade, outra coisa cutucara sua hospitalidade: desde
o momento em que a velha fizera a descrição, a dona
ressabiou-se, porque a moça do vestido mamãe dolores,
por algum motivo estranho, ai ai ai, a fizera lembrar-se da
irmã, morta há mais de doze anos. Pensou até
em mostrar uma foto da finada para esclarecer o engano ou
Deus me livre e guarde! confirmar a aparição
da defunta.
Não
deu tempo nem de respirar. Logo ao entrar, a velha viu a foto na
parede e disparou: a senhora que me procurou é parecida
com aquela lá. Mas a imagem era de uma foto antiga, de
quando era ainda jovem, podia ser um engano, Medalha Milagrosa!
Aí, a irmã correu para o quarto e trouxe fotos menos
antigas. E não é que na primeira batida de olhos a
velha agarrou uma foto e, certa como um e um são dois, confirmou:
olha ela aqui!
Um
arrepio profundo subiu pela espinha e apertou o coração
da mulher, que desatou num choro amargo. Confirmou que a irmã
fora enterrada com o tal vestido, e confessou que não visitava
o túmulo há tempos. Pagou a velha e prometeu que iria
visitar a irmã no cemitério. "O fotógrafo
que acompanhava morre de medo dessas coisas e nem quis acompanhar
o final da história. Ficava lá de longe dizendo, vambora,
vambora!", lembra-se Celi
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