# Informações gerais


Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 235, em 17 de fevereiro de 2003

andre.azevedo@uniube.br


Histórias de assombrações, criaturas mágicas e fenômenos sobrenaturais fazem parte da cultura da cidade



André Azevedo da Fonseca


Mulheres misteriosas aparecem, revelam segredos e combinam encontros... até que acabam descobrindo que a defunta estava morta há mais de 20 anos

Dr. Humberto Ferreira, famoso médico de Uberaba, falecido em 2002, foi um importante pesquisador da doença de Chagas e um pediatra muito querido pelas famílias da cidade. Era notório seu espírito caridoso. Dr. Humberto sempre atendia de graça as pessoas que não podiam pagar. Não se sabe se era promessa, superstição, ou simplesmente um hábito de bom samaritano, mas o fato é que o médico também não costumava cobrar consultas realizadas depois da 18hs – nem mesmo em emergências domiciliares. A história a seguir foi relatada pelo professor da Uniube, Newton Mamede, que ouviu do próprio Dr. Humberto em uma entrevista de TV.

Era noite. Em uma casa localizada num determinado bairro da cidade, uma família sofria e chorava por causa da menina doente. Ela estava muito mal, a coisa parecia ser grave, e os pais, pessoas simples, não sabiam o que fazer, nem tinham condições para levá-la a um hospital. De repente, toc toc toc, batem à porta: era o Dr. Humberto, que dizia ter sido chamado para atender a criança. A família ficou surpreendida com a visita inesperada. O médico logo se aproximou, examinou a garota, fez o diagnóstico, recomendou alguns procedimentos e encaminhou para o tratamento.

A nuvem da desgraça pareceu ter se dissipado daquela casa. A menina estava salva. Todos ficaram mais tranqüilos, graças à confiança que depositavam nos cuidados do pediatra. Mas ficaram também curiosos, pois ninguém da casa havia ligado para ele. Quem havia chamado o Dr. Humberto? Depois de alguma conversa, tomaram coragem e perguntaram. O médico olhou para uma das velhas fotografias emolduradas na parede, apontou para uma delas e disse: "Foi aquela mulher ali".

Foi como uma facada no coração. Houve gritos, sustos, olhos arregalados, suores frios, parece que alguém desmaiou. Dr. Humberto assustou-se também com a reação. Uma das mulheres na casa, pálida e meio sem voz, explicou a ele, gaguejando e tremendo as mãos, que a mulher da fotografia, a tal que, segundo o médico, o chamara para salvar a menina… ai cruz credo, havia morrido há anos!

Histórias de fantasmas, criaturas mágicas e fenômenos sobrenaturais são freqüentes em uma cidade mineira de forte cultura religiosa como Uberaba. Mesmo os moradores urbanos, mais céticos e racionalistas, ainda guardam um ou outro caso fantástico para contar – e juram de pés juntos que é tudo verdade. Além disso, um dos fatores que enriquece esses relatos populares – característica fundamental na tradição da história oral – é a diversidade das versões, ou seja, cada um que ouve um caso acrescenta elementos de seu universo cultural ao contá-lo. De boca a boca, temperadas pelo contexto histórico, as histórias adquirem novos sabores e acabam por reunir os ingredientes mais significativos do imaginário coletivo de uma época.

O professor Mamede lembra da divertida insolência de seu pai – um pequeno exemplo da riqueza anárquica da criatividade popular. Quando o velho lascava uma piada, costumava atribuir as situações ridículas dos personagens anônimos a alguns nomes conhecidos da vizinhança, e contava a história como se o caso fosse verdadeiro. "Por exemplo, em uma piada que tinha um bêbado, em vez de começar dizendo: era uma vez um ‘pinguço’ que pediu um ovo no bar, etc…, ele se lembrava de algum bebum conhecido no bairro e dizia: sabe o Zé Maria, marido da dona Joana que mora ali na rua de baixo? Pois é, esses dias ele pediu um ovo no bar…", conta Mamede, às gargalhadas.

Mesmo com a diversidade dessa literatura oral, algumas situações e personagens se repetem. É difícil quem não conheça alguma variação da história da mulher fantasma que assombra o caminhoneiro na estrada; do defunto que aparece e dá o endereço do cemitério e – uma das mais populares – do morto que dá recados e é identificado através de foto, como no caso do Dr. Humberto. Independente das interpretações ao gosto do freguês (místicos, psicanalistas, espíritas, evangélicos, católicos, umbandistas, céticos, etc), mas sem dúvida influenciado pela literatura espírita muito presente na região, o fato é que, verdadeiras ou não, essas histórias constituem-se em referências culturais da identidade de Uberaba, e influenciam fortemente no sistema de valores dos moradores. A jornalista e professora da Uniube, Celi Camargo, guarda uma história boa, da categoria "morto que dá recados e é identificado através de foto":

"Fazer matéria de finados é aquela pentelhação sempre", brinca a jornalista. Ela queria pautar alguma coisa diferente para publicar no jornal. Enfim, encontrou um caso curioso de senhora que trabalhava lavando túmulos no cemitério. Foi procurá-la no batente. "Perguntei se ela tinha uma história ‘daquelas’. Ela disse que sim, e me contou o seguinte:

– Uma senhora muito vistosa, usando um vestido "mamãe dolores" (vestidinhos estampados, com saia rodada) pediu que eu lavasse um certo túmulo. Mas ela disse que estava com pressa, não podia esperar que eu terminasse. Mas garantiu que, depois que eu lavasse, era pra procurar em um endereço que me deu, perto do Uberabão, e ir lá receber o pagamento."

A lavadora de túmulos foi ao endereço indicado, mas a dona que atendeu a porta disse que não era lá. A velha insistiu e decidiu não arredar pé, porque tinha certeza que o endereço estava certo. Descreveu a senhora do vestido mamãe dolores e queria receber o pagamento de qualquer jeito. A dona da casa – ela estava fazendo almoço – percebendo que a velha estava bem intencionada, pediu que entrasse. Na verdade, outra coisa cutucara sua hospitalidade: desde o momento em que a velha fizera a descrição, a dona ressabiou-se, porque a moça do vestido mamãe dolores, por algum motivo estranho, ai ai ai, a fizera lembrar-se da irmã, morta há mais de doze anos. Pensou até em mostrar uma foto da finada para esclarecer o engano ou – Deus me livre e guarde! – confirmar a aparição da defunta.

Não deu tempo nem de respirar. Logo ao entrar, a velha viu a foto na parede e disparou: a senhora que me procurou é parecida com aquela lá. Mas a imagem era de uma foto antiga, de quando era ainda jovem, podia ser um engano, Medalha Milagrosa! Aí, a irmã correu para o quarto e trouxe fotos menos antigas. E não é que na primeira batida de olhos a velha agarrou uma foto e, certa como um e um são dois, confirmou: olha ela aqui!

Um arrepio profundo subiu pela espinha e apertou o coração da mulher, que desatou num choro amargo. Confirmou que a irmã fora enterrada com o tal vestido, e confessou que não visitava o túmulo há tempos. Pagou a velha e prometeu que iria visitar a irmã no cemitério. "O fotógrafo que acompanhava morre de medo dessas coisas e nem quis acompanhar o final da história. Ficava lá de longe dizendo, vambora, vambora!", lembra-se Celi

pág. 1 de 3 - próxima

página principal