Compromisso
com a ciência
Newton Luís Mamede
A expressão
bater na mesma tecla pode ser evocada aqui, nas considerações
de que a ciência é conhecimento certo, seguro, que persegue
ou busca a verdade dos fatos ou dos fenômenos que constituem seu
objeto. Freqüentemente insistimos nesses conceitos, nas reflexões
que apresentamos neste espaço. E, com base nisso, podemos afirmar
que o título acima pode muito bem ser traduzido para compromisso
com a verdade, já que o que constitui a ciência é
a verdade dos conceitos que ela emite.
Mas qual é o sujeito desse compromisso? Quem é que deve
assumir, ou ter o compromisso com a ciência e, conseqüentemente,
com a verdade? A resposta é óbvia, evidente: o sujeito
desse compromisso é o estudioso em nível cien-tífico,
ou o estudioso responsável e sério, ou o pesquisador,
enfim, o cientista. Predicados que devem caracterizar, também,
o professor universitário. Detentor do conhecimento científico,
então esse estudioso é o grande conhecedor da verdade,
isto é, daquilo que constitui a essência do objeto de seu
estudo, ou, numa expressão redundante, a essência do ser
que ele estuda ou pesquisa.
Estendendo a abrangência desse sujeito, do âmbito da pessoa
para o da instituição que o abriga, podemos dizer que
a universidade é o grande sujeito do compromisso com a ciência,
portanto do compromisso com a verdade. Isto é, os conceitos emanados
de uma universidade, metonimicamente entendida como o universo dos estudiosos
que nela atuam, devem ser corretos, certos, reveladores do que o ser
é de fato, e não do que ele parece ser.
Mais: devem ser conceitos verdadeiros, que espelhem ou retratem a verdade
do ser, do objeto de estudo e de pesquisa. E, como conclusão
última, devem ser conceitos que inspirem confiança, porque
os seus emissores são estudiosos de nível universitário,
de conduta científica. Portanto, adeptos da verdade.
Agora: é isso mesmo que acontece? Sempre? Em todas as universidades,
especialmente as brasileiras? Já expusemos, por várias
vezes, aspectos que contradizem o teor ou a essência de uma universidade.
Aspectos que, paradoxalmente, confrontam a universidade real com a ideal.
Aspectos que mostram contradições entre o que ela é
e o que ela deve ser.
A famosa reforma universitária, que está acontecendo periodicamente,
está longe do ideal. Acontece muito mais nas bordas, na periferia,
do que na essência, ou núcleo. Em âmbito nacional,
as reformas que ocorrem nas universidades são mais de procedimentos,
de nomenclaturas, de formalidades, de estrutura administrativa, de legislação,
de burocracia do que de conteúdo.
Outra vez, o paradoxo: à medida que se exigem qualificações
avançadas do corpo docente, com pós-graduações
em mestrado e doutorado, ocorrem, também, os desvios, com disparates
conceptuais que não condizem com a essência da universidade.
Disparates sem fundamento científico, mas que constituem base
até para certas "teorias" adotadas e divulgadas. Disparates
que comprometem a universidade, que abalam a confiança de que
deve ser merecedora.
O compromisso com a ciência, portanto com a verdade, é
a marca, o identificador dos estudiosos universitários, professores
e alunos, e, por extensão, da universidade. Compromisso que não
se pode negligenciar, de que não se pode desviar, sob pena de
descaracterizar, de despersonalizar a universidade. E de fazê-la
cair em descrédito.
Newton Luís Mamede é Ombudsman da Universidade de Uberaba