Auto-afirmação
profissional
II
Newton Luís
Mamede
Dando continuidade
ao artigo anterior, insistimos no conceito de que o magistério
deve ser exercido como profissão autônoma e distinta, com
identidade, personalidade e dignidade próprias, para cuja prática
se exige preparo adequado e específico, de base científica
e didático-pedagógica, com princípios assentados
na psicologia educacional.
Tal preparo destina-se a professores de todos os níveis, incluindo,
evidentemente e com total pertinência, os universitários.
Prova evidente da necessidade desse preparo de base didático-pedagógica
para professores universitários é a exigência legal
de um mínimo de dis-ciplinas de na-tureza pedagó-gica,
isto é, que orientam a prática educacional, para os cursos
de pós-graduação lato-sensu. Cursos que têm
o objetivo, a finalidade precípua de preparar docentes para atuarem
na sala de aula de escolas superiores. Essa exigência evidencia
o caráter pedagógico, educacional, do magistério
superior, dos professores que vão atuar em instituições
universitárias.
É um conceito deturpado, errôneo, pensar que, para ser
bom professor de cursos superiores, basta ser bom "de matéria",
isto é, ter apenas o conhecimento científico dos conteúdos
das disciplinas que tal professor ministra, disciplinas específicas
ao respectivo curso para o qual ele se formou. Isso não basta
nem mesmo para quem se comporta como mero transmissor ou "repassador"
de assuntos... O trabalho de um professor é interpessoal. A ação
pedagógica lida não só com a razão, mas
também com a emoção; não só com o
intelecto, mas também com a sensibilidade; não só
com a racionalidade, mas também com o afeto. É uma relação
entre pessoas, uma troca de experiências e de vivências.
Relação em que a conduta do mestre é, também,
um recurso didático.
Na moderna pedagogia, o binômio ensino-aprendizagem dá
maior ênfase à aprendizagem. O professor não é
aquele que apenas ensina, mas o que facilita, estimula, conduz e orienta
a aprendizagem ato pessoal do aluno. Binômio: o professor
e o aluno; o orientador e o orientando; o que ensina e o que aprende.
Mas o ensino só tem sentido e validade quando torna possível
a aprendizagem. E esse tornar possível, por ser um ato interpessoal,
não acontece sem a par-ticipação da emo-ção,
do afeto, da sensibilidade. Si-tu-a-ções presentes na
didática, na pe-dagogia, na ativi-dade e na missão de
educar.
Por tudo isso, a formação de um professor é, tam-bém,
própria, espe-cífica, dotada de identidade, de personalidade,
de autonomia. For-mar professor não é aproveitar intelectuais,
ou cientistas, ou profissionais de qualquer formação universitária,
para serem jogados nas escolas e simplesmente darem aulas... A profissão
do magistério não pode ser o refúgio de outras
profissões. É comum, conforme o afirmamos no texto anterior,
profissionais liberais estenderem suas atividades ao magistério
na universidade, como um complemento e, em quase todos os casos, como
profissão secundária, de menor importância. Proce-dimento
muito comum em escolas superiores isoladas ou em universidades do interior.
A manutenção, a persistência desse estado deturpado
prejudica, ofende, degrada a auto-afirmação do magistério
como profissão independente de outras, distinta, autônoma,
personalizada. O magistério superior não pode continuar
sendo profissão secundária.
Newton Luís Mamede é Ombudsman da Universidade
de Uberaba