"Aluno"
ou
"estudante"?
II
Newton
Luís Mamede
Estendendo as considerações
exaradas no artigo anterior, trataremos da divulgação
de heresias no meio universitário, já em âmbito
nacional, a respeito da confusão que se faz sobre a etimologia
da palavra aluno. Vimos, naquele artigo, que a idéia que já
está ganhando campo vantajoso e, infelizmente, desastroso é
a de que a palavra significa "não luz", ou "sem
luz", pois, segundo etimologia forjada e levianamente inventada,
"é formada pelo prefixo a-, que significa negação,
e pelo elemento lun-, adulteração de lumen, luminis, do
latim, que significa luz"...
Vimos que se trata de erro grosseiro, destituído de senso crítico
e de espírito científico dos inventores da tal etimologia,
pois a palavra, que já existe em latim muito antes de Cristo
(alumnus), significa, dentre outras idéias: criança de
peito (isto é, que mama na mãe), lactente, menino; e,
daí: aluno, discípulo. E a etimologia é simplesmente
a seguinte: alumnus deriva do verbo alere, em latim, que significa:
alimentar, nutrir, crescer, desenvolver, animar, fomentar, criar, sustentar,
produzir, fortalecer, etc.
Uma das conseqüências do erro citado e alastrado (aluno significa
não luz, sem luz) é a adoção da palavra
estudante, em lugar de aluno, por professores universitários
que "aprenderam" essa bobagem e acreditam nela, sem a devida
pesquisa na fonte segura, isto é, em dicionários respeitáveis
e confiáveis de língua portuguesa e de língua latina.
E, acreditando nela, seguem-na e adotam-na em sala de aula ou em outros
setores de uma universidade. Isto mesmo: de uma universidade!
Mais ainda: o nível de professores que pregam essa heresia é
de alto "gabarito", de pós-graduação
inclusive. Tão logo foram divulgados os artigos anteriores, em
que expusemos o fato e as devidas explicações (corretas)
sobre a etimologia da palavra aluno, diversos professores que conhecemos,
alguns até nossos ex-alunos, comunicaram-nos, assustados e decepcionados,
que, em cursos de mestrado ou de doutorado que eles fizeram, em cidades
de Minas Gerais e de São Paulo, a bobagem é ensinada e
(pasmem!) exigida pelos professores orientadores, mestres e doutores:
empregar a palavra estudante, em lugar de aluno, pois esta significa
"ausência de luz", por isso é "ofensiva"
ao aluno... (eles diriam: ao estudante...). Muitos desses professores
são conceituados pedagogos e ministradores de palestras e cursos
de treinamento de outros tantos professores.
E todos os que comentaram conosco esses desvios, alguns que aprenderam
o errado, e outros que nunca adotaram tal absurdo, fizeram os mesmos
questionamentos, alguns dos quais já mencionamos noutros artigos:
como confiar na universidade?, como confiar em professores universitários?,
como confiar em pedagogos que constroem ensinamentos ou teorias fundados
em erros, em conceitos falsos?, como confiar no que ouvimos e "aprendemos"
de professores de elevado conceito?, em quem devemos confiar?, qual
a segurança que a universidade inspira?
Agora, vejam a bobagem maior. Na própria língua portuguesa,
a palavra estudante não é sinônima perfeita da palavra
aluno. Tampouco elas possuem equivalência exata. Elas não
possuem o mesmo emprego, isto é, não são usadas
nas mesmas situações ou estruturas de frase. Um professor
diz, por exemplo: "Antônio foi meu aluno, e não meu
estudante "... E mais: nós fomos (ou eu fui),
com muita honra, aluno do eminente gramático Evanildo Bechara,
e não "estudante" dele... Alguém nos informa
satisfeito: "minha filha é sua aluna", e não
sua "estudante"... Por outro lado, dizemos: Diretório
Central dos Estudantes, e não "dos Alunos". E assim
por diante.
É urgente, pois, resgatar (palavra da moda...) a seriedade, a
responsabilidade e a confiabilidade que uma escola superior precisa
inspirar. Como sede do saber científico, a universidade não
pode ensinar, adotar nem divulgar erros, inverdades, conceitos falsos.
Sob pena de perder o respeito e a credibilidade que lhe são devidos.
Newton Luís Mamede é Ombudsman da Universidade
de Uberaba