"Aluno"
ou "estudante"?
Newton Luís
Mamede
Freqüentemente, a sociedade é "premiada" com algumas
"pérolas culturais" (presente de grego!) sem nenhuma
sustentação científica, mas que surgem do nada
e de repente, e, também de repente, ganham abono e trânsito
livre na própria sociedade. Isso constitui um perigo, evidentemente,
pois o fato pode transformar um erro, uma mentira, uma bobagem em verdade,
e, aí, a heresia pode consagrar-se como "ciência"
e convencer os incautos e leigos naquele assunto ou naquele objeto de
conhecimento.
Quando se trata de um equívoco, de um desvio, de um erro nascido
numa universidade e por ela divulgado como certo, a coisa, então,
torna-se muito mais grave, praticamente criminosa, pois engana, confunde,
ilude os alunos e o público, ou a sociedade. O caso vem à
tona devido a um conceito errôneo, falso, que vem sendo divulgado
no meio universitário, principalmente entre professores e dirigentes.
E até pregado por palestrantes e treinadores pedagógicos...
Trata-se da etimologia da palavra aluno.
O absurdo que vem ganhando campo é o "ensinamento"
de que tal palavra significa "não luz", ou "sem
luz", pois é "formada pelo prefixo a-, que significa
negação, e pelo elemento lun-, adulteração
de lumen, luminis, do latim, que significa luz"... E, por significar
"ausência de luz", a palavra é "pejorativa,
depreciativa, ofensiva, antipedagógica", e outros palavrões...
Agora vejam quanta bobagem e quanta irresponsabilidade! Ou melhor, quanta
ignorância! Partindo de um meio culturalmente elevado, como a
universidade, a heresia ensinada e divulgada constitui uma contradição
da ciência, coisa que a universidade não pode ser, pois
ela mesma, a universidade, é sede da ciência, isto é,
do conhecimento certo, seguro, fundado na verdade. Para que os leitores
tenham idéia do tamanho do absurdo conceptual acima citado, vamos
apresentar a etimologia e os significados da palavra aluno. Apresentação
simples e rápida, já que este artigo não é
um tratado de filologia, nem uma aula. A palavra já existe em
latim (muito antes de Cristo...): alumnus, alumni, substantivo masculino
da segunda declinação. 1. Sentido próprio: criança
de peito. Sentido empregado por Cícero, na obra Verrinas. 2.
Daí, sentido figurado: discípulo. Sentido empregado também
por Cícero, na obra De finibus. Fonte: FARIA, Ernesto.
Dicionário Escolar Latino-Português. MEC, 1962. Prosseguindo.
O substantivo alumnus, por sua vez, deriva do verbo alere (alo, -is,
alui, altum ou alitum, alere. Informações citadas para
quem sabe consultar verbo em dicionário latino). Significados
do verbo alere: 1. Alimentar, nutrir (sentido próprio e figurado).
(Cícero: obra De Natura Deorum). 2. Daí: fazer crescer,
desenvolver, animar, fomentar (sentido próprio e figurado). (Cícero:
obra Catilinárias) Fonte: a mesma acima citada.
Passemos, agora, à etimologia e aos significados apresentados
por outra fonte (HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da
Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001). (Transcrição
literal): ETIM lat. alumnus, i criança de peito, lactente,
menino, aluno, discípulo, der. do v. alere fazer
aumentar, crescer, desenvolver, nutrir, alimentar, criar, sustentar,
produzir, fortalecer etc. E então? Como pode alguém,
de instrução universitária, inventar que aluno
é uma palavra formada pelo prefixo a- (negação)
e pelo elemento lun-, adulteração de lumen, luminis (em
latim: luz)? Isso é até "bonito", como invenção
engenhosa...
Mas é puro engodo, mentira, leviandade! Já pensaram se
todo a- inicial de palavras em português for o prefixo a- com
o sentido de negação? O que significariam, então,
palavras como amarelo, abacaxi, azul, abacate?... E a palavra assalariado?!
Já imaginaram se ela significasse "não salário",
ou "sem salário"?... Seria o retorno ao trabalho escravo...
Trabalho nosso: de professores universitários, de funcionários
graduados...
Newton Luís Mamede é Ombudsman e professor
de Língua Portuguesa e de Língua Latina da Universidade
de Uberaba