Brasil
Burocracia atrapalha Fome Zero
Levantamento
do PFL mostra que a cada R$ 1 investido no programa, governo gasta R$
1,77 com custos administrativos
Parte do dinheiro
aplicado no mais vistoso programa social do governo está se perdendo
na burocracia federal. Esta é a principal conclusão do
mapeamento da execução do Programa Fome Zero, encomendado
pela liderança do PFL na Câmara, com base nas informações
do Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi).
O estudo revela que, até 22 de outubro, a cada R$ 1 repassado
para um beneficiário do programa, outro R$ 1,77 se perde em custos
administrativos.
O levantamento mostra que, dos R$ 198 milhões gastos até
agora, pouco mais de R$ 85 milhões foram consumidos pelos custos
operacionais do programa, como o pagamento de diárias e passagens,
material para distribuição gratuita e contratos com pessoas
físicas e jurídicas. O mapeamento indica que, em 10 meses
de execução, o Fome Zero recebeu apenas 11,43% da dotação
orçamentária de R$ 1,32 bilhão em 2003.
- Estamos fazendo um trabalho de médico: olhando, conversando
e pedindo ao paciente exames para ver se tem alguma doença -
ironizou o líder do PFL na Câmara, José Carlos Aleluia
(BA).
O deputado baiano promete usar a tribuna da Câmara nos próximos
dias para criticar a execução dos programas sociais pela
administração federal. Aleluia cobra a redução
nos custos operacionais dos projetos e sugere que a economia seja usada
como instrumento para ampliar o combate à pobreza.
- Não vejo dolo nem indícios de corrupção,
mas está patente que o governo é ineficiente e funciona
mal - diz o político pefelista.
No documento formulado pelo corpo técnico do partido, Aleluia
chama a atenção para o que considera má aplicação
dos recursos, centrando o foco nos gastos com pagamento de diárias
e passagens aéreas, que consumiram pouco mais de R$ 1 milhão.
- Estes gastos consumiram os benefícios doados a quase 20 mil
famílias, considerando-se o repasse de R$ 50 por beneficiário.
O acompanhamento da execução do Fome Zero é mais
uma iniciativa do PFL para consolidar-se como oposição
ao governo do PT. O partido formou um grupo de técnicos para
checar passo a passo a execução do Orçamento da
União e identificar possíveis irregularidades ou desperdício
de dinheiro público. Nas últimas semanas, centrou o foco
no Ministério dos Esportes, nos programas sociais e nos gastos
com viagens.
Secretário-executivo do Ministério Extraordinário
de Segurança Alimentar e Combate à Fome (Mesa), Flávio
Borges Botelho Filho afirma que os custos operacionais do Fome Zero
são mais baixos do que os observados na execução
de programas sociais dos governos passados. Segundo ele, a revisão
do cadastro único de beneficiários atendidos pelo cartão-alimentação
significará uma economia de R$ 1,5 bilhão no primeiro
ano de implantação do programa.
- Eles não fizeram cálculos corretos. A oposição
tem o dever e o direito de criticar, mas poderia caprichar mais nos
dados que usa - assegurou.
Em conversa com o Jornal do Brasil, Botelho informou que o cartão-alimentação
favorece hoje 1 milhão de beneficiários e outros 300 mil
foram excluídos por estarem fora do perfil. Explicou alguns dos
dados compilados pelo PFL. A rubrica ''serviços terceirizados
pessoa jurídica'', informou, refere-se a convênio firmado
entre o ministério e a Unesco para a implantação
do programa.
O contrato envolve R$ 33,6 milhões e será executado ao
longo dos quatro anos da gestão petista. O valor engloba a contratação,
pagamento e treinamento de pessoal. O Fome Zero funciona em 1.277 cidades,
atendimento que deve alcançar 2.500 municípios até
dezembro se o ministério cumprir as metas.
O secretário-executivo rebateu a crítica de má
execução do Orçamento do ministério neste
ano. Segundo ele, o Fome Zero foi criado em janeiro, logo após
a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas o pagamento
dos benefícios tiveram início apenas em agosto, após
a montagem do programa e avaliação do cadastro de beneficiários.
- Nossos gastos são exponenciais. Até dezembro, o dinheiro
estará todo gasto.
Presidente do Instituto de Estudos do Trabalho e da Sociedade (IETS)
e especialista em políticas públicas, André Urani
acha que ainda é cedo para avaliar a execução e
os resultados do Fome Zero. Na sua opinião, ainda faltam dados
consistentes.
- Não tenho simpatia pelo Fome Zero, mas os dados são
insuficientes. Todo programa, quando começa a ser executado,
tem um custo administrativo alto.
Fonte: jbonline.terra.com.br/