EUA "caçam" latinos para lutar no Iraque

Pentágono quer elevar porcentagem de latinos nas Forças Armadas; até não-americanos já são aceitos


Com o número de mortos no Iraque aumentando e a "guerra ao terrorismo" não dando sinal de estar ficando mais fácil, as Forças Armadas dos EUA estão indo, cada vez mais, buscar na comunidade latina -incluindo dezenas de milhares de imigrantes que não têm cidadania americana- reforços dispostos a combater e a morrer em seu nome.

O Pentágono vê a comunidade latina como o grupo étnico mais promissor em termos de recrutamento militar, pois ela cresce rapidamente e inclui uma alta porcentagem de homens de baixa renda, com poucas perspectivas de emprego ou educacionais.

Os esforços de recrutamento já se estendem aos não-americanos. O governo diz que eles poderão pedir a cidadania no dia em que se alistarem nas Forças Armadas, sendo dispensados do prazo de cinco anos após a obtenção do "green card". Há mais de 37 mil não-americanos alistados nas Forças Armadas, quase todos latinos. Irritando o governo mexicano, os recrutadores chegam a atravessar a fronteira à procura de jovens que, provavelmente, acabam abandonando os estudos.

Segundo o Pentágono, o objetivo é elevar o a proporção de latinos nas Forças Armadas -de cerca de 10% para até 22%. Mas, enquanto as autoridades elogiam a disposição de mexicanos que vivem nos EUA e de latinos de outros países, a estratégia vem sendo criticada por grupos contrários à guerra. Eles dizem que se trata de uma exploração cínica de jovens pobres, que são convocados para servir de "bucha de canhão".

Estatísticas divulgadas pelo Centro Hispânico Pew, um centro de estudos independente, mostram que uma porcentagem desproporcional de latinos já se incumbe das tarefas mais perigosas. Embora ainda sejam sub-representados nas Forças Armadas -compunham 9,4% dos homens alistados em 2001, sendo que representam 13,4% da população total-, os latinos são super-representados em tarefas que envolvem o manejo de armas (17,7%).

O primeiro morto do lado americano no Iraque foi um latino que nem sequer tinha cidadania americana: o órfão guatemalteco, criado em Los Angeles, José Gutierrez. Embora não existam listas precisas com a porcentagem de mortos de cada etnia, é certo que a lista dos mortos e feridos do Pentágono inclui dúzias de nomes hispânicos. E pelo menos 10 dos quase 300 mortos até agora não tinham cidadania americana.

Essa busca de um grupo étnico específico é algo inusitado nos EUA. Na Guerra do Vietnã, quando existia alistamento militar obrigatório, a característica mais comum dos homens que combatiam era sua classe social.

Hoje as Forças Armadas aplicam o chamado ""alistamento de pobres", promovendo sua imagem como uma opção de carreira atraente ou como ponto de partida para oportunidades educacionais maiores, em comunidades que têm poucas outras opções.

Nas regiões mais pobres do país, os recrutadores chegam a conversar com crianças ainda nas escolas primárias. Em uma escola de segundo grau da zona leste de Los Angeles, cujos alunos são principalmente latinos, os estudantes ficaram tão irritados com a presença dos recrutadores que lançaram uma campanha contra eles.

E essas atividades parecem ser comuns do outro lado da fronteira com o México. "É mais ou menos comum alguns recrutadores irem a Tijuana. Eles distribuem folhetos", disse um recrutador de San Diego. Um recrutador que visitou uma escola, em Tijuana, gerou um incidente diplomático em maio, quando o diretor o expulsou da escola e o governo mexicano protestou. Depois disso, o Exército dos EUA negou que se tratasse de uma prática comum.

fonte: Jornal Independent