Para
enviada da ONU, polícia brasileira mata e sai impune
SÃO PAULO
(Reuters) - Em visita ao país, a relatora da Organização
das Nações Unidas (ONU) para execuções sumárias,
Asma Jahangir, afirmou nesta terça-feira que há muitas
evidências apontando que a polícia brasileira não
é punida quando comete assassinatos e se mostrou preocupada com
o número elevado de denúncias contra policiais. "Eu
posso dizer que nos relatos eu tive muitas indicações
que a polícia sai impune quando comete assassinatos, literalmente
assassinatos", disse Asma Jahangir após se reunir a portas
fechadas com o ouvidor da polícia de São Paulo, Itajiba
Farias Ferreira Cravo, no centro da cidade.
Segundo números da Ouvidoria, neste ano até setembro foram
registradas 543 denúncias de homicídios cometidos por
policiais, contra 574 em 2002 e 480 em 2001. "Eu digo com muita
tristeza que há um grande número de casos de policiais
acusados de homicídios e há muita evidência que
isso realmente ocorreu", disse Jahangir.
Para ela, os dados estão de acordo com a realidade e o número
alto indica ainda que a consciência e a crença da população
nas instituições de defesa civil aumentaram. "Se
eles tivessem me informado que havia apenas três denúncias,
eu me preocuparia, porque a Ouvidoria não teria nenhuma ligação
com a população", afirmou a paquistanesa Jahangir.
A enviada da ONU está no Brasil para uma missão de três
semanas com objetivo de reunir dados e testemunhos para produzir um
relatório sobre execuções sumárias e assassinatos
extrajudiciais no país.
O ouvidor Ferreira Cravo reconhece o número de denúncias
é muito grande e apontou que há um problema também
de lentidão da Justiça estadual, o que cria um sentimento
de insatisfação na população.
O grupo de direitos humanos Centro de Justiça Global divulgou
há duas semanas um estudo no qual afirma que as infrações
cometidas por policias são comuns e recebem aprovação
de autoridades locais. O relatório do grupo mostra que desde
1997 foram mortas 335 pessoas por policiais e, em 202 dos casos, não
houve nenhuma ação para julgar ou indiciar os acusados
de cometerem os crimes.
No final de semana, Flavio Manoel da Silva, de 24 anos, foi morto em
uma cidade na fronteira entre Pernambuco e Paraíba poucos dias
após se encontrar com a enviada da ONU. Segundo o vereador Manoel
Mattos (PT-PB), Silva supostamente tinha informações sobre
esquadrões da morte atuando no nordeste e teria sido assassinado
por ter conversado com Jahangir. A organização não-governamental
de direitos humanos Anistia Internacional apontou em um estudo recente
que a Polícia do Rio de Janeiro teria matado 621 civis nas favelas
da cidade nos primeiros seis meses do ano.
FONTE:
Folha online