Jornalismo
de Transformação
Edvaldo Pereira Lima
A arte da narrativa,
aplicada à construção de matérias que expressam
em imagens empolgantes a realidade, exerce um natural e justo fascínio
sobre o leitor. Igualmente, dispara em jovens talentos potenciais um
entusiasmo contagiante. É bom que seja assim.
É bom que possamos ler aberturas de textos tão bem resolvidas
como esta, de "Vamos Dançar?", de Ana Taís Martins,
produzida para o livro coletivo Econautas: Ecologia e Jornalismo Literário
Avançado (São Paulo e Canoas: Fundação Peirópolis
e ULBRA, 1996), que tive a oportunidade de coordenar:
Avançando devagar e sempre o senhor que aparenta mais de sessenta
anos, mas pode ter menos, afinal, o tempo passa rápido para uns
e lento para outros, está quase na esquina com a avenida Consolação,
centro de São Paulo. O carrinho pelo senhor puxado já
vai abarrotado de jornais velhos, papéis rejeitados não
usados e usados e a zoeira da avenida torna inaudível nossa voz
para nós mesmos, mas o tal senhor se recusa a dar ouvidos a tamanha
afronta auditiva. Equipou o carrinho com um rádio toca-fitas
e lá vai ele, sim senhor, com a nona de Beethoven em volume estratosférico.
Se "Pour Elise" anuncia a entrega do gás, por que "Ode
à Alegria" não anuncia a chegada do papeleiro?
Lembro-me, quando garoto, de ler matérias maravilhosas que encantavam,
na revista Realidade. Aquilo ecoava em mim, ajudava-me a encontrar uma
identidade própria, uma possível vocação.
Vibrava por dentro. Pensava comigo mesmo, é isso que quero, ver
o mundo com esses olhos, descobrir as vidas das pessoas, explorar territórios
deslumbrantes da realidade humana. . É isso o que vale a pena
fazer, no jornalismo. Colocar tudo no papel com estilo. Arte. Arte em
forma de narrativa do que é real, vivo. Como neste belo trecho
de Nasceu!, de Narciso Kalili, matéria publicada na edição
de janeiro de 1967 da revista:
Deixaram a rua de casas de madeira quase todas iguais - cores vivas
e muitas flores na frente - descendo para a praça central. Dali
entraram para a esquerda, numa rua de terra. Subiram e desceram várias
ladeiras e pararam onde a rua não tinha mais saída.
- É aqui, dona Odila.
A viagem de automóvel foi curta, mas José Rodrigues dos
Santos, o futuro pai, aproveitara para perguntar muito:
- Ela está sentindo dores. Isso é normal? Ela está
fraca, pálida. Será que tudo vai dar certo? Ela precisou
fazer tratamento para engravidar. A senhora acha que não tem
perigo?
Dona Odila o tranqüilizava, falando pouco e rindo muito:
- Êta, porca pipa. Tá nervoso, homem? Vai dar tudo certo!
Arte. Arte que ilumina. Como um bom conto, um bom romance, um bom filme.
Uma poesia, quase, em forma de prosa, se pudermos brincar um pouco com
os conceitos.
Mas o tempo passa, a gente amadurece. Depois da fase do primeiro fascínio,
uma questão pungente foi rondando minha mente, até explodir
clara como a manhã num dia de verão. Em forma de pergunta
incômoda:
- Ok, tudo bem. Arte esteticamente atraente. Mas para que?
A serviço de que?
Então meu olhar menos artístico e mais crítico
começou a revirar as
entranhas da face estética para tentar encontrar lá dentro,
por trás da beleza externa, uma função que move
a construção da obra de arte, seja uma pintura, seja o
texto jornalístico de qualidade. Essa função que
eu procurava foi traduzida pelo psicólogo e educador Dante Moreira
Leite, que um dia disse que a arte narrativa pode provocar a elaboração
de um pensamento produtivo aquele que provoca uma catarse mental
no leitor, ajudando-o a dar um salto de qualidade na resignificação
da realidade ou de um pensamento destrutivo aquele que
deixa o leitor no mato sem cachorro, preso numa selva mental de confusões
e angústias diante de uma expressão sombria da realidade.
Indo mais adiante, depois, vi o quanto boa parte da comunicação
de massa moderna o cinema, a televisão, o jornalismo
e da arte menos popular da literatura mascaram muitas vezes o desempenho
da função do pensamento destrutivo, construindo por trás
da embalagem falaciosa de uma fachada cosmeticamente arranjada um conteúdo
interno vazio, oco, depressivo. O excesso de exposição
dos aspectos negativos da sociedade gera uma atitude mental coletiva
ruim, camuflada por trás de um texto bem arquitetado tecnicamente
às vezes -, mas de olhar míope, viciosamente focado
no ângulo destrutivo da alma coletiva. Um olhar que empobrece
a nossa capacidade de enxergar a realidade com outro vigor, além
das aparências.
No caso do jornalismo, tristemente há uma acomodação
reativa. Isto é, o jornalismo, na maioria dos casos, usa sua
tecnologia narrativa como na televisão, por exemplo
de potencial extraordinário apenas para retratar o real tal como
os veículos unilateralmente enxergam. A desculpa-chavão
é que o jornalismo mostra em demasia o lado podre da sociedade
por que a sociedade está podre. Esta é a condição
reativa, de uma postura simplesmente passiva diante dos fatos, vindo
a reboque dos acontecimentos.
Ora, avanços extraordinários em ilhas de vanguarda do
conhecimento moderno sugerem o quanto a exposição dos
indivíduos a um padrão percebido de realidade tende a
perpetuar aquele padrão coletivamente. Quanto mais exposição
a temas de violência na mídia, mais a mente coletiva da
sociedade fica presa a ela. A Teoria dos Campos Morfogenéticos,
elaborada por biólogos nos anos 30 do século passado ,
mais recentemente atualizada por Rupert Sheldrake, está aí
para propor uma explicação desse tipo de fenômeno.
Julgo uma grande perda de energia, talento, recurso e tempo, além
de ameaça à saúde mental coletiva, a mídia
dedicar seu potencial fabuloso de sensibilização a essa
tarefa reativa que prende a mente das pessoas num dilema comandado pelo
medo. Serve ao propósito de manter a consciência dos indivíduos
e da coletividade num baixo patamar de compreensão da realidade.
Por isso advogo para a narrativa jornalística de qualidade uma
outra atitude. A postura proativa. O jornalismo aberto a esses novos
caminhos em que percebemos a realidade não mais sob uma ótica
reduzida, centrada apenas num patamar excludentemente racionalista em
excesso. Um jornalismo que não fica à mercê do relato
passivo dos acontecimentos mas que percebe o eclodir de tendências
e probabilidades, que acompanha a gestação de visões
inovadoras, que sai do lugar comum. Que focaliza uma visão complexa,
buscando uma compreensão ampla, ajudando o ser humano a encontrar
novos significados, auxiliando-o a ampliar seu grau de consciência
de si mesmo, do outro, da existência. Um jornalismo baseado no
presente mas voltado ao futuro, também capaz de mergulhar no
passado para compreender contextos, processos, dimensões tempo-espaciais
reunidas como numa dança quântica de átomos num
certo momento iluminado de compreensão. Um insight revelador.
O segundo fascínio, enfim. Um jornalismo de transformação.
Que trabalha em prol da transformação individual e coletiva.
Busquei sugerir esse caminho a partir do Jornalismo Literário.
Senti na tradição dessa escola de narrativa um potencial
significativo, agregando à sua tecnologia de expressão
do real elementos de novos paradigmas das ciências que estão
transformando em profundidade nossa capacidade de compreender o mundo.
Contribuições de formulações compreensivas
como a Teoria dos Campos Morfogenéticos, já mencionada,
a Teoria dos Hemisférios Cerebrais , de campos como a físca
quântica, toda a linha da psicologia humanista, de Jung a Ken
Wilber, de propostas emergentes como a transdisciplinaridade. E propus
um caminho, delineando-o de maneira flexível com o nome de Jornalismo
Literário Avançado.
Não se trata de uma medida exercida por razões puramente
movidas pelo diletantismo intelectual. A situação trágica
do mundo moderno, cercado de guerras e violência por todos os
lados, o esgotamento crescente do modelo civilizatório que temos,
excessivamente calcado na questão econômica, pouco atento
às questões sociais, quase nada aberto ao genuíno
interesse pelo ser humano, a ignorância escondida por detrás
do brilho opaco da inteligência fria sem alma, os enormes ataques
da humanidade ao equilíbrio ecológico, tudo isso pede
com urgência uma transformação das consciências.
Pede uma coragem de rompimento com os modelos reducionistas de visão
de mundo que nos asfixiam. Pede ação transformadora. O
jornalismo não pode fugir ao seu compromisso com a vida.
Felizmente têm ocorrido algumas reações positivas
no meio jornalístico. Louvo iniciativas de prêmios de reportagem
como as do Instituto Ethos que educam o olhar da imprensa
não apenas para ver o problema das situações sociais
inquietantes, mas para especialmente conquistar boa vontade para com
as soluções sendo acionadas, como processos transformadores,
nas mais diferentes esferas da sociedade.
A minha semente de contribuição, nesse contexto, é
visualizar que na narrativa de qualidade podemos fazer algo e muito.
Podemos trazer o amor a aceitação das diferenças,
a busca da compreensão profunda do outro, a humildade de reconhecer
que a existência não só se constitui numa realidade
complexa mas contém uma certa porção de mistério
que não conseguimos explicar, a capacidade de nutrir uma cultura
de paz, a alegria de ver e retratar a vida tão diversificada
e paradoxalmente tão unificada nas suas diferentes formas
de volta ao texto jornalístico de profundidade. Podemos buscar
equilibrar o entendimento racional com o insight intuitivo. Podemos
ousar. Devemos tentar o novo. Temos a obrigação de estimular
jovens talentos a experimentar caminhos que ainda não foram pavimentados,
embora estivessem, talvez, delineados nos passos de gerações
anteriores.
Ousemos. Ousemos sonhar novos horizontes. Abramos nossas comportas de
percepção. Não tenhamos receio de sermos felizes.
Rompamos as barreiras do preconceito ilustrado que esconde sua profunda
ignorância por trás do medo. Percamos a vergonha de deixar
o coração pulsar junto com as nossas mentes .
Permitam-me terminar este texto como conclui meu livro Ayrton Senna:
Guerreiro de Aquário (Editora Brasiliense, 1995):
A consciência divina que habitou entre nós com o nome
de Ayrton Senna da Silva está fluindo em algum lugar da existência,
nos oceanos do grande mistério do Criador. Deixe-a em paz. Guarde
apenas a memória carinhosa do refrão inesquecível.
O nosso grito amoroso de guerra. "Olê, olê, olê,
olá, Senná, Senná". Uma lembrança para
cima, alto- astral no seu coração.
Somos todos divinos. Só que estamos ainda descobrindo isso. Portanto,
podemos saber que quem esteve entre nós, enroupado de corredor
de Fórmula 1, foi uma luz muito, muito especial. Que nos deu
o recado que pôde e se foi, muito rápido.
Continuamos aqui. Por enquanto. Um tempo. Esperemos que seja longo,
produtivo. Que tenhamos a coragem de co-criar a realidade saudável
que podemos. Aqui, já, agora. Brasil, Gaia, mundo. Você,
eu, todos nós. Como seres humanos. Como cidadãos e cidadãs.
E como crianças em evolução do Universo.