Profissionais do Prazer

Reprodução de pintura de Egon Schiele

A prostituição não deixou de ser uma atividade marginal. O que está mudando é a opção de belas garotas e rapazes pelo mesmo trabalho das tradicionais prostitutas e dos travestis


Diovana Miziara
6 período de Jornalismo

Ainda é cedo. São 3 h da tarde. Chegamos em uma chácara que é famosa pelas garotas que lá fazem programa. É uma chácara de luxo, com garotas muito bonitas, atraentes, e sempre bem arrumadas.

Um lugar bonito, bem arejado. Na entrada encontramos a guarita, um campo de futebol e o estacionamento. Ao chegar na varanda da casa, chamei por Bárbara, uma loira muito bonita e atraente, de olhos verdes, muito comunicativa e atenciosa, corpo bem delineado e que quando arrumada deve arrasar; é uma das garotas que fazem programa nesta chácara. Ela mesma me mostra o resto da chácara. Dentro da casa, uma sala para recepcionar os clientes e outra muito bonita com uma tv grande e DVD. Lá estavam algumas garotas que se esconderam debaixo dos cobertores ao perceberem uma jornalista por lá. Mais adiante, os quartos onde se fazem os programas. São muitos, cerca de 20 por noite. Todos com cama redonda, tv, frigobar... Muito bem organizados. Aliás, chegamos na hora da faxina. Estava quase tudo bem limpinho para mais tarde acontecer a grande "festa". Do lado de fora da casa, uma pequena boate, a piscina e os quartos das garotas que moram ali. São 14 meninas que trabalham na chácara, e mais ou menos sete moram no local. Mas em época de festa na cidade já chegou a ter 80 meninas fazendo programas nesta chácara.

Bárbara nos convida para sentar em uma das mesinhas da varanda. Eu, no começo preconceituosa, ficava me perguntando o porquê dessas garotas venderem o corpo assim. Mas a maioria de nós somos assim, preconceituosos. Não olhamos os motivos pelos quais essas garotas estão neste trabalho. Bárbara e a maioria de suas colegas, estão nesta profissão porque passam dificuldades financeiras.

"Estava desempregada, minha mãe também. Tenho um filho para sustentar, precisava achar alguma coisa".

Vinda de Patos de Minas, Bárbara trabalhou na Fenamilho em stands como promoter. Resolveu vir até aqui para talvez trabalhar em stands na Expozebu, mas acabou encontrando a casa; onde está a mais ou menos dois meses, novinha na profissão. Nem sua mãe sabe o que ela faz... " Minha mãe acha que encontrei uma pessoa rica que está arcando com minhas despesas".
Entre um cigarro e outro, ela conta que todo o dinheiro que ganha vai para a mãe que está cuidando do seu filho. O retorno financeiro é bom. Cada programa com duração de uma hora custa R$ 150,00. Mas, mesmo assim, a vida de uma garota de programa não é tão legal quanto possa parecer. "Em épocas dessas festas famosas aqui da cidade chegam a faltar meninas e acabo fazendo de 4 a 5 programas na noite".

Segundo ela, 95% dos clientes que freqüentam a casa são casados. "Ontem fiquei com um cara que me disse que fazia 40 dias que não transava porque a mulher tinha tido neném".

É por isso que ela afirma com convicção de que os homens são infiéis. Mas uma voz tímida e escondida vinda da cozinha diz: "não é não, alguns não são". Bárbara diz estar sozinha, "se eu tivesse alguém não estaria nessa vida, porque por incrível que pareça, eu sou fiel".
As outras meninas da casa ficaram ressabiadas e tímidas com minha visita. Elas se escondiam pelos cômodos e evitavam as conversas.

Bárbara está nessa vida só para tentar alcançar seus objetivos: fazer uma faculdade de enfermagem ou medicina e poder sustentar o filho e a mãe.

Muito simpática, surge outra garota, Patrícia uma morena também muito bonita, de corpo perfeito e seios empinados; é ela a dona daquela vozinha que vinha da cozinha; nos oferece um cafezinho e se recusa a participar da conversa. A única coisa que sabemos de Patrícia, é que ela tem um namorado e que sempre freqüenta a casa.

Nesse nosso mundo, tudo ficou tão moderno que até o sexo não requer compromisso. Nossa personagem diz que o "sexo é liberal". Ela nunca sofreu nenhum tipo de humilhação ou mesmo preconceito por isso, porque ela assume o que faz perante as pessoas.

"Fui na exposição e queria ir em um brinquedo, mas comentei com minha amiga que tinha esquecido o dinheiro. Um homem que estava perto de mim me disse para eu arrumar alguém que pagasse para mim. Sabe o que eu fiz? Eu disse a ele que era o que eu procurava e que se ele quisesse ser um deles que me procurasse e lhe entreguei meu cartão. Isso para mim não é humilhação. Agora se falarem da minha mãe, do meu filho ou da minha irmã mexeu comigo, não queira me ver nervosa".

Fazer trabalhos como esses, é um tanto complicado porque Bárbara já teve um cliente que a fez sentir nojo, ele estava bêbado, sujo e ainda por cima não queria usar camisinha, não fiz o programa".

Acabado a conversa, é hora de ir. O expediente aqui começa por volta das 16h e Bárbara precisa se arrumar.

À noite, o movimento de homens e até de mulheres é grande. Todas as garotas muito bem arrumadas, bem maquiadas e perfumadas ficam recepcionando os clientes, que no início, chegam tímidos no local. Elas que tomam a iniciativa. Conversam com os clientes, bebem com eles, fazem poses sedutoras, acabam despertando o desejo nesses homens que por algum motivo estão ali necessitando de prazer.

Muitos vão para os quartos fazer programas. Alguns não conseguem realizar o ato sexual devido a embriaguez, outros mesmo assim conseguem.

Acabado o programa, é hora de ir embora, satisfeito. Mas Bárbara e suas colegas continuam ali à espera de mais clientes, como se nada tivesse acontecido anteriormente. Elas tomam um banho. Se tiver mais algum cliente, elas atendem, se não, vão dormir para no dia seguinte continuar.

A vida noturna aqui é muito agitada. A casa está sempre cheia. Durante o dia só funciona o pessoal da faxina. As garotas recuperam suas energias para a noite. Aqui, tudo pode acontecer, desde que os clientes paguem bem por isso. Mesmo assim, as meninas são muito carentes e acabam se apegando muito uma às outras. Muitas estão ali sem a família, sem namorado, sem os filhos, só em função do trabalho. A amizade cresce a cada instante entre elas, porque só podem contar umas com as outras, já que estão longe de todas as pessoas que gostam.

Assim é a vida noturna de algumas partes da cidade de Uberaba. Muito movimento. Mesmo tendo tantos bares e boates, os velhos costumes ainda não foram colocados de lado. Os pequenos prostíbulos ainda existem, mas grandes inovações foram feitas nesse setor. Grandes chácaras bem arrumadas e organizadas, com belas mulheres e de fino trato, o surgimento, até então desconhecido, de garotos de programa, os "lover boys", como são chamados.

Ainda temos as casas de massagem, onde os clientes vão fazer a massagem erótica. As mulheres ficam nuas e o cliente também, mas não se programas, pelo menos é o que dizem. Tem ainda as linhas de tele-sexo ou tele-amizade, onde as pessoas ligam para encontrar outras para conversar e, se rolar alguma coisa, marcam um encontro.

É da noite que muitas pessoas sobrevivem. É daí que muitos tiram seu sustento. Como vimos, muitas das pessoas que estão na prostituição, entraram nessa simplesmente pelo dinheiro, pela grana que vem muito mais rápido que nos outros ofícios.

Aqui fantasias podem ser realizadas. Sonhos mais esquisitos e não convenvionais podem se tornar reais nas mãos desses profissionais. Mas só uma perguntinha: Tem grana? Se não tiver, desiste. Custa caro. Não tem desconto. Não se paga com cartão de crédito e o cheque não tem prazo. É a vista. Na noite, tudo pode acontecer.

 

Dificuldades e Preconceitos

Os antigos prostíbulos ainda tem lugar reservado nos dias de hoje

A sedução via telefone

 


subir