Crianças
na mira
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Menores
respondem por quase 50% da droga consumida em Uberaba
Fernando Machado
6 período de Jornalismo
Se o consumo de drogas constitui um dos principais problemas da sociedade
moderna, o uso dessas substâncias por menores se revela a faceta
mais cruel dessa realidade. Por estar ainda em estado de formação,
a criança que se droga compromete tanto o seu futuro quanto o
da sociedade que a cerca. As conseqüências do uso de entorpecentes
na infância são devastadoras, às vezes irreversíveis,
de forma que a criança drogada se torna mais excluída
socialmente e frágil perante a criminalidade. A maconha pode
causar irritabilidade e uma perda gradativa de memória e de concentração.
O crack causa desde confusão mental e alucinação
até cegueira e morte.
Em Uberaba, segundo o Departamento Adjunto de Tóxicos e Entorpecentes
(Date), 40% das apreensões de drogas feitas na cidade envolvem
menores de idade. "A maconha ainda é a mais comum, mas o
crack tem sido cada vez mais encontrado. Só perde para a maconha
e a cocaína", relata o delegado Vagner Caldeira. Praticamente
expulso do comércio de drogas nas periferias norte-americanas
porque matava rápido demais e dava pouco lucro para os traficantes,
o crack é uma droga recente no Brasil. Em Uberaba, de acordo
com o delegado do Date, chegou há menos de dez anos. O delegado
explica que quase toda a droga consumida em Uberaba vem de Ribeirão
Preto e que os traficantes, de maneira geral, utilizam a mão-de-obra
infantil.
O consumo de entorpecentes por menores, muitos ainda na primeira década
de vida, é uma realidade fácil de ser constatada em Uberaba,
tanto pela população quanto pelo Juizado de Menores. Só
no ano passado, o Conselho Tutelar dos Direitos da Criança e
do Adolescente atendeu 148 crianças usuárias de drogas.
Neste ano, até maio, já foram 28 atendimentos, sendo que
14 dessas crianças, já apresentavam dependência
química. Os conselheiros, que acompanham os casos, são
testemunhas da simbiose entre o crescimento do uso de drogas, os índices
de evasão escolar, envolvimento com outras drogas, exploração
sexual e outros tipos de violação dos direitos da criança
e do adolescente. O problema é tão grande que, semelhante
ao que ocorre com maiores infratores, não existe infraestrutura
suficiente em Uberaba, nem no Brasil, para garantir atendimento a todos
os casos. O Poder Público recebe a valiosa ajuda de voluntários
e de ONGs, mas mesmo assim a Vara da Infância e Juventude não
faz segredo de que muitos menores ficam excluídos por falta de
vagas em creches e outros pontos de atendimento.
É o caso de Lucival, que se recupera da dependência do
álcool e da cocaína na Casa Dia, um dos vários
centros de apoio ao dependente químico em Uberaba. Incentivado
pelo pai e amigos, através de uma cultura machista, segundo a
qual, o homem que não bebe perde em masculinidade, ele conta
que aos dez anos dependia do álcool. Hoje, com 30, Lucival relata
que o envolvimento com outras drogas, lícitas e ilícitas,
foi uma conseqüência do estado de quase mendicância
a que chegara.
Os arquivos e relatórios do Conselho Tutelar, assim como a experiência
pessoal dos conselheiros, dão conta de situações
bem mais extremas que a de Lucival. É o caso de cinco irmãos
(três meninos e duas meninas) que há cerca de cinco anos,
vindos com a mãe do interior de São Paulo, mudaram-se
para Uberaba. O pai fora assassinado e a mãe é soropositiva.
Com idades entre os quatro e os dezesseis anos, todos os irmãos
fazem uso de algum tipo de droga. Inclusive o mais novo, de apenas quatro
anos, influenciado pelo irmão mais velho, começou a fumar
maconha. Apesar de tão tenra idade, a criança começou
a apresentar um comportamento agressivo e a praticar pequenos furtos
dentro de casa. Com treze anos, uma das meninas aproveitava quando a
mãe saía para se prostituir dentro de casa. E um filho
de onze anos não se importava com a presença da mãe
e fumava maconha dentro de casa. Se a mãe reclamava, apanhava.
Rodrigo, de 11 anos, é outro caso que o Conselho Tutelar acompanhou.
Os pais não conseguiam dormir à noite, temendo que o garoto
lhes matasse durante o repouso. Uma vez, fazendo uso de um martelo,
o filho tentara matar a mãe. O nome de Rodrigo abandonou a lista
de chamada da escola onde estudava para freqüentar os boletins
de ocorrências policiais. Ficava quatro dias sem aparecer em casa,
causando desespero no casal de classe média. Figura conhecida
da polícia, o menino volta e meia chegava em casa em uma viatura
ou era encaminhado ao Conselho . Os pais tinham medo de que o filho
tivesse AIDS ou fosse abusado sexualmente, pois a mãe descobrira
que um travesti em estágio avançado da doença queria
dar sua casa para o garoto.