O
libertador do xadrez

Xico Xadrez
durante simultânea nos Açores, contra trinta jogadores |
História
de vida se confunde com a história do xadrez em Uberaba
Fernando Machado
6 período de Jornalismo
Eis a verdade única: _Somos os peões da misteriosa partida
de xadrez, jogada por Deus, que nos desloca, nos pára, nos põe
mais adiante e depois nos recolhe um a um à caixa do Nada.
Omar Kháyyám, Pérsia
(1040 1125)
O mesmo
arquipélago dos Açores onde os líderes de Estados
Unidos, Espanha e Reino Unido há pouco se reuniram para, em meio
a bucólica natureza local, acertar detalhes finais de guerra,
já foi palco de cenas mais pacíficas e sofisticadas. Há
dois anos, população e autoridades da ilha de São
Miguel passaram uma tarde na Câmara Municipal de Ponta Delgada
assistindo a uma exibição pública de xadrez do
uberabense Francisco José dos Santos Neto, ou simplesmente Xico
Xadrez. Na ocasião, o virtuose enfrentou ao mesmo tempo, desde
crianças enxadristas e mestres até o campeão local,
trinta jogadores. O resultado da simultânea, como é chamada
esta modalidade do xadrez, lhe foi bastante favorável: cinco
empates e vinte e cinco vitórias. Xico Xadrez fora a Portugal
para o curso "Açores: o Descobrimento das Raízes".
Ficou por lá dois meses, encontrou pessoas de várias partes
do mundo que participavam do curso, falou sobre xadrez na Universidade
de Coimbra e conheceu o Palácio Presidencial dos Açores.
Inspirado, ficou com o primeiro lugar do Campeonato Luso-Brasileiro,
disputado por 50 jogadores.
Mestre nacional de xadrez, formado em Jornalismo e em Relações
Públicas pela extinta Fiube (Faculdades Integradas de Uberaba),
romancista, poeta e fundador do jornal Correio Regional. Direcionados
para a cultura espírita de Chico Xavier e os gordos dividendos
da agropecuária, os holofotes de Uberaba não jogam muita
luz sobre o caminho de Xico Xadrez. Todavia, há mais de 20 anos,
ele ingressou nos reinos do xadrez, da literatura, da poesia, do jornalismo,
da educação. Com a ajuda de militantes do xadrez, a exemplo
da jornalista e renomada enxadrista ngela Pereira, o xadrez, depois
do ostracismo nos anos de chumbo, ressurgia.
O primeiro campeonato de xadrez em Uberaba aconteceu em 1941. O vencedor
foi Altino Dias. E em 1945, os enxadristas Walter Dornsfeld, Oswaldo
Diniz, ngelo Prieto e o membro da Academia Brasileira de Letras e fundador
da Universidade de Uberaba, Mário de Assumpção
Palmério, fundaram o Clube de Xadrez de Uberaba. Sob o medo da
repressão, as atividades do Clube cessaram durante o período
militar. O xadrez ficou como morto por muito tempo.
No dia 25 de agosto de 1980 a Liga Uberabense de Xadrez (LUX) foi criada.
De lá para cá, mais de três mil pessoas se inscreveram
oficialmente, e outras tantas, seis ou sete mil, em um banco de praça
ou na escola, aprenderam a jogar. Para difundir sua paixão de
uma maneira cada vez mais rápida e simplificada, Xico desenvolveu
o Método Rápido, baseado em elementos do método
Paulo Freire. "É completamente errado achar que quem joga
xadrez é ou fica mais inteligente. Crianças de três
anos aprendem a jogar. Depois dos cinco, qualquer um consegue".
Através do Método Rápido, a partir dos cinco anos
de idade, a maioria das pessoas pode aprender em quinze minutos. No
colégio Cairós, ele implantou o xadrez como disciplina
escolar. "É como filosofia: você entrega a tocha e
quem a recebe segue por si só. Não tem volta, não
tem fim".
Faz cinco mil anos que o xadrez vive rodeado de mitos e analogias que
deturpam seu significado. As semelhanças com a guerra e com a
vida são grandes _ mas as diferenças são, naturalmente,
muito maiores. Por exemplo, é fato conhecido que Napoleão
Bonaparte era um fanático enxadrista. Os livros contam que os
membros de seu séqüito, tanto generais como cortesãos,
eram desafiados a jogar contra ele. Com medo de ofender o orgulho do
general, entregavam a partida sutilmente. O que geralmente não
se conta é que perder uma partida de xadrez para um dos maiores
estrategistas de guerra era tarefa difícil. O general era um
jogador abaixo de críticas. Infantilmente, transferia a preferência
pela cavalaria para o tabuleiro. Em seu livro The adventure of Chess
(no Brasil, a obra recebeu a estranha tradução de História
do Xadrez), o campeão mundial Edward Lasker reuniu os dados históricos
existentes do general como xadrezista. O resultado não é
nada condizente com a fama de jogador do francês. "Podemos
prontamente estabelecer que ele era um grande aficionado no xadrez;
mas descobrimos igualmente que, não apenas jogava mal, como também
não sabia perder", relata o escritor. "Não é
preciso ser Albert Einstein para aprender a jogar e a jogar bem",
aponta Xico.
Quando perguntado do que acontece com quem aprende a jogar, ele brinca:
"Tem uns que melhoram, outros que pioram...". Na verdade,
muitos professores de crianças em Uberaba falam de uma melhora
significativa do comportamento dos alunos que se envolveram com a arte.
"Um jogo que também é esporte, é arte, é
brincadeira, é política...puxa vida!", entusiasma-se
uma das professoras, ela própria uma jogadora. As crianças
do Centro Afro de Uberaba também são aprendizes, assim
como as da Escola Bom Pastor e do Centro de Reeducação
do Menor. Pode parecer piada, mas é dado como certo que um aluno
de Xico entrou em um sanatório carregando um saco com trinta
e duas peças e um tabuleiro de sessenta e quatro casas. "O
xadrez liberta", garante o aficionado.