O herói dos glóbulos em foice

Portador de anemia falciforme, Paulo Roberto da Silva constrói sua vida enquanto desafia a morte a cada esquina

Graziela
1 ano de Jornalismo

Fotos: graziela Christina de Oliveira

Apoio do pai e da mãe foi essencial para ajudar Paulo a superar a revolta.

Qual foi a última vez que você se irritou porque alguma coisa que você queria não deu certo? Você já parou para pensar se você reclama de tudo? Será que acha que o universo está sempre contra você e que seus problemas são maiores que os de todo mundo? Talvez seja a hora de refletir e parar de se lamentar tanto. Muita gente consegue superar suas dificuldades, dar a volta por cima e continuar seu caminho.

Gente como Paulo Roberto da Silva, que descobriu, muito cedo, uma enorme barreira em sua vida mas, nem por isso, deixou-se intimidar, e luta, com muita garra e determinação, para vencê-la a cada dia.

Ouvir o que ele tem a nos dizer, com tanta alegria e tantos sorrisos, é sentir que podemos superar tudo. Que somos fortes o bastante para vencer qualquer barreira, qualquer degrau...

Paulo sofre de uma doença que, a cada ano, faz 2.500 novos casos no Brasil, de acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). A doença é hereditária e atinge mais quem é descendente de africano. É responsável pela falciformação das hemáceas (glóbulos vermelhos), ou seja, por fazer com que essas células do sangue ganhem a forma de foice. Ainda não se sabem as causas da enfermidade e, sua cura, também é desconhecida.

Dentro dos glóbulos vermelhos existe um pigmento chamado hemoglobina, que é responsável pela retirada do oxigênio dos pulmões. Em forma de foice, os glóbulos vermelhos ficam mais alongados e nem sempre conseguem passar através de pequenos vasos, bloqueando-os e impedindo a circulação de sangue nas áreas ao redor. Como resultado, causa danos aos tecidos e provoca dor. Se a dor for muito forte, o falcêmico (como é conhecida a pessoa portadora) tem que ser internado.

Paulo descobriu a doença ainda na adolescência, quando tinha 12 anos. Mas o problema se iniciou quando ele era apenas um bebê. Sua tia gostava de passear com ele e mostrá-lo para as amigas. Em um desses passeios, numa festa de São João, a tia de Paulo sofreu um acidente que, até hoje, não está bem esclarecido.

O menino foi encaminhado as pressas para o Hospital da Criança, onde ficou internado por 40 dias, na UTI, todo engessado. A doença foi tratada como desvio de coluna e se agravou. Só mais tarde é que se constatou que se tratava de uma anemia falciforme.

Assim, começaram-se as crises falcêmicas e internamentos. Paulo passava a maior parte do tempo em hospitais, engessado desde o ombro. Com isso, o estudo ficou prejudicado.

Mas as professoras não deixavam Paulo desanimar. Iam até sua casa para ensinar-lhe e aplicar-lhe as provas. Apesar do esforço, às vezes, Paulo entrava numa dessas crises. "Eu ficava fora de mim, perdia os sentidos. Quando voltava, as carteiras estavam quebradas, os meninos gritando, desesperados. Mas eu não conseguia me lembrar de nada, não sabia porque fazia aquilo."

Para contornar as crises, Paulo fez um tratamento em um hospital para doentes mentais. Tinha que tomar remédios muito fortes, mas conseguiu superar esses momentos.

E mesmo com tanta dificuldade, Paulo decidiu voltar a estudar. Tinha abandonado a escola em 1982 quando estava na 5» série e voltou em 1993. "Eu vi que o esforço físico não me ajudava. Então pensei: vou estudar um bocadinho e desenvolver mais", disse.

Quando retomou os estudos, Paulo começou a brincar de fazer frases para as colegas. Cada dia era para uma. "Vinha a pessoa e eu falava ali na hora para ela", conta.

Os colegas e professores gostaram muito e passaram a pedir frases a Paulo, que, então, começou a escrever cada vez mais. O problema eram só os erros de português.

Paulo conta que um assunto do momento pode servir de inspiração para suas poesias, que ele gosta de chamar de frases. "Quando paro uns cinco minutos para pensar, já surge. Gosto de pegar a caneta e escrever para não ficar perdido no ar." Mesmo assim, algumas se perderam, por isso, Paulo gostaria de gravá-las em uma fita.

Paulo disse ter mais ou menos 30 poesias. Quando ele vê que uma está ficando parecida com outra que ele já escreveu, ele joga fora; não gosta de repetir.

Para esse "inventor de frases", escrever é um momento muito especial, onde ele consegue criticar uma situação, falar o que ele pensa. "É como se eu estivesse me colocando nas entrelinhas, me vendo ali. É uma coisa que sai de dentro. Se eu tô com raiva, eu consigo colocar no papel, se eu tô feliz; eu também escrevo."
E acrescentou com um enorme sorriso: "É gostoso. É bom brincar com isso, eu chamo de brincadeira."

 

Dificuldades e esperança

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Pedagogia especial


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