Projeto acolhida ultrapassa as barreiras e espera colaboração das famílias

Foto: arquivo marista

A turma que faz a alegria da moçada quando a fome aperta

O projeto acolhida é uma realização do colégio Marista Diocesano de Uberaba, criado desde 1999, para retirar crianças das ruas em situação de risco. Atualmente o projeto conta com 42 educandos entre sete a dezesseis anos. É mantido pela UBEE (União Brasileira de Educação e Ensino), que recolhe verbas das instituições Maristas que são pagas, administrando-as, repassa para àquelas que não são remuneradas.

Apesar dos bons resultados do Projeto, ainda é difícil para os garotos aceitar os educadores como pessoas que querem mudar aquele modelo de ironia, desprezo e abandono que eles vivenciaram.

A atitude violenta que eles apresentavam seria uma resposta ao mundo também violento."Eles convivem com violência, desrespeito, alcoolismo, drogas e isso causa neles hostilidade e até arrogância", disse Eliana. Ainda segundo a coordenadora, o convívio com os alunos não é difícil, mas, diferente para quem não teve aquele tipo de experiência.

Foi preciso controlar também o comportamento de voracidade dos meninos. "Quando montávamos uma mesa, eles vinham correndo, queriam até levar para casa. Hoje, isso não existe mais", relata Eliana.

Para a educadora social, Lindáuria Maria da Silva, as crianças dão trabalho sim, mas são como todas as outras. "É um trabalho que exige muito da gente, muita paciência e dedicação, mas é gratificante", conta.

Outra funcionária da Casa, Luciene Bontempo Rocha, começou como voluntária na área de saúde, levando os meninos, a pé, para fazerem consultas e exames. "Emagreci oito quilos", conta. Ela diz ainda que foi difícil introduzir hábitos simples de higiene na vida dos garotos. Muitos não gostavam de tomar banho, nem de escovar os dentes. Mas hoje, ela já sente as melhorias, acompanhando a evolução deles.

Luciene entrou para o Acolhida no dia 10 de maio de 2002 e foi contratada no final do ano passado. Mas independentemente do que acontecesse, ela diz que não largaria a Casa. "Gosto tanto daqui que se me contratassem ou não, eu continuaria do mesmo jeito", afirma.

De acordo com Eliana, durante os dois primeiros meses, a tendência dos meninos era a de reproduzir, dentro da casa, o que eles faziam na rua.
Por isso, eles precisavam criar uma maneira de adverti-los, mas que não fosse tão punitiva. Aproveitando o clima de Copa do Mundo, foi introduzido o modelo do cartão. Quem se comportasse bem, cuidando de seus pertences e respeitando os demais, recebia um cartão azul. Com este, o aluno ganhava um prêmio que podia ser, por exemplo, um passeio. Para aqueles que cometessem até uma infração, o cartão era amarelo.

Mas este modelo era, ainda, opressor e remetia à vida que eles levavam nas ruas. Fez-se necessária, então, uma mudança na forma de conter o comportamento dessas crianças.

Agora, os meninos vão montar o Álbum do Mérito. "Cada criança que conseguir vencer uma dificuldade vai receber uma figurinha para colecionar", explica Eliana.
Este novo método vai possibilitar o crescimento dos educandos, já que, para ganharem as figurinhas, eles terão que acumular boas condutas.
Esta medida, que será implantada aos poucos, pretende funcionar já no próximo mês.

Com o objetivo de trazer as famílias para o convívio da Casa, um novo trabalho vem sendo desenvolvido, desde fevereiro, dentro do Projeto Acolhida.
Os encontros, que acontecem todos os sábados às 15h na própria sede do Acolhida, ainda não têm personalidade jurídica. O registro do estatuto está em andamento. Uma minuta foi enviada para Belo Horizonte para obter a aprovação da UBEE.

Essa nova atividade prevê a colaboração de vários parceiros que serão divididos em grupos de médicos, psicólogos, dentistas, entre outros.
Em cada grupo, despontará um líder e, a partir deste, se formará uma comissão que vai analisar e trabalhar com as 29 famílias da Casa.

Para isso, será traçado um perfil dessas famílias, bem como vários planos de ação de acordo com a necessidade de cada uma. "A gente acredita que cada família tem um potencial, em maior ou menor grau", opina Eliana.

E se para os adultos esse trabalho é tão importante, para as crianças, então, é mais ainda. Marcelo Pereira de Sousa, 11 anos, está na Casa há pouco tempo, mas gosta muito de lá, principalmente de ajudar as educadoras. Ele também disse que foi muito bom ter ido para o Acolhida. "Aprendi a não mexer com as drogas", conta.

Paulo Sérgio da Cunha, 15 anos, também está há pouco tempo e o que mais gosta no Projeto é de jogar futebol e fazer as aulas de informática. Ele conta que sua vida mudou bastante desde que entrou no Acolhida. "Antes eu ia pro centro, era bagunceiro e não gostava de estudar", diz.

Hoje, ele já dá mais valor aos estudos e suas notas até melhoraram – menos em matemática. Paulo já sabe que carreira gostaria de seguir: bombeiro. "Gosto de ver eles salvando a vida das pessoas. É aventura", finaliza.

Mudar é sempre muito difícil. Deixar de fazer o que se está acostumado e passar a viver uma outra situação é complicado para qualquer pessoa. O que dizer, então, de crianças cujo modelo de vida foi aquele de ficar nas ruas, pedindo? Como iniciar um processo de reeducação nesses meninos e mostrá-los que se pode alcançar objetivos de uma outra maneira?

A chave para a porta deste outro caminho está na oportunidade. É mostrando a saída que eles buscam a transformação. É claro que esses meninos querem uma outra vida, uma nova chance de mudar, de construir, de acontecer.

A coordenadora Eliana acredita que para isso ser possível, é necessário muito carinho, apoio e compreensão. "Dentro daquele menino que a gente vê no sinaleiro, abordando as pessoas, até com experiência de furtos, também há uma riqueza infinita", ressaltou.


 

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