Colégio
Marista
De braços abertos
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Foto:
arquivo marista

Crianças brincam de palhaços em uma
das oficinas culturais do projeto Acolhida.
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Colégio
Marista Diocesano mostra como "acolher" meninos em situação
de risco
Graziela Christina de Oliveira
1 ano de Jornalismo
Ainda é bem
cedinho. Mas o sol, alto, já brilha fortemente. Jonhattan levanta,
vai até o banheiro, joga um pouco de água no rosto ainda
tonto de sono.
Veste seu short já meio rasgado e desbotado pelo tempo, e a camisa
faltando um botão. Calça o tênis que tá furado,
mas que dá pra quebrar um galho. Pega o boné que ele ganhou
do tio no último aniversário.
Na cozinha encontra a mãe e seus quatro irmãos. Dá
um tapinha no menor e senta-se ao lado dele, esperando o café.
O café vem ralo, é preciso aproveitar o pó que
já tá acabando. Pra comer, só alguns pedaços
de pão que sobraram de ontem. Jonhattan prefere deixar para os
irmãos. Bebe só o café ralo e vai pegar sua caixinha
de engraxate.
Volta para dar um beijo na mãe e outro tapinha no irmão
menor, antes de ir para a rua. Lá fora, encontra-se com outros
meninos que, como ele, conheceram cedo o batente da vida.
Enquanto caminha, vê outros garotos a brincar e pensa como seria
bom, se ele, pudesse fazer o mesmo. Mas não pode. Tem que trabalhar,
precisa ajudar em casa.
Durante toda a manhã, aborda pessoas oferecendo seu trabalho.
Mas poucos aceitam, a maioria está sempre com muita pressa. Enquanto
o freguês não vem, aproveita o sinal fechado para se dirigir
aos motoristas e tentar ganhar um dinheirinho a mais...
Foi para tentar amenizar esta realidade e tirar as crianças da
rua, promovendo uma reinserção junto à família
e à comunidade, que o Colégio Marista Diocesano criou,
em agosto de 1999, o Projeto Acolhida Marista, baseado na doutrina de
seu fundador, São Marcelino Champagnat.
O primeiro passo do projeto foi feito por um grupo de voluntários
formado por professores e funcionários do colégio.
Mesmo com essa dificuldade de aproximação, o grupo não
desistiu. A perseverança e a vontade de ajudar prevaleceram no
ideal destas pessoas. Os meninos, então, foram convidados a conhecer
o Colégio e a montar um time de futebol.
De acordo com a coordenadora do Projeto, Eliana Venâncio Resende,
os meninos não enxergavam naquela proposta uma medida educativa,
mas, sim, punitiva e isso gerava a desconfiança. "Os maiores
mandavam os menores irem para ver como era", revelou.
O Projeto funcionou por dois anos e meio, aos sábados, apenas
nas quadras do Colégio. Mas estes encontros acontecendo somente
uma vez por semana foram se tornando insuficientes. Depois de todos
aqueles dias sem se verem, era preciso recomeçar o vínculo
entre as crianças e os voluntários.
Além disso, a cada sábado, aumentava o número de
garotos interessados naquele trabalho. Eles começaram a perceber
qual era a verdadeira intenção dos educadores. Sentiu-se,
então, a necessidade de um espaço físico próprio
para que o atendimento fosse mais adequado e pudesse se tornar diário.
No dia 1¼ de abril de 2002, foi inaugurada a sede do Acolhida Marista
que, na época, contava com 28 meninos. Hoje, esse número
pulou para 42 educandos entre sete e 16 anos.
Para o próximo ano, já foram solicitadas as ampliações
da casa e da equipe. Eliana contou que um dos sonhos que eles têm
é o de trabalhar também com meninas. "Atendemos só
os meninos porque são eles que estão no centro, pedindo.
As meninas costumam ficar na periferia", disse. A meta é
dobrar o número de atendimentos.
Condição fundamental para participar do projeto é
estar freqüentando a escola regularmente. Quando não estão
assistindo às aulas, os meninos têm diversas atividades
na Casa, aplicadas pelos voluntários.
As crianças contam com aulas de inglês, informática,
artes plásticas, artes cênicas, música, teatro,
dança entre outros.
Uma professora de inglês doa uma hora por semana de aula para
os garotos. Alguns educadores ministram as aulas de informática
(básica). Na música, as crianças têm contato
com o rap e o break (uma dança hip hop da periferia). Nas artes,
através da grafitagem, procura-se trabalhar os estados mental,
social e emocional. "A grafitagem é muito prazerosa. O aluno
pinta para falar dele mesmo", analisa Eliana.
Nos fundos da Casa funciona uma oficina de reciclagem de papel, com
a participação dos educandos e de algumas mães
deles. Para os alunos, a oficina representa a possibilidade de expressar
a arte que eles têm. Nada do que eles produzem é comercializado.
Os objetos servem para decorar a Casa, presentear alguém ou até
para montar uma exposição. No mês passado, dez alunos
apresentaram seus desenhos na Fundação Cultural.
Para as mães, em sua maioria, desempregadas, o trabalho de reciclagem
traz uma opção de geração de renda. Tudo
o que elas produzem pode ser vendido para ajudar no sustento da família.
Para diminuir aquele caráter puramente de doação
e garantir aos garotos certa autonomia, criou-se a Moeda Marista. O
dinheirinho simbólico, em tamanho menor que o real, pode ser
usado em qualquer evento na Casa.
Quando vieram as doações da Campanha do Agasalho, montou-se
o Bazar da Pechincha e os alunos escolheram a peça que queriam
e compraram-na, simbolicamente.
O dinheiro também pôde ser utilizado na festa junina do
Acolhida, que aconteceu no último dia 12. Com ele, as crianças
puderam comprar seu refrigerante, brincar na pescaria e pular na cama
elástica.
A Moeda Marista também ajudou os meninos a darem mais valor a
seus pertences. No começo, os educadores ofereciam todos os objetos
de uso pessoal, mas perceberam que eles não estavam sendo bem
cuidados. Hoje, quando os educandos precisam de algum, eles solicitam
e pagam com o dinheirinho Marista, o que representa uma grande conquista
para eles.
Mas para ter direito ao benefício, as boas maneiras continuam
valendo. O bom relacionamento, o cuidado com as roupas e o armário,
além da ajuda nos afazeres da Casa (cada educando doa uma hora
por dia) serão convertidos no dinheiro.