Fama
e confiabilidade
Newton Luís Mamede
Os conceitos que se relacionam num estudo, ou num rápido artigo,
podem ser decorrentes ou opostos, conforme o aspecto que se deseja considerar.
Se opostos, a intenção é expor e destacar a incongruência,
ou a incoerência, ou a incompatibilidade entre eles. É
o caso de conhecimento científico e argumento de autoridade,
ou o poder e o saber, ou quantidade e qualidade, títulos sobre
os quais já escrevemos neste espaço. E, mesmo que não
sejam de todo incompatíveis, nem excludentes, como, por exemplo,
democracia e autoridade, há que considerar a coexis-tência
e harmonia entre esses conceitos, ou mesmo certa decor-rência
que possam conter.
Já os conceitos decorrentes são apre-sentados com o intuito
de estabelecer a relação íntima ou intrínseca
entre eles, a condição de um determinar, necessariamente,
o outro. E, em muitos casos, esses conceitos são relacionados
com o fim de apontar a dissociação que deles se faz, contrariando
e excluindo a decorrência que um tem do outro. Sob esse aspecto,
já escrevemos, também aqui, sobre qualidade e competência,
pesquisa e ensino, educação e liberdade. E, agora, este:
fama e confiabilidade.
A fama é um poderoso influenciador e modificador de conduta.
E age em dupla direção: atinge os outros, os adeptos,
os fãs, e atinge, também e principalmente, o próprio
detentor da fama. E a progressão se instala: quanto mais cresce
a fama, o famoso se considera mais importante e acredita com mais convicção
em seu "valor", e os adeptos e fãs tornam-se mais influenciáveis,
mais suscetíveis e vulneráveis à ação
do famoso. Isso, em qualquer aspecto da vida social. E, então,
no saber e no ensino.
Ah! no saber e no ensino! Sem pretendermos apresentar um "tratado"
sobre o tema, é universalmente sabido que a fama de um intelectual,
de um pensador, de um cientista, de um professor é um eficiente
determinante de mentalidades e de convicções coletivas,
seja de uma restrita platéia ou de um restrito grupo de adeptos,
seja da massa ou de toda a sociedade. A fama de quem profere um conceito
garante a "verdade" desse conceito. É uma forma de
argumento de autoridade, acima citado. A fama de que o "autor"
goza na sociedade confere-lhe o caráter de confiável,
e, então, tal conceito é verdadeiro porque quem o proferiu
foi Fulano.
A confiabilidade que deve estar contida na fama, ou dela decorrente,
tem de ser legítima, e não uma confiabilidade falsa
se é que tal coisa existe. Daí o conceito, também,
de responsabilidade, inerente à fama. No meio escolar, e, especialmente,
univer-sitário, a fama de um professor ou de um intelectual é
um poderoso elemento de confiabilidade. Agora: será que existe,
mesmo, tal confiabilidade? Ou não existem professores e "autores"
que emitem inver-dades, absurdos, heresias? Ou não existem professores
de fama restrita, apenas no âmbito de sua escola, ou de sua cidade,
ou de sua região, que, escorados na fama de que gozam, não
ensinam erros, ou conceitos falsos, ou as tais inverdades?
A fama deve supor, necessariamente, a confiabilidade. Caso contrário,
essa fama pode, um dia, ser arranhada, ou desmascarada. Mesmo que seja,
também, num âmbito bastante restrito. Uma simples pessoa,
séria, responsável e estudiosa, pode "desbancar"
o famoso. E comprometer-lhe a fama.
Newton Luís Mamede é Ombudsman da Universidade de Uberaba