A
alfabetização a serviço
da construção da cidadania
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foto: Soraya
Higino

Presença assídua dos alunos da turma de alfabetização
inicial de idosos mostra vontade de aprender
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Diferentes setores da sociedade mobilizam-se na busca da erradicação
do analfabetismo
Soraya de Sousa Higino
4o. período de Jornalismo
Não fossem
as mãos enrugadas e os cabelos grisalhos, poderia-se dizer que
era uma sala de aula de crianças. O espaço é pequeno,
mas com o clima que sente nele, passa a ser aconchegante. O alfabeto
colorido grudado na parede e as sílabas no quadro-negro complementam
o ambiente.
O curso de alfabetização inicial funciona no UAI - Unidade
de Atenção ao Idoso - há dois anos. São
trabalhadas a alfabetização infantil e a iniciação
à matemática. A turma começou com 21 alunos, mas
2 saíram por motivos de saúde. Ou seja, o índice
de evasão é muito pequeno, sendo explicado pelo fato de
os alunos procurarem o curso por vontade própria. Além
disso, eles recebem grande apoio e incentivo dos seus familiares.
O interesse e o compromisso são tão grandes que, quando
algum deles tem que faltar á aula, faz questão de avisar
e justificar-se.
Eles já não são tão jovens (têm mais
de 50 anos), mas a disposição e a vontade de aprender
superam todas as limitações. São de origem humilde,
e a maioria não teve a oportunidade de estudar na infância
porque tinha que trabalhar para aju-dar em casa. Isso só vem
confirmar que o Brasil não evoluiu muito no quesito edu-cação,
porque hoje, assim como há mais de 50 anos, milhares de crianças
não têm acesso à escola e ao mundo das letras.
O método de ensino usado é basicamente o mesmo da educação
infantil. A novidade é que é dada uma grande importância
ao dia-a-dia deles, às experiências e vivências que
trazem de casa. "Procuramos esclarecer as dúvidas, por exemplo,
de dias úteis de pagamento, dos direitos que eles têm.
Também tentamos levantar a auto-estima deles, valorizá-los",
diz a professora Iara Meire Mendes de Oliveira.
E esse apoio dispensado por Iara não é em vão.
Ela já trabalhou com crianças e jovens, mas considera
a experiência com os idosos bastante gratificante. Além
de ensinar, ela também aprende muito, e ainda ganhou muitos amigos.
"Não temos aquela relação de professor-aluno.
A gente cria mesmo uma amizade, cria um relacionamento forte",
completa Iara.
Para Augusta, aprender a ler era até uma questão de promessa.
"Eu fiz uma promessa. Eu chegava na igreja e ficava naquela dor,
muito triste. Ficava lá, só olhando, não participava
de nada. Eu até chorava. Foi aí que vim pra cá
e agora eu estou muito feliz. Agradeço todos os dias a Deus.
Passo até meia-noite, batalhando. Aí eu acerto uma palavra
e vou chamar minha filha pra olhar. Eu fico muito feliz e tenho fé
de que vou chegar lá. Estou aqui é pra vencer".
A Secretaria Municipal de Educação também conta
com uma seção de educação de jovens e adultos.
Estão inseridas nela 22 escolas municipais (das quais 4 são
rurais) e 5 entidades (CARESAMI - Centro de Reeducação
Social do Adolescente e Menor Infrator, CATRU - Centro de Atendimento
ao Trabalhador Rural, ADEFU - Associação dos Deficientes
Fí sico de Uberaba e PROBEM - Programa do Bem-Estar do Menor).
Uma das iniciativas da seção foi mapear todos os bairros,
detectar num determinado espaço até 50 jovens e adultos
analfabetos e encaminhá-los para a escola do bairro. Outra atividade
desempe-nhada pela rede mu-nicipal de ensino é o Projeto Acertando
Passos I e II. No pri-meiro, matriculam-se jovens de 12 anos, e as disciplinas
ministradas são Português, Matemática, História,
Geografia e Ciências. Já no segundo, matriculam-se jovens
de 14 anos e o currículo tem acrescentado o Inglês.
A metodologia de ensino busca aproveitar o que o aluno já tem
de experiência de vida. Ela trabalha justamente em cima do interesse
do aluno, do seu conhecimento de mundo. "Não teria utilidade
trabalhar um texto infantil com esse aluno porque não é
e seu interesse", afirma Maria Abadia Enes, chefe da seção
de educação de jovens e adultos.
O último dia 8, Dia Internacional da Alfabetização,
o Governo Federal aproveitou a data para lançar o Programa Brasil
Alfabetizado, pertencente ao Ministério da Educação.
A promessa é abolir o analfabetismo no país e, segundo
informações do Ministério, o programa já
está presente em 1768 municípios brasileiros e conta com
56 mil alfabetizadores.
O censo de 2000 apontou a existência de quase 8 milhões
de analfabetos acima de 50 anos, representando 29,4% da população
brasileira, nessa faixa etária, que não sabe ler e escrever.
Em 1991, esse contingente significava 38,3%.
O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio
Teixeira (Inep), que traça um pano-rama da situação
educa-cional de todos os muni-cípios brasileiros, divulgou o
"Mapa do Analfabetismo no Brasil". Segundo seus dados, a cidade
de Uberaba possui um índice de 6% de analfabetos em sua população
urbana - acima de 15 anos. Na zona rural, o índice sobe para
15,2%.
Historicamente, o grande idealizador da alfabetização
de jovens e adultos foi Paulo Freire. A autenticidade de seu pensamento
provém, antes de tudo, da sua vivência pessoal e íntima,
da sua experiência de educador entre os homens oprimidos e explorados.
Esta trágica realidade da opressão, ornamentada por contrastes
de toda ordem e, de modo especial, humano, tiveram profunda ressonância
em seu espírito.
Superar esta trágica realidade foi o compromisso de Paulo Freire.
E ele fez dela o seu campo de idéias e de lutas. Refletiu-as
de acordo com as exigências e implicâncias histórico-sociais.
Nesta realidade, ele percebeu o homem, não como um ser livre,
sujeito de seu agir e construtor de sua história, mas um ser
oprimido, objeto, quase "coisa" dos regimes de opressão
e desfrutamento. Esta realidade, assim tão deprimente do homem
oprimido, tornou-se a preocupação de Paulo Freire. "Como
pensar numa educação que se constituísse e se definisse
como uma prática de liberdade deste ser oprimido?". Esta
teria que partir, não do homem isolado da realidade ou da realidade
isolada do homem porque, pensar assim, equivaleria a con-tinuar os métodos
de uma educação tradicional, mé-todos de imposição
e pelos quais o homem não se poderia libertar.
Ele, então, pôs, como fundamento de seu sistema pedagógico,
a relação homem-realidade, homem e realidade, ambos inacabados,
mas em permanente relação de tal modo que o homem, transformada
a realidade, ressente em si os efeitos desta transformação.
Finalmente, isso mostra como as pessoas estão se mobilizando
para mudar a situação da educação no país.
E isso é um compromisso não só do governo, mas
da sociedade em geral. Trata-se de um resgate da cidadania. "Enquanto
per-petuarmos o analfabetismo entre adultos, a educação
infantil também não evoluirá. Em uma casa que os
pais não sabem ler nem escrever, que não incentivam a
aprendizagem, a criança nunca vai se sentir motivada e estimulada
para estudar", conclui Maria Abadia.