A Casa Da Árvore E A Vida


Que reste ali, em algum canto escuro e circular da alma, a marca indelével e sutil de que a vida lhes era compreendida e aceita

Luiz Flávio Assis Moura
3 período de Jornalismo


Era um desses dias de sábado em que nada pode ser considerado comum, e eu andava pela vizinhança sem a esperança de mudar o mundo, ciente da conspiração que a existência urde a favor de si mesma a cada instante. Em uma das casas, me deparei com uma casa de árvore, daquelas que quase todo mundo já viu em algum momento da vida mas quase não se ouve mais falar, como uma verdade ardentemente proibida e apaixonante que sopra nos ouvidos da gente viva vez por outra. A surpresa maior era que a casinha não estava vazia: tinham dois meninos ali dentro, cantando sem vergonha ou excitação mas alegres e suspeitamente livres. Eles cantavam aquela musiquinha besta "Tem que viver, viver, valer" em sua própria rendição: por alguma vontade perversa de brincar, ou quem sabe simples e pura falta de discernimento da realidade permitida, eles entoavam deliciosamente desafinados "Tem que viver, viver, morrer" em uma satisfação claramente clandestina, cometendo um erro sabido e assustador para quem tem medo. Meu fascínio foi imediato e atrevido: eu fitava a casinha e a música em uma surpresa atordoada e aquele instante poderia pertencer à misteriosa mãe de Deus sem punições. Como crianças, eles provavelmente se deram conta sem os olhos que havia alguém ali e um deles colocou a cabeça para fora, já pronto para inquirir qual-quer coisa:

- O que foi?
- Nada, não.

Nada, nada. Não foi nada, só a sur-presa múltipla. Pouco depois, tomei meu rumo e eles voltaram a cantar como se eu nunca tivesse existido um dia. O inesperado daquele instante me fez pensar e não pude fazer nada senão tentar compreender aquilo que havia sido deixado sem compromissos, estranho e amigo como um mal sem dor. Afinal, existe uma sabedoria nas coisas mais tolas; aquelas crianças não saberiam dizer de que forma um adulto pudesse absorver o seu poder, mas elas o demonstraram com graça e propriedade, sábias e cruéis. Elas sabiam e ainda devem saber que aquela música transmutada por sua bobice doce e aguda ganhou um significado: "tem que viver, viver, morrer", melancólico e inevitável. As crianças não só tiveram a coragem muda de entender a morte: também assumiram-na sem amargura, tanto como assumiam a vida alegremente.

A sabedoria carnívora da infância sempre me assom-brou, e isto me fez lembrar novamente o porquê. Não são as crianças seres inocentes e puros? Ou são criaturas canonicamente perversas e inteligentes, capazes de entender a vida sem precisar explicá-la e tornam-se claramente livres até serem feitas de erro culpado? Tendo a crer na segunda alternativa; a inocência prevê um pouco de estupidez, o que raramente se encontra na concepção simples da vida. Diante da morte, quase sempre tomamo-nos de súbito pudor e angústia como se morrer fosse um câncer devastador e a vida eterna fizesse algum sentido. Mas a morte nunca foi o oposto da vida: é uma parte integrante e confortante do processo intempestivo que é viver. A vida não possui um oposto definível; quem sabe, possa eu dizer correndo o risco de errar que o oposto de viver é não viver – e quem morre cer-tamente viveu. Não viver é muito di-ferente de morrer: muitas pessoas cer-tamente não vivem mais há anos e ainda assim res-piram. Mas isto é claro e inútil como um pedaço de vidro solto. O não-viver, em minha visão falível e turva, é a negação absoluta de uma ou mais partes do processo da vida – entre elas a morte, a tristeza, o contratempo, a reflexão, o súbito renascer de uma angústia e a possibilidade de algo não sair de acordo com os planos incorruptíveis de nossa tolice. Aquela música do "Tem que viver, viver, valer" seria também uma negação da vida, assumindo que a felicidade e o prazer são as únicas coisas aceitáveis na vida, negando o futuro e inclusive a inevitabilidade do processo. Em sua clarividência surda, os meninos entenderam o absurdo daquela canção e a subverteram sem destruir sua simplicidade, mas integrando a ela um siginificado compreensível e profundo – o qual eles provavelmente esquecerão quando adultos, porque a sabedoria é algo que não se carrega para a rea-lidade inegável. Mas que reste ali, em algum canto escuro e circular da alma, a marca indelével e sutil de que a vida lhes era compreendida e aceita, dando-lhe respiração e sangue novo para não sofrer com as coisas que sabiamente encontram um fim para criar novos laços. E espero que outras pessoas entendam também. Uma vida muito boa e plena para cada um de nós. E que nossa morte seja também entendida e até amada. Amém para todos nós.

 

Caderno Literário

 


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