Sobre
o Pôr-Do-Sol
Luis Flávio Assis Moura
2 período de Jornalismo
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Não, não é que seja um simples acontecimento bonito:
é que ele se desenovela e surge em processo, em camadas precisamente
cores e luzes e nuvens se assomando em procissão muda
atravessando o sol e o dia aos poucos, como que carregando o caixão
da estrela morta. Lentamente, pincelando-se de púrpura e quietude,
nasce a lua em sua saciedade. Se o sol busca o poder e a invasão,
a lua nada mais é que uma senhora em expectância de si,
balançando seu corpo igual a uma mãe egoísta. Só
que a lua não é egoísta: simplesmente é
cheia de paciência, e seu brilho meio fosco esconde as obviedades
do dia para transformá-las em incógnito. Descrever o que
acontece é um pouco impossível; na verdade, não
ocorre nada além de um pingar mais aéreo do tempo e uma
tonalidade lentamente enterrando a outra enquanto os dois astros se
desencontram e se beijam uma única vez nos campos do inegável
e adivinhado, a embriaguez da bondade e de alegria insuportável
cedendo sua vida para a terrível lucidez e sutileza da maldade
pura e sem mestre. Mas existe um segredo na noite: aquilo que não
aparecia ao sol e ninguém acreditava existir começa a
correr solto pelas madrugadas túrgidas que serpenteiam-se por
aí. E ninguém percebe do mesmo jeito, porque quem
verdadeiramente gosta da noite a não ser para se entorpecer como
um cão afogado em licor e dono das patas sujas? Quem sairia de
casa à noite unicamente pela razão de ser da escuridão?
Ninguém além dos loucos e solitários, esses mistérios
desacreditados da natureza dos homens. Assim, continua escondido o universo
de sílfides, gênios, duendes, vermes, miasmas e anjos
sim, anjos! resguardados em algum útero entum-bado e inesquecível
de Deus.
Mas tudo isto é algo que há depois do pôr-do-sol
e não o próprio, estou fugindo do assunto.
O pôr-do-sol em si, e agora serei linear, é aquele momento
em que o sol se deita ao oeste e a lua nasce em algum lugar embora
ninguém queira saber da noite e ache o sol morrendo a coisa mais
linda, me ajude, me ajude. Na verdade, a beleza que surge do pôr-do-sol
é completamente outra; é o nascimento de algo sempre novo
e destinado ao estertor. Porque a lua é um organismo marcado
para morrer: não é como a porcaria do sol, que cai e renasce
o tempo todo só por ser quente e fugaz. A lua carrega em sua
redondice uma melancolia e fatalidade vergantes, nascidas de seu destino
ser sempre o de viver a noite somente uma vez. Aquela mulher gorda experimentada
na noite de hoje não é a que tecerá seu tempo e
as estrelas mortas há milhões de anos na próxima.
Ela morre e é reposta por outra, e cada uma das luas sabe disso
antes mesmo de nascer. Todas elas surgindo sabe-se-lá
de onde, talvez do movimento eterno das coisas? nascem e morrem
em um dado instante imutável, afastadas da longevidade do Deus
e estranhamente próximas de sua sabedoria quase inútil
mais do que qualquer outra das coisas que existem. E imagino
que, séculos atrás, em algum lugar qualquer do planeta
diziam que as estrelas nascentes eram as lágrimas da lua espalhadas
pela tapeçaria das nuvens estas, a cama da Deusa. A verdade
que existe nesta lenda é a tristeza da noite; por ela, só
podemos rezar e nos prostrar minúsculos e contritos.
Para terminar esta coisinha curta, falemos um pouco do crepúsculo.
Isso, o crepúsculo. Que é o nascer do sol. (afinal, por
que ser o sol o centro de todas as inferências?)Apesar de existir
a mesma procissão solene de adensamento do mundo e das sensações
em camadas cada vez mais numerosas e grossas, há uma diferença
crucial na morte ritmada da lua: a unificação do tempo.
Um pôr-da-lua se protege dentro de um cavalete secreto que mescla
em sua conjuntura passado, presente e futuro, sendo ao mesmo tempo dia
e noite, luz e sombra. É a oportunidade úmida e irrecuperável
em que a lua pondera sua existência enquanto o sol se esquece
da morte e volta lentamente a possuir e dominar sem propósito
o céu com sua grandeza irritante. Ao mesmo tempo o mundo fica
mais jovem e suas ramificações se envelhecem como que
em ciranda, esperando sem avidez o entrelaçar dos dois extremos
na celebração do tudo. Infelizmente, para testemunhar
o abraço táctil entre sol e lua, ou se tem a disciplina
para apreciar a existência das madrugadas ou simplesmente se padece
de insônia ou tristeza. Este é um momento raro que só
aqueles que desatam seus laços sanguíneos com a realidade
sólida podem presenciar e compreender. É quando o primeiro
dos malditos "verdadeiros" de nossas vidas perde o sentido
para sempre e o mundo se reinventa.
Pergunto: qual de vós tem a coragem de mergulhar no desconhecido
da noite?