Histórias
do sol nascente
|
Fotos:
Fernando Machado

Casal sansei:
Helena e sérgio levam uma vida bem diferente da de seus
ancestrais.
|
Na
cultura nipônica, a mulher é considerada inferior ao homem.
Mas nem sempre é assim
Fernando Machado
7 período de Jornalismo
No alvorecer do século
20, o senhor Mino levava uma vida tranqüila em sua fazenda perto
de Takamatsu, a 500 quilômetros de Tóquio.
Era casado com uma mullher chamada Takino. Em 1937, Takino deu à
luz a menina Misae. O lucro que o fazendeiro obtia com suas variadas
plantações era bem mais do que suficiente para abastecer
as prateleiras e imprimir-lhe o signo do orgulho.
Família respeitadíssima; ou talvez apenas o chefe da família
o fosse, vez que na cultura nipônica a mulher é considerada
inferior em relação ao homem. Quando o senhor Mino saía
para caminhar, Takino o seguia cabisbaixa, como manda a tradição,
à pelo menos 5 metros de distância do marido.
Honra, da maneira que os japoneses a entendem, é o mais alto
valor humano. Em nome dela, suicida-se, mata-se, faz-se qualquer coisa.
Ficou decidido entre japoneses que, caso perdessem a Segunda Guerra,
dariam início ao "glorioso e honrado" suicídio
de 100 milhões de seres humanos.
O império da honra e bonança dos Mino, porém, ameaçou
ruir como castelo de cartas. Assim, do dia para a noite. Tudo porque
o senhor Mino iria ter um filho. O milagre da concepção,
todavia, só não seria motivo de júbilo para ele
porque não era a sua esposa Takino quem estava grávida.
O distinto senhor Mino havia engravidado a mulher de um amigo seu, outro
fazendeiro de posses.
Desnecessário dizer a reação do fazendeiro traído.
A reputação dos Mino foi para o espaço e, se não
se cuidassem, a cabeça do senhor Mino poderia separar-se do pescoço.
Resultado: em 1939, o senhor Mino se mandou para o Brasil com a família.
Takino não achou nem bom nem ruim, apenas aceitou a situação.
Na família japonesa, cabe à mulher uma condição
inferior à dos filhos.
Os Mino gostavam de comer frango. Takino, entretanto, jamais comia as
coxas do galinácio. Primeiro, o chefe da casa era servido, e
normalmente comia as duas coxas, suas partes prediletas. Depois, os
filhos se alimentavam do peito. Sobravam as asas para Takino, que as
engolia sem reclamar.
No Brasil, "seu" Mino, como passou a ser chamado, comprou
uma fazenda às margens do Tietê, onde produzia café
e verduras. O japonês ficou mais rico ainda. Tão rico que
nunca deu muita importância aos fanáticos da seita Shindo
Renmei, que perseguiam os nipônicos que dissessem que o Japão
fora derrotado na Segunda Guerra, e também os que não
se posicionavam a respeito. Os matadores da tal seita, os tokkotai,
em meados da década de 1940, percorreram o estado de São
Paulo, realizando atentados que deixaram cerca de 150 feridos e levaram
à morte 23 imigrantes*.
Os Mino empregavam brasileiros e japoneses em suas terras. Talvez, por
isso, não foram incomodados. Mas, através de cartas de
amigos, eles ficavam sabendo dos crimes praticados pelos membros da
Shindo Renmei. De fato, para os japoneses, não era fácil
admitir a derrota do Japão para as forças aliadas. A última
derrota bélica daquela nação havia sido há
2600 anos, quando o invencível Gengis Khan invadira suas terras*.
A Shindo Renmei não nasceu radical e fundamentalista. No início,
os membros só queriam boicotar a produção de bicho-da-seda
e hortelã. Os aliados usavam o primeiro para a fabricação
de pára-quedas, e o segundo para melhorar o desempenho de combustíveis*.
Um esforço lógico para não favorecer o inimigo.
Bicho-da-seda e hortelã não eram produtos da fazenda Mino.
Ainda na década de 40, começou a circular entre os japoneses
do interior paulista o boato de que quem não voltasse para a
terra do sol nascente naquele momento, dificilmente conseguiria fazê-lo
depois. Com saudades da terra natal, o senhor Mino mandou Takino arrumar
as malas e fizeram o caminho de volta. A angústia de viver fora
do Japão deu ao senhor Mino a impressão de que o tempo
já devia ter diluído a fúria do japonês traído.
Em 1960, Misae voltou para o Brasil. Tinha 23 anos e, coisa rara, era
bastante estudada. Casou-se com um rapaz metade japonês e metade
brasileiro que conheceu na cidade de Marília, na região
da Alta Paulista. Trabalhou em uma multinacional até se aposentar.
Hoje, vive em Uberaba com seu marido Sérgio Massakatsu Takenaka
e Helena Koshimo, sua neta.
E é Helena quem conta esta e outras histórias. Casada
com o sansei (neto de japoneses) Sérgio, ela foi cursar medicina
no Japão quando tinha 22 anos. Dez anos depois, voltou para o
Brasil PHD na profissão de salvar vidas. Trabalhou pouco na medicina.
Diz que perdeu o prazer pela profissão, e hoje tem, com o marido,
uma loja de CDs em um shopping center. É uma mulher bonita, aparenta
bem menos do que os reais 40 anos de idade.
O segredo da jovialidade, contudo, não é fruto da preservação
dos hábitos nipônicos. Helena e Sérgio não
lutam karatê, não comem bolinhos de arroz na passagem de
ano e, segundo ela própria, seria impensável vê-la
andando cabisbaixa, 5 metros atrás do marido em um shopping center.
*Fernando Morais; Corações Sujos