Os meninos sem sonho

Fernando Machado
7 período de jornalismo

Confissão de Abgail
(Delermando Vieira)

Eu, Abgail, arcanjo negro e abestalhado, achei por bem descer um dia às sombras nubladas deste mundo.
A noite estava densa, lilás. Junto a ela, ardendo em ceras de formas divinas, agiam aqueles da vida, os homens.
Procurei observá-los. Notei que se vestiam de grossa máscara petulante, bem como alegre, ruim e vagante.
E se bebiam, choravam e sorriam. E se não choravam nem sorriam, bebiam.
Tentei aproximar-me deles mas, vendo-me eles a feiúra, sorriram e choraram.
Eu, não tendo por onde pousar minhas asas, tornei-me novamente à escuridão, posto que sou negro e abestalhado.



O Instituto de Menores de Ribalta ocupava todo um quarteirão e era cercado por muros altos e intransponíveis. Em um prédio grande, no centro do terreno, ficavam dormitório, refeitório e a sala da diretoria. O pátio era todo cimentado e figueiras enormes vergavam sobre os bancos de pedra. Havia também um campinho meio sem grama e cheio de buracos e, ao lado, ficava uma mina d`água. Uma pequena e velha capela se situava nos fundos, perto dos bambuzais. Ao todo, viviam ali quarenta e um meninos. Sobre eles pairava uma conformação desgraçada, que entrava nos olhos e nos pulmões como a fumaça preta e pestilenta de uma queimada; não sabiam nada da vida mas eram crentes de que o pior poderia tardar, mas jamais falharia. Para eles, se era cedo ou se era tarde não importava. Noites e dias eram estanques e iguais, feitos de concreto; sem sonho, o horizonte leste, em que o sol hesitava na madrugada e o oeste, onde se deitava no final da tarde, não passavam de lugares distantes para os meninos.

Parecia que os coitados não tinham uma alma atrás dos olhos, porque não choravam e nem sorriam. As lágrimas só brotavam de seus olhinhos tristes quando o mudo Marivalzinho lhes fazia uma de suas maldades. Aí, a dor surgia e se entalava na garganta de cada um, que chorava feito bicho ferido. Choro de menino parecia ser o único som que os ouvidos doentes de Marivalzinho podiam captar, uma sinfonia sinistra que ele gostava. Aí ele ia embora dando sua grande risada muda, seu olhar cego. Um dia, ele riu até se mijar após acertar uma paulada na nuca de Tiago, que voltava da bica com um galão de água. O menino quase deixou essa vida, passou dias no hospital. Em seu retorno, Tiago disse à diretora que devia ter escorregado e assim batido com a cabeça nas pedras.
Dona Alba, diretora do Instituto, nunca permitia que lhe contassem por completo uma malfeitoria de Marivalzinho. Interrompia o falante e dizia molemente que se tratava de um menino especial, muito diferente dos demais. Olhava com afeto para o pequeno, como se dissesse "por favor, não culpem ele por nada". Dona Alba apenas repreendera o garoto uma vez: estava abraçada com ele, dizendo que Deus perdoa se a gente se arrepende e tudo mais, quando sentiu uma língua quente no pescoço e uma mãozinha apertando seu seio. Entre todas as almas falidas que habitavam o Instituto, a de Marivalzinho era a única a ser amada por alguém.

Dizia-se nos corredores gelados que, por ter desafiado Marivalzinho, um garoto certa vez acordara com os olhos vazados por agulhas. De dia, o coração dos meninos batia como um bumbo. À noite, eles deitavam em suas camas mas não conseguiam dormir.

Fisicamente, Marivalzinho não era muito maior do que os outros meninos, mas era ágil e sorrateiro; ossos tremiam sempre que sua presença era descoberta. No rosto fino, a boca morta e murcha pela qual emitia seus gemidos guturais. A pele era de uma morenice encardida e seus olhos, amarelos e miúdos, pareciam um apanhado de grãos de areia.

Aos domingos, padre Augusto aparecia para celebrar sua missa. Entretanto, poucas vezes conseguiu realizá-la em paz, pois Marivalzinho sempre aprontava. Quando uma vez constatou que havia urina na água benta, e em muitas outras ocasiões desconcertantes, o padre, mais tarde, julgou ter estado frente a frente com o capeta. Durante a missa, Marivalzinho soltava uns traques que ninguém sabia de onde ele tirava e fazia aparecer tachinhas nos bancos. No dia em que Marivalzinho deixara o ventre da mãe, esta entrou numa sangria descabida que só terminou com a sua morte. Padre Augusto e as parteiras que estavam no quarto viram com assombro um sorriso malicioso brotar nos lábios do recém-nascido. O sorriso alargou-se nitidamente quando a mãe deu o último suspiro. E um bebê sorrindo com tanta volúpia e malícia só podia ser o diabo.

Um dia apareceu na cidade um músico muito respeitado, vindo de outro país. Como Dona Alba era a única pessoa da cidade que sabia falar outras línguas lá foi ela conversar com o estrangeiro. Ela descobriu que ele era saxofonista e conseguiu convencê-lo a tocar para os meninos no Instituto. Na manhã do dia seguinte, dona Alba começou os preparativos para receber o ilustre visitante. Antes do fim do dia, tudo estava pronto. Um pequeno palco, com apenas uma cadeira e uma mesa com copos e garrafas d`água, estava montado e todos ansiavam pela chegada do homem. Quando ele chegou e subiu ao palco- enquanto tirava da maleta seu instrumento dourado e cintilante- fez um pedido: quis que trocassem a água por uísque. Entregaram-lhe logo uma garrafa. Ele tomou um gole, fez alguns ajustes no saxofone e limpou a garganta. Levantou-se e, quando levou o instrumento à boca, Marivalzinho apareceu na frente do palco e começou a encará-lo fixamente. Os meninos nem notaram, fascinados que estavam com o brilho do saxofone, mas o músico pareceu perturbado com a presença do menino, tanto que hesitou e tomou mais um gole da bebida. Quando finalmente a primeira nota saiu bonita e suave do instrumento, Marivalzinho sacou um limão partido ao meio do bolso e começou a chupá-lo sem tirar os olhos do músico. O sorriso de sempre, mudo e malicioso, surgiu por trás do limão e a boca foi se enchendo d`água. Ao mesmo tempo, as notas começaram a soar feias e estranhas e, rapidamente, o músico não pôde mais tocar porque sua boca também se enchera d`água e ele agora babava lamentavelmente na biqueira do saxofone.

De quando em quando, nas noites de muito calor, Marivalzinho juntava-se ao zelador e ao guarda para beber. Levavam um menino e o obrigavam a beber também para se divertirem da sua tonteira. Tomavam uma pinga vagabunda e fumavam seus cigarros a noite inteira. Marivalzinho bebia mais do que todos juntos, mas jamais ficava bêbado. Sua farra consistia em ver os outros vomitando e desmaiando pelos cantos. Depois ia embora, do jeito que tinha chegado.

Um dia, não mais do que por acaso, a profunda solidão de Marivalzinho pareceu agravar-se ainda mais, seus olhos haviam adquirido o opaco dos vitrais da igreja. E seu caminhar pelo pátio naqueles últimos dias havia se tornado turbulento como o vôo de um pássaro em meio a um temporal. Um dia, não mais do que por acaso, Marivalzinho partiu. E na manhã do dia seguinte, quando o sol trouxe sua luz, os meninos perceberam que os muros do Instituto tinham apenas a metade da altura do dia anterior. Alguns guris, não muitos, pularam o muro e foram em busca de outro mundo. À tarde, quando o muro não tinha sequer um quarto da antiga altura e podia ser transposto em um salto, mais alguns meninos foram embora. Outros ficaram, mas era como se delegassem seus sonhos aos outros guris.


 

Caderno literário

 


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