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O
dia dois de maio
Antigamente não era em dois de Março, e sim em dois de Maio, que se comemorava o aniversário da cidade. E confesso a vocês que tivesse eu poderes para mudar, mudaria. Aniversário é coisa sagrada. Não pode ir mexendo assim de qualquer jeito. Mesmo que a história mostre que precise ser mudado. E nós, os órfãos do dia 02 de maio? Ninguém pensou em nós. Ninguém pensou nos eventos que marcaram aquela data. Era alegria pura. Principalmente quando a folhinha da cozinha colaborava: primeiro de maio (dia do trabalho), quarta; dois de maio (aniversário da cidade), quinta; três de maio (inauguração da exposição), sexta, sábado e domingo. Embora ninguém possa discordar que trabalho é coisa séria, um feriadão desses era muito bem vindo. Com certeza, também não haverá discórdia com relação à importância da presença do nosso Presidente (quando ele vinha), por ocasião da inauguração oficial da nossa suntuosa exposição (no tempo em que ela era "inaugurada"). Todos nós tínhamos que ter tempo para ir homenageá-lo. Mas o dia mais importante para nós uberabenses não era o dia do trabalho nem o dia dos protocolos presidenciáveis na exposição. Nada disso. O dia mais importante para nós, era sim, o dia dois de maio. Era o dia do aniversário da cidade que ligava um ao outro. Era devido à importância do dia dois de maio que os seus vizinhos imediatos se beneficiavam, ou seja, os dias primeiro e três tinham mais brilho. Afinal, hoje, o dia primeiro é mais lembrado pela morte do Senna e na inauguração da exposição o presidente nem vem mais. E os alunos da Escola Estadual Miguel Laterza, onde pude desfrutar com tanta emoção e patriotismo os feriados de maio, devem estar até hoje sem entender o motivo dessa mudança. Com certeza eles, os alunos, e os professores não apoiaram tal mudança. Assim sendo, o dia dois de maio era, sem nenhuma sombra de protesto, um dia muito importante para todos nós. Todavia de todos os eventos que aconteciam nas suas 24 horas, talvez o mais importante, e do qual sinto mais falta, era o duelo de gigantes que se travava no Uberabão. Refiro-me ao clássico Uberaba e Nacional. Nada, absolutamente nada, superava em emoção ver ícones como Wandinho, Diron, Binga, Enêas, Paulo Luciano, Toinhizinho, Lobão, Lobinho, Pirangi e tantos outros que fizeram a história deste show. Show sim! E como. Para começar, uma chuva de fogos de artifício de fazer inveja a qualquer reveillon carioca. Quando aque-les rojões riscavam o céu e depois explodiam no ar, parecia Deus brindando com champagne um dia tão importante. Depois, tinha o hino nacional com todos de pé. No gramado, aquecimento, onde todos os heróis se cumprimentavam e trocavam abraços. Nas mãos, pipoca e nos alto-falantes, revezando-se, os hinos do Nacional e do Uberaba, que, cá para nós, é uma verdadeira obra de arte. É de ouvir e arrepiar. No intervalo, uma ida rápida na casinha e, como não poderia deixar de ser, um cachorro-quente do seu Manoel. Ninguém preparava um cachorro-quente como ele. Hoje não sei avaliar o que tinha de especial. Acho que nada. Especial era o dia. Não era todos os anos, porém às vezes o treinador Zezinho reunia a meninada, que dis-putava uma versão infantil do famoso clássico. Para se ter idéia da magia que ali acontecia, bas-tava olhar as torcidas. Do lado das cabines de rádio, os uberabenses colorados tradi-cionalmente se postavam. Do lado oposto, a torcida alvi-negra do Nacional. Entretanto não havia portões separando-as. Era livre o trânsito. E não muito raro era possível vê-las se misturando. O placar do jogo não importava. Não havia perdedores nem ganhadores. Não havia pressa para sair do estádio. Ao contrário dos jogos normais, os torcedores não abandonavam o campo antes do fim. Era, enfim, uma noite de gala da população uberabense, que comparecia em massa e ia para casa com a certeza de ter vivido um dia bem vivido. Onde será que anda o espírito do dia dois de maio? Que lugar, além da nossa memória, ele pode estar habitando? Quem encontrar, avisa. Comete-se um crime imperdoável com as gerações de hoje que não viveram este dia. Mozart Lacerda Filho, é estudante do 3 ano de História na Uniube e professor de Filosofia e de História do Colégio Cenecista Dr. José Ferreira
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