Um livro para se ouvir

Reprodução

Caricatura de Norman Maller

A Luta, de Norman Mailer, evoca imagens e sons do ringue de Mohamed Ali

Fernando Machado
6 período de Jornalismo


O livro A Luta do norte-americano Norman Mailer não é uma reportagem ordinária: o livro, na verdade, é um disco de blues. Ou então um livro para se ouvir como se ouve rádio: imaginando, visualizando as cenas, ouvindo as vozes e todo o barulho que envolveram o confronto entre Mohamed Ali e George Foreman em 1969, no Congo. Não é difícil perceber que algumas letras de canções de blues norte-americano não se diferem muito de algumas das mais lamentáveis composições baianas de carnaval. Quase sempre a única diferença é a força da palavra empregada e os sentimentos que vêm embutidos nas notas. Ao reportar a atmosfera de uma luta de boxe – que simbolizou um embate entre o establishment norte-americano, representado pelo hoje pastor presbiteriano George Foreman e a ânsia de liberdade do povo negro, incorporada na figura de Ali, um negro muçulmano incutido de libertar seu povo da opressão social – Mailer escolhe as me-lhores notas e as palavras mais pode-rosas, o mesmo que faz nascer o melhor blues de seus melhores instrumentistas.

A narrativa também é completamente diferente das usadas nas reportagens convencionais: Normam deixa a si próprio em observação na terceira pessoa, atuando como personagem ao lado dos protagonistas. "Na noite em que correra com Ali – cinco noites atrás? – , Ali dissera, depois: "Para você será uma grande experiência sa-ber que correu com o Campeão só alguns dias antes da luta", e naquele momento pensara que havia sido um comentário peculiarmente pesado, mas agora reconhecia que poderia ser possível que Ali tivesse acertado mais uma vez – Nornam já começava a pensar naquilo com afeição".

Nem a mais remota idéia de isenção ou de imparcialidade passou pela cabeça do autor quando escreveu o livro. Seria impossível e até desonesto para Normam esconder a preferência por Ali. Dois anos antes da luta na África, Mohamed tivera seu título mundial revogado por se recusar a atender a convocação do exército norte-americano durante a Guerra do Vietnã, e Norman fora parar na cadeia por participar de manifestações contra a mesma guerra.

O leitor – ou o ouvinte – entra em contato com o poder da palavra através da fala dos personagens e torna-se impossível não vê-los e ouvi-los em seus discursos contundentes. Mailer sabe valorizar o modo de expressão dos negros do mundo do boxe, espécie de irmãos dos negros do blues. Diferentemente dos colegas jornalistas, o repórter Mailer, um expoente do new journalism, não tinha de obedecer nenhum prazo de entrega do material. E ao longo das 222 páginas, paira a contradição do silêncio de Foreman, "seu olhar grande, pesado como a morte, opressivo como o bater da tampa da tumba" e o falatório incessante de Ali, um homem crente da sua predestinação divina. Até o final do livro, o leitor aguarda ansiosamente o vencedor da luta e, assim como o autor, chega a temer por Ali, o negro que pretendia cumprir os desígnios de seu Deus dentro do ringue.

*A Luta (The Fight)
Norman Mailer, EUA,
1975, 222 páginas
*Disponível na Biblioteca Central da Universidade de Uberaba

 

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