A
Língua de Lula
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Fernando Machado
7 período de Jornalismo
A língua de Eulália, uma novela sociolinguística
curiosa de Marcos Bagno, embarca o seu leitor em uma corrente de reflexões
sobre as grandes diferenças e os laços estreitos existentes
entre as diversas culturas do Brasil e do mundo. E leva à lúcida
conclusão de que é a língua que as diferencia,
que é ela que destrói e reconstrói os costumes
e toda a cultura. Mais do que isso, o livro revela a origem de muitas
palavras que usamos e os precon-ceitos embutidos nelas. Através
da língua, o forte oprime politica-mente o mais fraco. Através
dela, criam-se os preconceitos e as regras sociais.
Exemplo, as proparoxítonas. No "português-não-padrão",
aquele falado pelas classes mais baixas na pirâmide social, elas
são transformadas em paroxítonas, que é o ritmo
natural da língua. Essa tendência, existente no português,
no espanhol e no francês, ocorria até no latim, uma língua
dita tão culta. Tão erudita que nas antigas missas feitas
em latim, o povo nada entendia do que os padres falavam. No "português
padrão", falado por cientistas e políticos, ou seja,
pela classe dominante as proparoxítonas são de uso comum
para designar termos científicos, literários. Inatingíveis
para a maioria do povo, que é pobre e semi-alfabetizado.
Por motivo seme-lhante, o português fa-lado pelos povos fora do
eixo Rio-São Paulo é tido como "brega", "ridí-culo",
e o que é pior, "errado". Os mesmos rótulos
que os portu-gueses atribuem ao nosso, e os ingleses ao inglês
falado na América do Norte. No Brasil, o "r" retroflexo,
predomi-nante for a das capitais e dos grandes centros, é motivo
de chacota. Os estrangeirismos america-nizados dão conta da influência
cultural que aquela nação exerce sobre a nossa. Dizer
que o Brasil fala uma única língua e que os dialetos falados
em lugares sem prestígio político não formam um
idioma apenas comprova o ditado que diz que o que diferencia um dialeto
de uma língua é que a última possui um exército.
Algumas línguas faladas por povos indígenas são
mais ricas do que o português, que é um dos idiomas mais
complexos e completos da Terra, para expressar as cores do arco-íris,
por exemplo. Na nossa cultura, o símbolo de que não haveria
mais dilúvio possui sete cores. Em outras culturas, fala-se de
dez cores ou então apenas quatro. Na ver-dade, a língua
falada por um povo é viva, muda com o tempo e expressa o mundo
que o rodeia. A língua falada por qualquer povo é rica
e flexível o suficiente para expressar quaisquer universos científicos
e os mais variados conceitos abstratos.
Não que os falantes do "português-não-padrão"
devam desprezar o português formal e agarrar-se às suas
origens, como adverte a personagem do livro chamada Irene. Antes, deveriam
ter direito ao direito de conhecer a língua falada pelos fortes,
e tê-la como uma etapa no processo de eman-cipação
de sua consciência. A leitura de "A língua de Eulália"
é propícia ao atual momento político nacio-nal.
Pela primeira vez na história de nossa república, um falante
do "português-não-padrão", ou seja, oriundo
das classes mais pobres, ocupa o cargo mais alto do Executivo. Tal qual
Eulália, personagem negra e pobre que vive com Irene e empresta
o nome ao livro, Lula simplesmente não faz uso dos plurais. O
novo presidente fala a língua do povo.