Raízes
do latifúndio
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Foto:
Marcos Zaniboni/Oboré

Stedile conversou com estudantes que participaram
do curso reporter do Futuro, em São Paulo.
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João
Pedro Stedile, um dos coordenadores do MST, conta a história
da concentração de terra no país e explica o sentido
da luta dos movimentos sociais.
André Azevedo da Fonseca
4o. período de Jornalismo
"Estou alegre que hajam jovens idealistas, que querem conhecer
melhor o Brasil, colocar sua profissão a serviço dos interesse
da maioria... espero..."
Assim começou a palestra de um dos principais coordenadores do
movimento dos Sem-terra (MST), João Pedro Stedile, concedida
a um grupo de 20 estudantes e recém-formados em Jornalismo que
participavam do projeto Repórter do Futuro, um curso realizado
pela Oboré - projetos especiais em comunicações
e artes, em parceria com a Radiobrás. O encontro foi realizado
na tarde de 19 de julho, na sede da Oboré, em São Paulo
alguns dias antes de sua palestra no salão paroquial no
município de Canguaçu (RS), quando um trecho de sua fala
serviu de base para uma avalanche de críticas na imprensa brasileira.
Na conversa com os estudantes, Stedile fez uma síntese da história
da ocupação e posse da terra no Brasil país
no qual, junto ao Paraguai, persiste a maior concentração
de terras no planeta. Para ele, compreender a História é
fundamental para entender as raízes do problema agrário
brasileiro e o sentido da luta dos movimentos sociais. E o que disse,
em resumo, foi o seguinte:
Antes de os portugueses chegarem ao continente, há 503 anos,
havia 5 milhões de pessoas distribuídas em diversas tribos
e agrupamentos sociais. A terra, evidentemente, era de propriedade coletiva,
um bem da natureza.
Com a conquista dos portugueses, as terras passaram a pertencer à
Coroa, e para que os capitalistas pudessem usufruir da terra, foi implementado
um sistema de concessão de uso: eram as capitanias hereditárias
extensões gigantescas de terra, mais tarde medidas em
sesmarias.
O sistema econômico era baseado na monocultura exportadora de
algodão, cana-de-açúcar ou cacau, realizada em
grandes unidades de produção, através de exploração
de mão-de-obra escrava.
Em meados do século XIX os negros já se organizavam e
fugiam para os quilombos. Ao mesmo tempo, graças a forte pressão
do capital inglês, esse modelo de produção agro-exportadora
entrou em crise. Assim, Dom Pedro II foi levado a promulgar a Lei 601
de 1850 que, há apenas 153 anos, introduziu a propriedade
privada das terras no Brasil. A partir daí, os senhores de engenho
poderiam transformar-se em proprietários das glebas que ocupavam
desde que pagassem uma fortuna à Coroa.
Segundo Stedile, em outras colônias das Américas foram
criadas leis mais democráticas. A lei de terras dos EUA, promulgada
por Abraham Lincoln em 1862 (12 anos depois da brasileira) garantiu
a posse de 100 acres (equivalente a 80 hectares) de terra pública
a toda e qualquer família americana que quisesse trabalhar na
terra uma revolução no campo, o que constitui-se
em uma verdadeira lei de reforma agrária, apesar de não
ter tido esse nome.
"Aqui no Brasil as elites não quiseram esse caminho"
porque queriam "que os negros continuassem trabalhando como assalariados
deles". Para Stedile, esta é a base da desigualdade atual.
"Nós perdemos a primeira oportunidade de fazer reforma agrária
na transição da escravidão para um outro modelo".
A crise do modelo agro-exportador se prolongou até 1930, quando
então surgiram as primeiras lutas organizadas de camponeses.
Esses trabalhadores rurais eram formados por gerações
de misci-genados mamelucos e mulatos excluídos pela lei
de 1850 que haviam entrado sertão adentro em busca de
terra. Para Stedile, a primeira grande luta camponesa do Brasil foi
Canudos. "O que foi Canudos? Um líder messiânico,
Antônio Conselheiro, disse para esse tipo de população:
vamos pessoal, eu sei onde tem terra boa, vamos comigo que lá
ninguém vai encher o saco."Antônio Conselheiro conseguiu
reunir 25 mil pessoas em quatro anos. "Aí o governo se assustou
com aquela mobilização, e a história do massacre
vocês conhecem..."
Assim, para repor a mão-de-obra na lavoura, a classe dominante
estimulou um programa de atração de camponeses pobres
da Europa, de forma que, entre 1875 e 1914 vieram para o Brasil 1,6
milhão de famílias de camponeses pobres. O governo chegou
a fazer um programa de colonização das terras públicas,
entregando a eles, no inicio, de 40 a 50 hectares, e depois, aos outros,
25 hectares. Assim, aquelas gerações de miscigenados e
esses imigrantes formaram, pela primeira vez na nossa sociedade, o que
pode ser chamado de classe social dos camponeses.
A saída da crise aconteceu em 1930, quando a chamada burguesia
industrial, constituída com o capital dos barões do café
e sediada sobre-tudo em São Paulo, fez uma revolução
política, destronou a oligarquia rural, assumiu o poder e implementou
um novo modelo econômico. Nesse momento, explicou, a classe dominante
brasileira perdeu a segunda oportunidade de fazer uma reforma agrária.
Segundo Stedile, todos os países do hemisfério Norte casaram
o capitalismo industrial com distribuição de terras no
século XIX. Inclusive, quem inventou o termo reforma agrária
foi a própria burguesia industrial da Europa, que desenvolvia
uma política de Estado para derrotar a aristocracia rural européia,
dividir a terra, transformar os camponeses em pequenos proprietários
e, portanto, em pequenos produtores rurais e pequenos consumidores das
mercadorias produzidas pela indústria.
Mas no Brasil, Getúlio Vargas não fez reforma agrária,
primeiro porque o capitalismo brasileiro era voltado ao mercado externo
e não ao mercado consumidor interno. E depois, porque
precisava de um elevado nível de exploração de
mão-de-obra para poder competir com a Europa, pois a única
maneira de ter alta taxa de lucro era ter baixos salários. E
para ter baixos salários é preciso ter grandes contigentes
de mão-de-obra sempre procurando emprego. E de onde vinha esse
exército industrial de reserva, cujo papel fundamental
é manter os salários baixos? "Vinha do interior,
dos filhos de camponeses."
Dessa forma, o modelo de industrialização, para a burguesia
brasileira, foi um sucesso. "Durante 50 anos de 1930 a 1980
nossa economia teve um processo de crescimento econômico
fantástico! Nesse período, na história do planeta,
nenhuma outra sociedade cresceu tanto economicamente quanto o Brasil.
E nós saímos de uma economia atrasada e agrícola,
e em 50 anos nos transformamos na oitava economia do mundo!"
Da década de 80 para cá, ocorreu o fenêmeno que
José Graziano, atual Ministro Extraordinário de Segurança
Alimentar e Combate à Fome, descreveu em sua tese de doutorado
como modernização dolorosa ou seja, aqui, o capitalismo
entrou na agricultura, mas apenas na grande propriedade, expulsando
ainda mais a mão-de-obra.
Segundo Stedile, o Brasil tem a mais alta tecnologia agrícola,
mas se por um lado ela aumenta a produtividade da lavoura, aumenta também
a concentração da riqueza, o desemprego, a pobreza, a
desigualdade social "tudo ela aumenta, e aumenta até
os idiotas que, de vez em quando, escrevem nos jornais que a agricultura
brasileira deu certo. Deu certo para apenas 26 mil proprietários,
de áreas entre 500 hectares e 1 mil hectares; mas para os pequenos
agricultores, que têm pouca terra, esse modelo agrícola
não deu certo."