E viva os Santos Reis !

O ritual da Folia de Reis resiste na cultura mineira


Os irmãos representando os três reis:Baltazar, Belchior e Gaspar.



Karla Marília Meneses
6 período de Jornalismo


"(...) e entrando na casa, encontraram o Menino com Maria, sua mãe, e prostando-se, o adoraram, e abrindo seus tesouros, lhe ofereceram presentes de ouro, incenso e mirra."(Mateus, 2,9 –11).

Um homem agacha, ajoelha e, com reverência, beija uma bandeira ver-melha bordada, carre-gando pequenas foto-grafias. Músicos com suas violas cheias de fitas coloridas, acom-panhados de pandeiros, triângulo e um acordeon, cantam em côro. A bandeira representa os três reis magos, os Santos Reis, e as pequenas fotos, gente que pediu graças que foram alcançadas. Dentro de uma casa, os dez "foliões" são comandados por Nilson Carneiro, chamado de "Embaixador" ou "Capitão da Festa.".

Enquanto isso, não muito longe, na fazenda Boa Esperança, as mulheres – e alguns homens – preparam as iguarias para o jantar da festa: o abate de quatro vacas, 120 quilos de macarrão, 6 sacas de batata (uma saca corresponde a 60 quilos), 4 sacas de arroz, 50 quilos de feijão para o tutu e 50 latas de doces para a sobremesa." A previsão é que mil pessoas compareçam ao evento. A "responsável" por tamanha festa foi Rosalina Maria Santana, que fez um voto com os Santos Reis. Graça alcançada, voto cumprido: a bandeira de Gaspar, Belchior e Balthazar ficaria por sete anos com sua família. Dona Rosalina faleceu e os filhos e netos continuam com a tradição.

Lonas e toldos são armados, bandeirinhas coloridas fixadas e chão varrido. Oito cozinheiras mexem seus tachos à espera da bandeira sagrada. Na casa próxima, os foliões cantam e iniciam o percurso, carregando a bandeira com fitas e flores. O canto torna-se uma narrativa do caminho realizado pelos Reis Magos para encontrar o Menino Jesus. Essa cerimônia tem tanta importância para os moradores quanto uma cerimônia litúrgica de uma igreja. Os séculos encarregaram de incorporar esse ritual e sedimentá-lo na memória popular. O Capitão da Folia conta que esse "ofício" de cantar para os Santos Reis é passado de pai para filho: "Meu pai cantava, o pai do meu pai também...", diz, enquanto bate nas cordas da viola. Um considerável número de pessoas acompanha os foliões: moradores das redondezas, curiosos e devotos.

Já é noitinha e os foliões, com o cortejo, entram na casa dos festeiros. São chamados assim, "festeiros", aqueles que recebem a bandeira e são responsáveis pela festa daquele ano. Orlando Pio Caetano, Olavo Gonçalves Ramos e Cleuza Caetano são os ansiosos anfitriões da festa. Gente dos arredores, de fazendas vizinhas e da cidade de Uberaba vão chegando e, pouco a pouco, o local fica repleto, cheio mesmo. Um ritual intitulado "passagem das coroas" se inicia: o terço é rezado e músicas religiosas são cantadas pelos presentes. Num pequeno altar que representa a lapa onde os reis vão chegar, se encontra a bandeira dos Santos Reis. Três coroas e três mantos são passados para Orlando, Olavo e Cleuza: o amarelo corresponde ao Rei Baltazar; o vermelho, a Belchior e o verde pertence ao Santo Rei Gaspar. Reverentemente, recebem os objetos sagrados. " É uma tradição que acompanha nossa família. Somos devotos mesmo dos Santos Reis. É o terceiro ano que fazemos a festa e a cada ano, na nossa família, os festeiros serão escolhidos.", explica Olavo Gonçalves.

Após o recebimento das coroas e dos mantos, um jantar tipicamente mineiro é servido: carne de panela, tutu de feijão, macarrão e arroz soltinho são algumas da iguarias. Entre tantas delícias, um senão: as bebidas alcoólicas são proibidas. Uma banda de música prepara-se para tocar. A festa de Santos Reis torna-se um evento tão animado quanto uma festa sem cunho religioso: as pessoas conversam descontraídas, comem e dançam. " Ano que vem tem mais festança... A bandeira está prometida ficar durante sete anos em nossa família: é fé , tradição e alegria. E viva Santos Reis!", finaliza Cleuza Caetano com seu manto e uma coroa dourada na cabeça.



 

Nos anais da História: A tradição pagã e católica.

 


subir