Importância
histórica
justificava preservação
Fotografia:
André Azevedo

Rua Manuel Borges, em foto da primeira metade do
século XX. À direita, a loja Notre Dame de Paris (antiga
casa de Major Eustäquio), demolida para a construção
do hotel Chaves. O prédio seguinte é o cine Politeana,
também demolido. Hoje o terreno abriga um galpão abandonado,
onde há alguns anos funcionava uma filial de Lojas Brasileiras. |
Codemphau
havia sugerido tombamento em fevereiro de 2000
O Conselho Deliberativo
Municipal de Patrimônio Histórico e Artístico de
Uberaba (Codemphau) é o órgão institucional encarregado
de executar o tombamento dos bens culturais de interesse público.
É também atribuição do conselho a realização
de laudos, pareceres técnicos, pesquisas históricas e
assessoria em projetos urbanísticos e planos de obras em áreas
de preservação. Além disso, é o órgão
responsável pela notificação dos proprietários,
estabelecimento de medidas definitivas de proteção, fiscalização
do cumprimento das leis e decisões sobre a aplicação
de recursos. Sempre que as ações de qualquer secretaria
municipal envolverem o patrimônio cultural da cidade, o Codemphau
deve ser consultado e tem autonomia para impedir modificações
que comprometam a preservação.
Os conselheiros, nomeados pelo prefeito, são pessoas de destaque
na sociedade e não recebem remuneração. Normalmente
são historiadores, arquitetos, artistas e representantes institucionais
como vereadores e funcionários de secretarias estratégicas.
O conselho municipal foi instituído em 1984, com função
apenas consultiva. Em 1997 passou a ser deliberativo isso significaria
mais poder de decisão e execução. O presidente
do Codemphau era o então presidente da Fundação
Cultural, José Thomaz da Silva Sobrinho.
Em uma reunião no dia 9 de fevereiro de 2000, o Codemphau determinou
que o palacete de Antônio Pedro Naves deveria ser tombado. De
acordo com a planta dos perímetros de entorno de três bens
protegidos (Paço Municipal Major Eustáquio, Palacete São
Luís e residência na Praça Rui Barbosa), estava
claro que o palacete já estava protegido por localizar-se entre
dois deles. Além disso, como citado anteriormente, a casa já
fora inventariada pelo Iepha-MG e indicada para tombamento, ainda em
1987.
Nessa reunião, o advogado Alaor Ribeiro, um dos conselheiros,
chegou a redigir um parecer recomendando o tombamento, mas as coisas
não passaram disso. Em 2000 houve apenas três reuniões
do conselho, conforme os registros em ata disponíveis na Fundação
Cultural. A historiadora Sonia Fontoura foi afastada do arquivo e, em
2001, o Codemphau simplesmente se esvaziou e deixou de exercer as atividades.
Em março de 2002 o conselho foi reestabelecido, deixou de ser
vinculado ao Arquivo Público, criou equipe técnica própria
e passou a ser ligado à Fundação Cultural. Sonia
Fontoura agora assessora do conselho e o historiador Augusto
Rischiteli trabalhavam no processo de tombamento do palacete desde 1999,
ainda no Arquivo Público. Esse processo constitui-se em um detalhado
dossiê que registra a contextualização histórica
da cidade e do bem cultural, faz a descrição e análise
do imóvel, delimita seu perímetro de entorno e reúne
documentação cartográfica e fotográfica
para instituir o tombamento definitivo. Grande parte das informações
históricas do começo desta reportagem tiveram essa pesquisa
como fonte.
Em 11 de abril de 2002, o proprietário Idivaldo Odi Afonso foi
notificado e Sonia Fontoura assinou o parecer estabelecendo o início
do processo de tombamento. Foi a faísca que detonaria uma guerra
furiosa, combatida em uma série de batalhas exaustivas, travadas
em duas frentes simultâneas, que acabaria por soterrar o legado
de Antônio Pedro Naves, em um ainda distante 13 de dezembro.
Nesse ponto da história, no entanto, surge uma pergunta intrigante,
que uma alma curiosa não poderia deixar de formular: como o imóvel
da família que supostamente deveria prezar pela memória
do patriarca veio parar nas mãos de Idivaldo, um empresário
que nunca escondeu sua intenção em destruí-lo?
É isso que examinaremos a seguir.