Cidade
é documento histórico
Fotografia:
André Azevedo/fevereiro 2002

Placas, letreiros, pintura e reformas inadequadas
descaracterizam casarão localizado na rua Arthur Machado. |
Carta
de Washington propaga noção de que toda cidade é
histórica. Edificações são como páginas
em um livro aberto
O Conselho Internacional
da Monumentos e Sítios (Icomos) redigiu, em 1986, na cidade de
Washington (EUA), a Carta Internacional para a Salvaguarda das Cidades
Históricas, ou Carta de Washington. Neste documento, o
Icomos traz definições muito importantes para compreender
a questão do patrimônio cultural em uma sociedade.
"Resultantes de um desenvolvimento mais ou menos espontâneo
ou de um projeto deliberado, todas as cidades do mundo são expressões
materiais da diversidade das sociedades através da história
e são todas, por essa razão, históricas",
registra. Isso significa que não tem mais sentido dizer que apenas
este ou aquele município é considerado "cidade histórica",
pois todas as cidades são históricas, na medida em que
todas se desenvolveram a partir da ação humana e todas
deixaram um legado para a posteridade.
A idéia da cidade como documento histórico é uma
decorrência desta noção. Cada edificação
exprime os valores de determinada época. É possível
"ler" na arquitetura das casas informações capazes
de decifrar o estado de espírito do tempo em que foram construídas.
Portanto, essas edificações na paisagem da cidade são
como páginas em um livro aberto, cuja função é,
entre outras, fazer com que os habitantes percebam, em seu cotidiano,
que são sujeitos históricos.
A carta registra ainda que, atualmente, muitas dessas casas/documentos
históricos "estão sendo ameaçadas de degradação,
de deterioração e até mesmo de destruição
sob o efeito de um tipo de urbanização nascido na era
industrial e que hoje atinge universalmente todas as sociedades".
O texto define princípios e métodos de ação
para garantir a qualidade das cidades históricas e perpetuar
o conjunto de bens que, "mesmo modestos, constituem a memória
da humanidade".
Princípios e objetivos
A carta recomenda que a salvaguarda das cidades e bairros histó-ricos
deve ser parte essen-cial de uma "política coerente de desenvol-vimento
econômico e social", capaz de promo-ver a adaptação
harmo-niosa desses conjuntos de edificações históricas
à vida contemporânea. As ameaças que possam comprometer
a autenticidade do caráter histórico da cidade devem ser
combatidas. "A participação e o comprometimento dos
habitantes da cidade são indispensáveis ao êxito
da salvaguarda e devem ser estimulados". A carta assinala que não
se deve esquecer que a preservação do patrimônio
cultural "diz respeito primeiramente a seus habitantes".
Para assegurar a participação e o envolvimento dos habitantes,
a carta recomenda que sejam efetuados programas de informação
e educação ainda nos primeiros anos escolares. Para o
Icomos, é fundamental o estímulo às pesquisas urbanas
e incentivo à divulgação do resultados para um
melhor conhecimento do passado das cidades.
O Icomos esclarece que um dos objetivos fundamentais da salvaguarda
é a melhoria do habitat humano. Escreve que as novas construções
e acréscimos devem respeitar a organização espacial
existente na cidade. "A introdução de elementos de
caráter contemporâneo, desde que não perturbe a
harmonia do conjunto, pode contribuir para o seu enriquecimento".
Este documento também orienta que "a circulação
de veículos deve ser estritamente regulamentada" e as áreas
de estacionamento devem ser "planejadas de maneira que não
degradem seu aspecto nem o do seu entorno". Além disso,
diz que o poder público deve favorecer a ação de
associações de preservação e tomar "medidas
de caráter financeiro para assegurar a conservação
e a restauração das edificações existentes".