Conferências
da Unesco são
instrumentos de proteção
Fotografia:
André Azevedo/fevereiro 2002

Construções aleatórias descaracterizam
conjunto histórico do "calçadão"
da rua Arthur machado |
Recomendação
de Nairobi alerta sobre o perigo da uniformização arquitetônica
para a diversidade cultural
Na 19 Conferência
da Unesco, realizada em Nairobi (Quênia) no ano de 1976, foi discutida
e aprovada uma carta de recomendações sobre a importância
e a função dos conjuntos históricos na vida contemporânea.
A Recomendação de Nairobi é hoje um dos instrumentos
adotados internacionalmente para a proteção do patrimônio
cultural.
O documento registra que os con-juntos históricos "constituem
a pre-sença viva do passado", e assegu-ram a variedade necessária
para responder à diversidade da sociedade. Assim, adquirem um
valor e uma dimensão humana que vão muito além
de seu mero valor imobiliário. A carta diz que os conjuntos históricos
são "os testemunhos mais tangíveis da riqueza e da
diversidade das criações culturais, religiosas e sociais
da humanidade". A sua salvaguarda e integração na
vida contemporânea devem ser metas fundamentais do planejamento
territorial.
A recomendação de Nairobi assinala ainda a preocupação
perante os "perigos da uniformização e da despersonalização
que se manifestam constantemente em nossa época", pois os
conjuntos históricos são peças fundamentais da
identidade de cada ser humano e da nação em que está
inserido.
"No mundo inteiro, sob pretexto de expansão ou de modernização,
destruições que ignoram o que destroem e reconstruções
irracionais e inadequadas ocasionam graves prejuízos a esse patrimônio
histórico", acusa, alertando que essa destruição
"provoca muitas vezes perturbações sociais".
Considerando que essa situação implica a responsabilidade
de cada cidadão, e impondo também aos poderes pú-blicos
obrigações que "só eles podem assumir",
reco-menda que os Es-tados devam adotar "urgentemente uma política
global e ativa de proteção e de revitalização
(
) como parte do planejamento nacional, regional ou local".
Conjuntos históricos devem ser considerados como "patrimônio
universal insubstituível" e devem ser compreendidos em sua
globalidade, como um todo coerente, cujo equilíbrio depende de
todos os elementos que o compõem. Essa harmonia deve ser respeitada.
Devem ser também protegidos "contra quaisquer deteriorações,
parti-cularmente as que resultam de uma utilização imprópria,
de acréscimos supérfluos e de transformações
abusivas ou desprovidas de sensibilidade que atentem contra sua autenticidade".
A recomendação regisra que, no ritmo da urbanização
moderna, com o aumento na escala e na densidade das construções,
além do perigo da destruição direta dos conjuntos
históricos, existe o risco de que eles sejam destruídos
indiretamente, através da destruição da ambiência
e da identidade histórica no entorno. A carta recomenda que que
arquitetos e urbanistas se empenhem para que esses conjuntos "se
integrem harmoniosamente na vida contemporânea".
O maior risco nessa época de universalidade das técnicas
construtivas e formas arquitetônicas é provocar a "uniformização
dos assentamentos humanos no mundo inteiro". Ou seja, a padronização
de técnicas estaria construindo cidades também padronizadas,
monolíticas, medíocres, sem identidade, todas iguais,
feito blocos pré-fabricados, bem ao gosto da cultura de massa.
Daí a importância vital da salvaguarda dos conjuntos históricos,
que podem "contribuir extraordinariamente para a manutenção
e o desenvolvimento dos valores culturais e sociais peculiares
de cada nação e para o enriquecimento arquitetônico
do patrimônio cultural mundial".