O
triste fim de Antônio Pedro Naves
Fotografia:
André Azevedo

Na manha de domingo, dia 15 de dezembro de 2002, o segundo piso
já estava praticamente em ruínas. |
Edificação
convidava à reflexão sobre importante período da
história da cidade
André Azevedo
da Fonseca
3 período de Jornalismo
Na sexta-feira 13
de dezembro de 2002, o Palacete Antônio Pedro Naves, uma das edificações
mais significativas do patrimônio cultural da cidade, começou
a ser demolido a pedido do empresário lotérico Idivaldo
Odi Afonso, o proprietário. Primeiro o palacete foi destelhado.
Depois, as paredes internas foram derrubadas. Finalmente, a fachada
destruída. Na manhã de domingo, o segundo piso já
estava praticamente em ruínas. Na segunda-feira, os comerciantes
foram abrir as lojas e não acreditavam no que viam. Aquele casarão,
destruído! O prédio localizava-se na esquina das ruas
Manoel Borges e Major Eustáquio.
Para compreender o que Uberaba perdeu sob esses escombros, e para elucidar
os caminhos que permitiram a destruição de um símbolo
da memória coletiva, em favor de um negócio particular,
é preciso, primeiro, dar alguns mergulhos na história
da cidade; depois, meter-se a bisbilhotar registros em cartório
de partilhas de heranças e negócios imobiliários;
finalmente, entrincheirar-se entre uma furiosa batalha jurídica
para desembaraçar a trama de argumentações que
acabaram por justificar, perante a Justiça, a demolição.
Para conhecer um pouco de Antônio Pedro Naves, é necessário
voltar os olhos para o fim do século XVIII, quando o fabuloso
período de abundância do ouro de Minas Gerais entrou em
decadência e os mineradores, alucinados por riquezas, passaram
a buscar novos pontos de exploração. Foram descobertas
algumas jazidas isoladas nas regiões do antigo Ser-tão
da Farinha Podre, atual Triângulo Mineiro o suficiente
para chamar a atenção de muitos deles e disparar uma pequena
corrida do ouro. Depois que esgotaram as jazidas do Desemboque, esses
homens tiveram que procurar novas atividades para sobreviver. Foram
organizadas, então, expedições de povoamento para
buscar terras férteis no interior.
Nessas expedições o Sargento-mor Antônio Eustáquio
da Silva e Oliveira, Comandante Regente dos Sertões da Farinha
Podre (mais tarde conhecido por Major Eustáquio), encontrou terras
mais férteis e decidiu construir a Chácara Boa Vista próxima
ao Rio Uberaba. Dois quilômetros adiante, mandou fazer um retiro
onde criou algumas cabeças de gado. Atraídas por Antônio
Eustáquio, famílias passaram a instalar-se nos arredores
de sua propriedade.
Esse povoamento foi o embrião do que viria a ser a praça
Rui Barbosa. A casa de Major Eus-táquio, o fundador de Uberaba,
não existe mais. Localizava-se no terreno onde hoje está
erguido o Chaves Palace Hotel. Durante o século XX, o imóvel
foi ocupado pelo português Borges Sampaio (personagem im-portante
da história da cidade), e mais tarde pela loja Notre Dame de
Paris, muito popular até os anos 70. A casa de Major Eustáquio
foi demolida no início da década de 80 para a construção
do hotel.
Voltemos agora rumo ao século XIX. Uberaba foi um importante
posto avançado de comércio chamado de "boca
do sertão" por ser passagem obrigatória dos
mercadores que atravessavam a estrada do Anhangüera e desbravavam
sertão em caravanas de carros-de-boi para comercializar produtos
de São Paulo (como o sal) e gado de Goiás e Mato Grosso.
Depois de um período de baixo crescimento no século XIX,
a chegada da Companhia de Estradas de Ferro e Navegação
Mojiana, em 1889, incrementou a distribuição de merca-dorias,
aqueceu a eco-nomia da cidade e esti-mulou o surgimento de armazéns,
bancos e indústrias.
Mais tarde, abalados por uma crise no co-mércio e pela abolição
da escravatura, proprie-tários e políticos de Uberaba
incentivaram a imigração. Para se ter uma idéia,
até 1901, Uberaba recebeu 156 famílias de italianos. Depois
vieram portugueses, espanhóis, árabes, sírios e
armênios. Mas a superação da crise se deu quando
a criação de gado Zebu introduzida em 1875
passou a atingir alta rentabilidade.
Mascate de Zebu
Logo chegaremos ao nosso personagem, Antônio Pedro Naves, o primeiro
dono do palacete. Muitos uberabenses foram à Índia buscar
o "boi de cupim". Até 1921, cerca de 5 mil cabeças
foram trazidas para a região. Os criadores do Triângulo
Mineiro adaptaram o gado, de forma que o Zebu daqui ficou melhor que
o da Índia mais pesado, precoce e manso, características
incomuns na raça tida como indomável. O Zebu teve dois
períodos áureos na primeira metade do século XX:
um de 1913 a 1921, e outro de 1935 a 1945, ambos impulsionados pelo
alto consumo de carne brasileira na Europa, no período das Guerras
Mundiais.
Uma das formas que os chamados "Barões do Zebu" encontravam
para ostentar sua riqueza era mandando erguer palacetes suntuosos, projetados
por arquitetos estrangeiros especialmente italianos que
soltavam a imaginação para criar cenários de opulência
e prosperidade. A arquitetura predominante na época era a chamada
eclética ou seja, reunia em si diversos estilos e escolas
estéticas. Essa era a moda nos grandes centros da época,
e uma forma de parecer cosmopolita era aderindo ao que de melhor se
fazia na arquitetura das metrópoles.
Apesar da ostentação e glória dos barões,
outros personagens tiveram papel fundamental na história do Zebu.
Foram os mascates comerciantes aventureiros que desafiavam o
sertão, enfrentando sol, chuva e mormaço, cobras, mosquitos
e doenças, montando lombo de burro ou cavalo, arrastando cangas
de bois para apresentar e vender a raça ainda desconhecida pela
maioria dos pecuaristas brasileiros. Chamados de os primeiros "marketeiros"
do Zebu, esses homens enfrentaram muita resistência devido à
intensa campanha difamatória que a raça sofreu nesta época.
Zebu não é raça, é bicho!, dizia
o político Assis Brasil.
Segundo informações no processo de tombamento, Antônio
Pedro Naves foi um desses mascates. De acordo com o registro no Cemitério
Municipal, Naves nasceu em 9 de fevereiro de 1871 época
do Brasil Império. Aos 18 anos, Naves vivenciou o período
da Proclamação da República, em 1889. Há
dúvidas em relação à sua origem. O livro
do cemitério informa que ele é uberabense. A certidão
de óbito, disponível no Arquivo Público, registra
que ele é de Sacramento. No entanto, fontes da família
afirmam que ele nasceu em Iraí de Minas, mas veio morar em Uberaba
porque procurava um lugar melhor para educar os filhos (veja entrevista).
Enfrentando todas as dificuldades imagináveis na condu-ção
do gado pelo Triângulo Mineiro e Mato Grosso, conse-guiu acumular
certo dinheiro e comprou umas terrinhas, inclu-indo a fazenda Marim-bondo.
Tornou-se então criador e comerciante de gado, e foi sócio
fundador e contribuinte do Herd Book Zebu a primeira associação
criada para exportação de animais, em 1918, e que mais
tarde daria origem à Associação Brasileira dos
Criadores de Zebu (ABCZ).
Na primeira crise do Zebu, Naves teve que penhorar boa parte de suas
propriedades para saldar dívidas. Mas Naves enriqueceu de verdade
no período de grande exportação de carne para suprir
o mercado europeu durante a 1» Guerra Mundial. Seu palacete foi construído
nessa época.
Não consta que Naves tenha viajado pessoalmente à Índia.
Segundo uma nota publicada no jornal Lavoura & Comércio,
no domingo de 3 de agosto de 1919, o negociante Luiz de Oliveira Ferreira
seguira naquele dia para o Rio de Janeiro, com destino à Índia,
para adquirir "uma grande leva de reprodutores indianos para si
e para os srs. Dr. José de Oliveira Ferreira e Major Antonio
Pedro Naves". No entanto, era possível imaginar a admiração
de nosso personagem principal por aquele país, sobretudo devido
à arquitetura de seu palacete com nítidas influências
orientais, especialmente do Taj Mahal , além do nome indiano
de uma de suas filhas, Rasma.
Arquitetos sabem que, em um projeto, o profissional "estuda"
o seu cliente, ou seja, conhece a visão de mundo e os anseios
do futuro proprietário para expressá-los na arquite-tura.
Aquele palacete, portanto, edificara o universo mental de Naves, um
contempo-râneo de um dos períodos áureos da história
de Uberaba.
O palacete de esquina correspondia a uma área de aproximadamente
900m2 e possuía dois pavimentos divididos em 20 cômodos
treze no térreo e sete no porão. A cobertura era
de telhas francesas, e as fachadas divididas em duas partes simétricas,
com uma escadaria de acesso central ao térreo. Essa escadaria
fazia conjunto com uma pequena galeria protegida por uma balaustrada
e uma cobertura estilizada, onde elevava-se um mirante.
Nosso personagem não frequentava muito as páginas dos
jornais da época. O Revelação consultou os arquivos
do jornal Lavoura & Comércio e só foram encontradas
duas ocorrências: a nota sobre a viagem de José de Oliveira
à Índia e a notícia do falecimento de Naves em
1941, sem foto, onde são louvadas as suas virtudes de "conceituado
pro-prietário", "apreciáveis dotes de caráter",
"chefe de família exemplar", "cidadão digno
e prestimoso", etc. A pedido do Revelação, a estudante
de História da Uniube, Cristiane Ferreira, pesquisou nos periódicos
do Arquivo Público Municipal, e nada de Naves. Foram encontrados
sete processos judiciais do comerciante, basicamente relacionadas à
dívidas de inadimplentes.
Não é difícil imaginar Antônio Pedro Naves,
o próspero, numa tarde de sábado, vitorioso no mirante
de seu recém construído palacete, relaxando o corpo na
cadeira de balanço, lendo as últimas da Gazeta de Uberaba,
endereçando cuspidelas na escar-radeira de porcelana, enquanto
recebia de-monstrações de carinho e consideração
de seus herdeiros: a esposa, Maria Rosa, e os cinco descendentes, Rasma,
Stellita, Dagoberto, Alaor e João.
Simbologia histórica
O projeto arquitetônico do palacete foi concebido por Francesco
Palmério, italiano de Torre de Passeri. Palmério veio
para Uberaba com um grupo de engenheiros, contratados na Itália,
para trabalhar na Estrada de Ferro Cia Mogiana. Francesco era também
topógrafo e teve muito serviço quando, em consequência
do artigo da Constituição Republicana de 1891, os herdeiros
de sesmarias tiveram que realizar partilhas entre os condôminos
para regularizar a docu-mentação.
Francesco naturalizou-se brasileiro e passou a assinar Francisco. Teve
nove filhos, entre eles Mário Palmério, criador das faculdades
que deram origem à Universidade de Uberaba. De seus projetos
arquitetônicos, restavam apenas dois: o palacete de Antônio
Pedro Naves e o palacete de Arthur Castro e Cunha, localizado na praça
Rui Barbosa, ao lado da Câmara Municipal. Hoje, em 2003, só
resta este último.
O executor do projeto de Palmério foi o construtor Miguel Laterza,
responsável também pela edificação da Igreja
São Domingos, pela antiga penitenciária (hoje Faculdade
de Medicina) e várias casas na rua Segismundo Mendes.
Por carregar toda esta simbologia histórica e por ser um exemplo
precioso de uma arquitetura proje-tada e construída por engenheiros
das melhores escolas italianas, o palacete chamou a atenção
do Instituto Estadual de Patrimônio Histórico e Artístico
de Minas Gerais (Iepha-MG) e foi registrado no Inventário de
Proteção do Acervo Cultural de Minas Gerais (Ipac-MG)
em 1987. O Ipac é um relatório de pesquisa cuja finalidade
é rastrear, identificar e conhecer o acervo de todos os 853 municípios
do Estado. O objetivo é formar um banco de informações
para servir de instrumento à definição de políticas
públicas de proteção ao patrimônio. No fichamento
assinado pela arquiteta Denise Thomaz Teixeira, está escrito
que "a edificação encontra-se em satisfatório
estado de conservação. Apresenta descaracterização
no porão, acesso principal, e outras de caráter reversível
como o uso de anúncios publicitários nas fachadas".
Era evidente que o palacete deveria ser restaurado e protegido. Era
um dos mais importantes símbolos da formação histórica
da cidade.