Régia
Ferreira
"Eu acho bonito"
Fotografia:
André Azevedo

Régia
Ferreira: "pelas provas que estavam ali no processo, eu não
tinha como indeferir a demolição |
Juíza
diz o que pensa sobre patrimônio cultural
e justifica sua sentença no mandado de segurança
Na tarde de 28 de
abril, a juíza Régia Ferreira de Lima concedeu uma entrevista
ao Revelação em sua sala da 3» Vara Cível no Fórum
Melo Viana. Ela explicou que decidiu pela concessão da li-cença
para demolir o palacete por causa das provas que tinha em mãos
os laudos da Esape e do Corpo de Bombeiros que deno-tavam
iminente risco de desabamento. "Se todas as provas informam que
aquele prédio estava oferecendo risco para a população
que passa por ali, achei por bem deferir a demolição",
disse.
"Vamos supor que eu negasse o mandado de segurança, e porventura
nesse prédio ocorresse um acidente e matasse várias pessoas?
Pesaria muito na minha consciência. Imagina minha filha pequena
chegar pra mim e falar: mãe, mas a senhora esteve com o processo
na mão, a senhora poderia ter impedido essas mor-tes, poderia
ter feito alguma coisa. Você entendeu? Pra mim, seria muito mais
grave."
Esse receio de desmoronamento foi evocado várias vezes durante
a entrevista. "A gente não pode brincar com isso. Quando
você fala em vida, em ser humano, a gente não pode brincar.
Pelas provas que estavam ali no processo, eu não tinha como indeferir
[a demolição]."
Ela confirmou que, nos autos, não havia nenhum laudo garantindo
o estado da solidez da edificação. "Não tem
nada nesse sentido. Pelo contrário, os laudos que estavam ali
apontavam para uma reforma que precisava ser de forma imediata."
Régia Ferreira afirmou ainda que, "já que ninguém
queria se responsabilizar por nada (
) eu não tinha outra
alternativa senão julgar o mandado de segurança procedente."
No entanto, afirmou que, se houvessem documentos provando que o prédio
não corria risco, e se os interessados mostrassem que poderiam
ser captados recursos para a restauração, evidentemente,
a decisão seria diferente. "O juiz decide de acordo com
aquilo que ele tem nos autos."
Verbas
Ainda assim, a juíza manteve o raciocínio da sentença
ao afirmar que é injusto reformar casa antiga, enquanto as pessoas
estão passando fome. "A gente vê tanta gente sofrendo,
com fome, nosso sistema de saúde caótico, você vê
a escola pública como está. Então, já que
o município fala que não tem essa verba, por que vai investir?
E mesmo se tivesse, seria injusto investir nisso e deixar as pessoas.
Veja bem: é um prédio, é um objeto. Criança,
ser humano, é vida, somos nós. O que é primordial,
zelar pela sua vida, ou pelo seu carro?", comparou.
Um trecho muito criticado de sua sentença foram as considerações
finais, onde a juíza afirma que é melhor construir casas
novas do que restaurar prédios velhos. "Eu me referia a
prédios que estão caindo, que estão oferecendo
risco de vida. É essa a linha do meu entendi-mento. Você
pode con-servar o prédio, desde que você tenha condição
e que você realmente conserve!"
Durante as manifestações que ocorreram em dezembro de
2002 para protestar contra a demolição, Régia foi
muito criticada. "As pessoas perguntam: a doutora Régia
é contra casarões antigos? Não! Eu acho bonito.
Eu mesmo compraria um pra eu morar! Eu acho bonito um casarão
antigo. Desde que você tenha condições para reformar,
que aquilo não desabe e não cause um risco sério
para a população", afirmou.
Responsabilidades
"Então eu pensei, um prédio desse tudo bem,
é muito bonito mas o cidadão me fala que não
tem o dinheiro, a Prefeitura fala que não tem verba, e que não
vai se responsabilizar, a Fundação Cultural fala que não
está nem aí para o prédio, o que eu posso decidir?"
Régia vê com naturalidade a iniciativa do Ministério
Público entrar com o recurso de apelação ao Tribunal
de Justiça. "O Tribunal vai examinar. Eu decidi de acordo
com o meu entendimento, meu livre arbítrio. Eu não fui
coagida por ninguém, não decidi porque não gosto
de fulano ou sicrano. Eu tive meu livre arbítrio de entendimento
para julgar, para dar essa sentença. Agora, acima de mim, tem
um Tribunal, tem uma corte superior, que vai examinar todas as peças
do processo, vai examinar a sentença. Ela pode muito bem cassar
minha sentença, como pode mantê-la."
A juíza também afirmou que não é uma adversária
da preservação do patrimônio cultural da cidade
"Não fiquem preocupados, achando que a doutora Régia
não gosta de casas antigas. Não, absolutamente. Eu moraria
numa casa antiga, porque eu acho bonito. Então, isso aí
você pode tirar da cabeça. A minha sentença foi
só nesse prédio, em vista daqueles aspectos trazidos aqui.
Se tiver um outro caso, nós vamos analisar tudo de novo, de outra
forma, porque cada processo é um pro-cesso, cada situação
é uma situação."