Sonia
Fontoura:
"Não existe política de patrimônio cultural
na cidade"
Fotografia:
André Azevedo

Sonia Fontoura:
eu sentia que o que nós fazíamos por um lado, pelo
outro era desfeito. |
Historiadora
e ex-assessora do Codemphau diz que não houve interesse do poder
público na preservação
A historiadora
e ex-assessora do Codemphau, Sonia Fontoura, falou ao Revelação
na noite de 24 de abril, em sua casa. Assim como os quatro conselheiros
que renunciaram ao cargo dias depois da demolição, Sonia
decidiu se afastar no começo de 2003. Veja os trechos principais
da entrevista.
Revelação: Por que a casa caiu?
Sonia Fontoura: Porque não houve interesse do poder público
de mantê-la de pé. Em nenhum momento isso se manifestou.
Revelação: Mas a autorização da demolição
não foi uma decisão judicial?
Sonia: Sim, depois de uma sentença judicial. Mas as medidas que
teriam que ser tomadas não dependiam da sentença judicial.
O fato é que não existe uma política, realmente,
para a preservação do patrimônio histórico
da cidade. Não existia uma equipe de trabalho. O trabalho que
eu realizava, de coordenar a questão do patrimônio e preservação,
não dava, não saía do papel! Nós tínhamos
um monte de planos, projetos prontos de preservação, mas
nós não tínhamos equipe de trabalho especializada.
Demandaria, em primeiro lugar, um arquiteto. Eu sou historiadora. Tinha
o Augusto Rischiteli, que foi contratado depois que eu comecei a trabalhar,
e a Renata Bananal, que nos ajudava na parte administrativa. Mas não
existia uma equipe de trabalho voltada para o patrimônio. Era
um trabalho altamente desgastante, e eu sentia que o que nós
fazíamos por um lado, pelo outro era desfeito.
Revelação: O que foi desfeito?
Sonia: A casa não foi demolida? Nós fizemos o tombamento
através de um processo dificílimo! Aquele processo custou
a andar, foi um processo administrativo pesado. Você vê
pelo número de páginas. E, por outro lado, estava ocorrendo
um outro processo e foi facilitada essa demolição.
Revelação: Os conselheiros não poderiam substituir
a equipe técnica?
Sonia: Tínhamos o melhor conselho possível para Uberaba.
O arquiteto Marcondes fazia parte da equipe técnica, eu fazia
parte, mas há uma diferença entre um conselheiro, que
é um trabalho não-remunerado, fazer parte de uma equipe
técnica; e ter um arquiteto que trabalha com você todo
o tempo, que está disponível para aquele trabalho. Então
o Marcondes, o Dr. Alaor Ribeiro, o Dr. João DAmico tiveram
grande disponibilidade. Eles trabalharam realmente, duramente. Mas era
necessário mais. Porque não era só aquela casa
a ser tombada, tinha outras. E um trabalho de tombamento exige um estudo
histórico, uma justificativa e um estudo arquitetônico
se nós estamos falando de imóveis.
Revelação: Ninguém mais ajudava?
Sonia: Foi contratado o trabalho de um restaurador que nos ajudou
quando eu já estava saindo é que ele assinou o contrato;
eu estava tentando esse contrato desde junho de 2002, e ele foi ser
contratado em final de janeiro de 2003 para fazer um restauro
da cabeça daquela estátua que fica sobre a marquise do
prédio da Câmara Municipal, o levantamento dos bens móveis
da Câmara, e outros trabalhos [restauro do Cruzeiro do Cachimbo
e prospecção de cores do Mercado Municipal e do prédio
dos Correios]. Mas foi só. A igreja de São Domingos, que
nós tínhamos um estudo histórico pronto, a igreja
Metodista, pronto também os estudos para fazer os tombamentos,
nós não conseguimos, não foi contratado arquiteto.
Não é porque eu não me esforçasse. Agora,
não dava para o Marcondes fazer todo o trabalho. Ele não
estava sendo remunerado para isso. No entanto, ele fez muitos trabalhos.
Acompanhou os processos de restauro do prédio dos Correios, por
exemplo. Ele fez o estudo das plantas, do projeto, isso tudo foi feito
por ele. E muitas outras coisas.
Revelação: A senhora adoeceu depois da demolição
do palacete?
Sonia: Adoeci. Todos nós adoecemos. O Dr. Alaor, creio que também
outras pessoas. Você se envolve afetivamente com o trabalho e
dedica uma grande parte do seu tempo. E não é só
aquele tempo que você fica ali, parado, dentro da Fundação
Cultural. A gente pesquisa em casa, a gente lê, não é
só por causa do edifício do Pedro Naves, fizemos um seminário
no ano passado, e nós trabalhamos de uma maneira muito difícil,
não tinha recurso para o patrimônio. Então você
tem que solicitar o favor de um, solicitar um trabalho gratuito de outro,
e o trabalho de patrimônio histórico não é
um trabalho filantrópico, é um trabalho profissional,
que rende dividendos para a cidade, que pode render empregos. Ele é
um trabalho especializado e altamente profissional. Então eu
me dediquei bastante a esse trabalho. E essa casa isso foi registrado
em atas significou pra nós um peso, uma medida do trabalho
que nós poderíamos fazer. Porque nós pensávamos
assim: se essa casa for demolida, dificilmente nós seguramos
as outras. Se essa casa for preservada, facilmente vamos preservar as
outras. Então ela foi um modelo, nós nos dedicamos àquele
tombamento, porque ela era como um símbolo para o conselho. Daí
que todas as pessoas se envolveram afetivamente nesse trabalho, e saiu
aquele resultado
Eu não estava presente na cidade no dia que aconteceu a demolição,
e só fui tomar conhecimento quase que uma semana depois. Os conselheiros
que estavam presentes renunciaram com muita sabedoria, porque
foi uma renúncia didática, pedagógica e
eu só fui fazer isso depois, porque além de ser do Conselho,
eu era também assessora do patrimônio. Então não
poderia me afastar assim de qualquer maneira, eu tinha que deixar o
trabalho completo, fechar as portas, etc. [nota: os conselheiros que
renunciaram em protesto foram Alaor Ribeiro, Aparecido João DAmico,
Marcondes Nunes e maria Antonieta Borges Lopes]
Revelação: E agora?
Sonia: Agora fico sonhando que algum dia ainda possa fazer alguma coisa
pelo patrimônio, mas não fico omissa não. O restauro
da igreja Santa Rita ainda está em nossas mãos. Nós
conseguimos fazer o projeto junto com a projetista Marlene Maia. Eu
reuni os dados e conseguimos que a Casa do Artesão assumisse
porque não se capta recurso em instituição pública,
nós só podemos em instituição independente.
Mas eu vou continuar coordenando o projeto de restauro.
Revelação: Ainda é possível salvar o patrimônio
cultural de Uberaba?
Sonia: Eu tenho muita esperança, porque é um patrimônio
rico, ainda tem muita coisa. Mas existem muitas pessoas interessadas
em demolir, eu mesma já visitei uma casa que a intenção
do proprietário que adquiriu é demolir. Sem uma política
voltada para a preservação, vai ser impossível.
Mas eu acredito que ainda há possibilidade de haver esse interesse,
de desenvolver uma política.