ONGs
em prol de mudanças
|

Para o estudioso
Adrián Padilla, lei tem caráter emergencial de inclusão
social.
|
Ongs
relacionadas a questões raciais enriquecem o debate público
com novas pesquisas, estudos e abordagens.
André Azevedo
4 período jornalismo
Há alguns anos, ONGs e entidades de valorização
da cultura negra têm cobrado da sociedade uma revisão dessas
versões oficiais. Para elas, este é o primeiro passo para
corrigir injustiças históricas e promover políticas
de inclusão social. Em 1978, o Movimento Negro Unificado decidiu
instituir, em caráter extra-oficial, o 20 de novembro
data da morte de Zumbi como o Dia Nacional da Consciência
Negra. O objetivo declarado era contestar a comemoração
do 13 de maio, considerada por muitos quase uma ofensa. Nos últimos
anos, diversas ONGs relacionadas a ques-tões raciais foram criadas
para prestar assistência social e enriquecer o debate público
com novas pesquisas, estudos e abordagens.
A pressão dessas organizações tem surtido alguns
efeitos práticos. Uma lei recentemente promulgada pelo presidente
Luis Inácio Lula da Silva tornou obrigatório o ensino
de "História e Cultura Afro-Brasileira" nas escolas
do país. As disciplinas devem incluir o estudo de História
da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura
negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional.
O objetivo é resgatar a contribuição do povo negro
nas áreas social, econômica e política da História
do Brasil. A lei ainda estabelece que os conteúdos devem ser
ministrados em todo o currículo escolar, "em especial nas
áreas de Educação Artística e de Literatura
e História Brasileiras". Além disso, a lei institui
ainda vinte e cinco anos depois de instituída pelo movimento
negro a inclusão do Dia Nacional da Consciência
Negra no calendário escolar.
Para o Doutor em Ciências da Comunicação e estudioso
de movimentos sociais, o venezuelano Adrián Padilla, essas medidas,
juntamente com outras mais polêmicas como a instituição
de cotas reservadas para negros em universidades pú-blicas
funcionam como uma forma de pagamento da dívida social que o
Brasil deveria assumir com os descendentes de escravos, devido aos séculos
de usurpação e violência. "Evidentemente, uma
lei não é capaz de resolver um problema social tão
complexo, que envolve desde o acesso à educação
fundamental até a distribuição de renda. Mas essa
medida, em caráter provisório, pode ser um instrumento
emergencial de inclusão", afirma.
No entanto, mesmo entre as pessoas supostamente beneficiadas
os descendentes de escravos a lei não é consenso.
A estudante do curso de Letras na Universidade de Uberaba, Mariana Costa,
21 anos, considera a lei "desnecessária". Para ela,
essa cultura deve ser debatida e im-plantada gradualmente, de acordo
com a evolução das discussões na sociedade. "Os
grupos de hip-hop, por exemplo, já incluem esses temas em suas
músicas". Apesar de também concordar que a História
nos livros está mal contada, Mariana não acredita que
a solução esteja na imposição de leis. Segundo
a estudante, isso pode levar a mais divisão, discriminação,
preconceito e racismo. "Vivemos em um país racista, de um
racismo camuflado. Temos é que quebrar paradigmas, acabar com
essa idéia de que o branco deve ser sempre o líder, enquanto
os negros são uns coi-tados que dependem da caridade, da esmola
dos brancos."
De modo geral, Mariana Costa, bisneta de um português e de uma
mucama (escrava que cuidava da casa e costumeira-mente servia de amante
aos proprietários) não é simpática à
idéia de rotular as pessoas por suas características étnicas.
"Não gosto dessas coisas que vêm entre parênteses
afro. Acho essas coisas dispensáveis. Você
é brasileiro, e não afro. Eu sou modelo, e
não afro-modelo. Essa separação também
é uma forma de gerar racismo".