"Que Deus te persiga, aonde você estiver!"



Celso Almeida na loja de ouriveraria

Espírita relata sua vivência na doutrina de Chico Xavier

Karla Marília Meneses
6o período de Jornalismo

Um homem de cabelos brancos trabalha silenciosamente, com notável habilidade. As mãos, calejadas pelos metais que manuseia, puxam uma cadeira para que eu sente ao seu lado. Os gestos são lentos, porém os olhos são vivos e atentos. Celso de Almeida Afonso, 62 anos, nasceu em Araxá. Espírita, exerce a função de ourives em Uberaba. Nos mo-mentos de folga, freqüenta o Centro Aurélio Agostinho, onde há mais de quarenta anos pratica a mediunidade.

A mãe de Celso, espírita convicta e praticante, levava o filho às reuniões. Na ocasião, muito jovem, Celso participava atentamente, sem compreender muito a doutrina. Algum tempo depois, o menino de 14 anos, viu nitidamente o pai em seu quarto. Detalhe: havia falecido há mais de dois anos. "Foi terrível, inexplicável. Ainda hoje não consigo descrever o que senti ao ver um espírito assim, na minha frente. Fiquei tão assustado que a voz não saía da garganta", diz num tom sério. A partir daí, o menino só dormiu com a luz do quarto acesa. Foi acometido de um pavor incontrolável contra tudo que se referisse ao Espiritismo, abandonando as reuniões que freqüentava com a mãe.

Aos dezesseis anos, morando em São Paulo, Celso foi a Sacramento visitar uma tia. A cidade estava em polvorosa. Todos falavam do homem que psicografava e trazia mensagens dos espíritos. Era Chico Xavier. Naturalmente, todos os espíritas iriam vê-lo e Celso, mesmo com medo, decidiu comparecer ao evento. Vendo o tumulto e o número considerável de pessoas, afastou-se rapidamente. "Foi quan-do uma senhora pediu: Chico, autografa esse livro pra mim. Chico olhou em minha direção e disse: Só se o Celso me emprestar a caneta que ele tem no bolso. Lembro dessa cena como se fosse hoje, agora. Foi indescritível!", o espírita conta visivelmente emocionado. Chico Xavier aproximou-se de Celso e o apresentou para a comitiva que o acompanhava: – Esse rapaz vai trabalhar conosco em Uberaba.

Não querendo retrucar, Celso nada disse. Mas sabia que seria quase impossível trabalhar com Chico Xavier. A família era de Araxá, morava em São Paulo e não conhecia ninguém de Uberaba; aliás nunca nem tinha ido lá. " Só prá ver como é a vida: voltei para São Paulo, minha mãe ficou muito doente. O clima da cidade fazia muito mal para ela. Minha irmã casou e foi morar em Uberaba. Por causa da doença da minha mãe mudamos prá casa da minha irmã. Em apenas dois anos a previsão se cumpriu!", Celso garante.

Iniciação

Iniciando sua caminhada no Espiritismo, Celso participava das reuniões, eventos e doações. Seu cotidiano exigia mais responsabilidades, estava comprometido com a doutrina. Certo dia, em casa, assistindo uma partida de futebol na TV, ouviu baterem na porta. Levantou-se do sofá e abriu: " Era uma mulher. Emudeci, parecia que eu estava pregado no chão. Era um espírito que vagava. Num susto, bati a porta violentamente", o espírita diz, hoje sorrindo do ocorrido. Garante que, curioso, voltou a abrir a porta e a mulher já estava indo embora. Ela olhou para trás e disse: Tá com medo de mim, né Celso?

Aos 23 anos, fez sua primeira psicografia, porém não aceitava essa faculdade mediúnica. Psicografava apenas na presença de um reduzido número de pessoas. Tinha receio de ser chamado de charlatão, ser julgado pelas pessoas. Para ele, era difícil largar sua casa, a família e sentar numa mesa para psicografar na frente de uma enorme quantidade de pessoas. Certo dia, Chico Xavier o procurou e fez a inevitável pergunta: " Quando começa a psicografar ?". Celso, meio constrangido, alegou não ter capacidade para se expôr. Alguns iriam julgá-lo impostor. Chico o observou em silêncio por alguns instantes e disse: "Então você é melhor que Jesus. Ele foi julgado! Ora, Celso, se te chamarem de impostor você sabe que não é, e se te chamarem de santo, você também sabe que não é.. E mais: julgado, todos os dias nós somos: em casa, na rua, no emprego... O que importa é o trabalho a fazer."

Diante dessa "intimada", Celso começou efetivamente a psicografar perante o povo nas reuniões espíritas. E numa dessas reuniões, um homem atrapalhava a passagem das pessoas até a mesa da psico-grafia. Perguntou aos presentes quem era o desconhecido e ninguém soube responder. O estranho se aproximou do espírita e o tranquilizou: " Calma, vou te dar um passe." Depois de alguns dias, na casa de um amigo, Celso reconheceu o homem através de uma fotografia. Segundo ele, era o Dr. Henrique Krüeger, já falecido.

Mas o espírita gosta mesmo é de receber a carta de um ente desencarnado e transmití-la para a família. Já apaziguou muitas mães desesperadas. O que pede em troca ao passar as mensagens? "Apenas que essas mães rezem por mim... enquanto minhas orações chegam só até esse telhado aqui, a prece de mãe arromba a porta do céu!", afirma às garga-lhadas. Diz que oramos por três motivos: pedir, louvar e agradecer. Po-rém, pouco louvamos, pouco agradecemos e pedimos sem parar.

Celso recebeu várias mensagens de espíritos ilustres, entre eles Clara Nunes, Altemar Dutra, o piloto do helicóptero acidentado de Ulisses Guimarães e Mamonas. Psicografando livros, escreveu Fonte Fraterna, com mensagens de otimismo. Concedeu entrevistas ao Globo Repórter, Fantástico e revista IstoÉ. Atualmente, saiu na última edição da revista SuperInteressante. Não lhe agrada muito a notoriedade. Relata que a mídia enfatiza muito as mensagens de celebridades falecidas. O que realmente importa é a caridade no dia - à - dia. Avisa que caridade não é apenas dar um pão a um necessitado. É perdão e paciência com quem convive e está ao seu lado. Sorrindo, Celso finaliza a entrevista: " Como diz um amigo meu: menina, que Deus te persiga!"

 

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