Dois
séculos de sonhos
Projetos
para a construção da nova capital no Planalto Central
são esboçados desde o período colonial
André Azevedo
da Fonseca
4 período de Jornalismo
A idéia de
construir Brasília não surgiu de repente. Desde o século
XVIII, sonhos e projetos já povoavam o imaginário político
ao vislumbrar a possibilidade de a capital do Brasil ser transferida
para o interior.
De acordo com pesquisa de Antônio Menezes Júnior, Marta
Sinoti e Regina Fernandes Saraiva, publicada em "Olhares Sobre
o Lago Paranoá" (www.semarh.df.gov.br/site), em 1750, quando
o Brasil era ainda colônia de Portugal, o cartógrafo genovês
Francisco Tossi Colombina elaborou a Carta de Goiás e sugeria
a mudança da capital do país para essa região.
Há também registros atribuídos a Marquês
de Pombal, afirmando que o estadista português já sonhava
com a mudança da sede de governo para o vale do Amazonas, transformando
o Rio de Janeiro, sede do governo naquela época, em capital provisória.
Os inconfidentes também demonstravam esse desejo. Em 1789 eles
fizeram constar em seu programa a transferência da Capital Federal
para São João Del Rei para eles, o local que apresentava
as melhores condições para abrigar o centro do governo,
por causa de sua privilegiada localização geográfica
e pela fartura de mantimentos.
No começo do século XIX, o jornalista Hipólito
José Costa, através do Correio Braziliense, instigou uma
forte campanha em defesa da transferência da capital. O jornalista
indicava um ponto ideal, na zona dos mananciais dos rios Araguaia, Tocantins,
São Francisco e Paraná ou seja, justamente sobre
o Planalto Central brasileiro. José Bonifácio, registrado
na história como o "patriarca da independência",
também foi um fervoroso partidário da substituição
da capital. Ele vislumbrava a mudança para a cidade de Paracatu,
no planalto mineiro, e propunha até mesmo o novo nome: Petrópole
ou Brasília.
As qualidades ambientais e as riquezas naturais dessas regiões
eram sempre citadas como um dos principais argumentos para a transferência.
A outra justificativa era relacionada às questões estratégicas
de segurança: um centro político localizado no interior
seria menos vulnerável a ataques de conquistadores.
Com a Proclamação da República, em 1889, essa preocupação
foi materializada na Constituição, que estabeleceu à
União a propriedade de uma zona de 14.400 km2 no Planalto Central,
que seria oportunamente demarcada para o estabelecimento de uma futura
sede de governo.
Em 1892, para cumprir a Constituição, Floriano Peixoto
nomeou a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil,
cujo objetivo era iniciar de fato a demarcação do Distrito
Federal. Foi a primeira iniciativa oficial do governo brasileiro para
concretizar a mudança da capital. Essa comitiva ficou conhecida
por Missão Cruls.
Mapa nas estrelas
Luiz Cruls era um notável astrônomo belga, diretor do Observatório
Astronômico do Rio de Janeiro. Para cumprir a determinação
de Flo-riano Peixoto, Cruls organizou uma equipe de 21 pesquisadores,
entre geólogos, geógrafos, botânicos, naturalistas,
engenheiros, médicos e higienistas, que seguiram a Ferrovia Mogiana,
do Rio de Janeiro a Uberaba, e depois rumaram ao Planalto Central, percorrendo
um total de 4 mil quilômetros.
Mas partir de certo momento, surgiu um grande problema de localização
geográfica. Não havia quaisquer pontos de referência
para prosseguir a viagem rumo ao interior. No entanto, para um astrônomo
experiente, não foi difícil se guiar através de
um mapa detalhado sobre os olhos: as estrelas. Assim, para se orientar
na imensidão do território Brasil Central, Cruls calculava
a posição das constelações e analisava,
toda noite, o rumo a ser tomado. E dessa forma chegaram lá. A
missão Cruls identificou a zona pré-definida pela Constituição,
demarcando a área de 14.400 Km2. A partir dessa empreitada foi
desenhado, pela primeira vez no mapa do Brasil, o "quadrilátero
Cruls", criando oficialmente a expressão "Distrito
Federal".
A comitiva realizou estudos científicos até então
inéditos na região, mapeando aspectos climáticos
e topográficos, além de estudar a fauna, a flora e os
cursos dágua do trajeto, o modo de vida dos habitantes,
os aspectos urbanos e arquitetônicos das cidades pelo caminho,
além das doenças mais comuns. Em junho de 1894, após
os resultados obtidos pela comissão, Luiz Cruls foi nomeado presidente
da Comissão de Estudos da Nova Capital da União. Assim,
com a incumbência de escolher o local definitivo para a edificação
do novo centro político, realizou uma segunda missão com
estudos mais detalhados, centrados no quadrilátero.
Quando Floriano Peixoto deixou a presidência, as medidas efetivas
da troca da capital foram paralisadas. Os estudos só foram reativados
em 1946, quando o presidente Gaspar Dutra nomeou Djalma Poli Coelho
como o chefe da Comissão Técnica de Estudos de Localização
da Nova Capital. Mas ainda assim, sem nenhuma medida prática.
Em 1952 o Congresso aprovou a lei que determinava estudos conclusivos
para a edificação da capital. Novos estudos realizados
por Donald Belcher foram concluídos em 1955. Neste ano, o presidente
Café Filho aprovou a área, mas foi somente em 1956, no
governo de Juscelino Kubitschek, que a construção passou
a ser materializada. O presidente definiu inclusive a data prevista
de inauguração 21 de abril de 1960. Depois de uma
aventura extraordinária da engenharia e da arquitetura, na data
exata estabelecida por JK, a Brasília sonhada por dois séculos,
cuja área fora demarcada há 70 anos, foi finalmente inaugurada
e reconhecida como a capital do país.