Anjos não existem





Mariana Costa
2 ano de Letras


Lágrimas surgem nos meus olhos, escorrem duras e quentes, arrebentadas, doídas de um coração ferido. Já fazia muitos anos que eu não chorava, a ultima vez foi quando meu pai se foi.E exatamente por ser tão dura tinha gente pra dizer que eu havia nascido com casca, que eu (pobre de mim) tinha alma de pedra.

Na minha infância, ainda dona de meus três ou quatro anos, de-bulhava em la-grimas, meu pai me pegava em seus braços e me colocava de frente a algum espelho, abria um sorriso e dizia que era melhor que eu me calasse, que eu não mais chorasse, que eu estava feia porque meu rosto inchava e me deformava e imediatamente eu me calava.

O tempo passou, meu pai se foi e eu nunca mais derramei gota de lagrima, passei a ser forte e adulta aos 10 anos e por muitas vezes minha mãe enfrentava verdadeiras guerras de fogo em seu trabalho para sustentar os filhos, não sei por quantas vezes ela deve ter cozinhado pros ricos se lembrando que em sua casa não havia grão, essa era a nossa vida. Uma vida seca.

Quem não teme, vence. Nós vencemos as maiores faltas e por conseqüência ganhamos sentimentos um tanto quanto indesejáveis, numa tarde quente conheci um menino de cinco anos, Rafael, nós di-zíamos Rafaelzinho, um menino também sofrido, o pai espan-cava a mãe e a eles, quando a mãe faleceu Rafaelzinho foi sepa-rado das irmãs e "colocado" para adoção, o pai estava preso. Posso me lembrar que Rafaelzinho que também não sabia chorar me ensinou a sorrir, sempre que ele se aproximava de mim, sentia minhas pedras se romperem, essa era a maneira dele me ensinar a tentar ser feliz.

Junto a suas irmãs, ele foi adotado por uma família francesa e eu continuava com minhas amarras no coração e barreiras na alma. Sabe o poema do "gauche"? Sempre fui um deles, alguém perdido entre os próprios pensamentos, nascida na sombra e amparada por um anjo torto. Eu também já amei e por isso não poderia ser feliz, amei a quem nunca me amou, fui a parte desprezada e como todo idiota acreditei jamais me envolver novamente com ninguém e lógico, não foi isso que aconteceu.

Sonhos vermelhos, nunca gostei deles e por um mês eu apenas sonhava com sangue e agua, pesadelos, um péssimo sinal e foi aí quando eu já não mais distinguia os sonhos da realidade surgiu em minha vida um outro Rafael, meu anjo com nome do meu pequeno anjo francês.

Rafael; Rafael me fazia sorrir, acabou com todos os meus pesadelos, devolveu minha sensibilidade e mesmo sendo ele impaciente eu aprendia a exercer esse dom e acima de tudo me ensinou a me apaixonar. Estranho era amar alguém aquém nunca se viu, mas e daí? Rafael quebrou minhas barreiras, cortou minhas amarras e me desarmou completamente.

Quanto tempo pode durar a felicidade? Não sei. A minha durou um mês exato, durou até que eu descobrisse que anjos não existem, não pra mim que por algum motivo perdi os meus. Rafael eu conheci em duas tardes quente e me apaixonei por varias noites em vários dias, segurei enquanto pude, mas a areia escorre é pelos dedos e dá mesma forma que ele apareceu, ele desapareceu e foi aqui que depois de tantos anos que eu (re)aprendi a chorar, a lavar o coração e a me entregar ao sentimento.

Rafael você me devolveu à meu passado.

 

Caderno Literário

 


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