Um Allegro...

Reprodução

Noite - óleo de Simie Maryles

Luís Flávio Assis Moura
2 período de Jornalismo


(....)olho para os corvos que não existem sobrevoando minha varanda, é uma escuridão enlouquecedora. Isso em plena tarde. E está chegando o inverno, é uma estação tão estranha o inverno. Vivo todos os dias esperando pelo frio de junho, junho que amo tanto por representar um intermezzo delicado. É uma estação de allegros e minuetos, apesar da melancolia do frio. Então, eu mesmo irei arriscar um allegro, não um allegro demasiadamente colorido, mas algo mais tranqüilo – um allegro sem allegro, uma melodia cantabile, sem um esplendor colorido, mas uma melancolia agradável. Começa assim: as pessoas se olham na rua e estou andando tranqüilamente, sem lágrimas e há um vento que corta meu rosto com tanta educação, tanta polidez que eu sinto vontade de agradecer – é tão belo ver o bom grado da ação mais sutil de um fragmento da natureza, que se distancia de nós por nossa própria escolha. A menina nasce chorando pela dor de seus pulmões, chora de fome e a mãe só faz amamentá-la com avidez, dando-se o próprio dever que substitui a placenta em sua consistência de leve colosso – o leite é algo tão denso. Enquanto isso, outras crianças nascem, da mesma forma, famintas, doridas e dotadas de seu único instrumento de existência: o estertor.

E algumas delas estão em latas de lixo, outras já nem têm mais como chorar, porque estão mortas de fome, o sangue já não tem mais a força de pulsar com o mundo, e uma pequena linha da teia sedosa da vida se desfaz com a tênue graça de uma estrela que descansa um exato instante-já após sua supernova. É um destino trágico, mas nada posso fazer: somente esboço um melancólico allegro que trai a natureza da música.

E as mães que não têm como dar a vida aos filhos cantam, sob a água salgada e corpórea que embebe seus rostos marcados a ferro com a culpa de um crime do qual elas não tiveram nenhuma culpa – a vida não pode ser justa, e a existência é feita dos sobreviventes e dos preteridos. Desígnio perverso do Deus, mas ele sabe o que faz. E eu? Nada posso fazer – mas é o allegro que as mães cantam, buscando a salvação beatífica. Allegro em forma de cantilena.

E os olhos frios e azulados da vida noturna e as pequenas gaivotas que se amealham em volta dos céus de um azulado purpúreo, está tudo em volta de um simples momento, e as crianças que recebem o leite can-tam com seu corpo por ser descoberto a mesma melodia que as mães africanas reverberam, e o ribombo dos tam-bores que toca. A placenta une o sofri-mento, mas até isso é um sorriso, existir é algo que ultrapassa a compreensão para ser somente um ritual maravilhoso e infinito. O viver é.

As crianças, as crianças que existem, com ou sem placenta, elas estão, estão, e aqueles que vêem as notas com dó e piedade de si, além do lá que abriga as crianças esquecidas no sol. E o piano toca, toca as notas todas, a menina que canta como a ré que espera sua condenação em uma alegria melancólica por estar viva – um assobio, um pequeno estalar da língua que gera a canção. Eis que a canção é tudo – o que existe em volta dela é sim-plesmente a vida. O reverberar dos sons, a música com o sabor uno da vida, e ela continua, con-tinua e continua.

Acabou. Terminei este allegro. Coisa simples, allegro sem allegro, sem a música, só a incompreensão das palavras de câmara – isto que te escrevo é música sem música, é a melodia que não existe mas é ouvida quando não há sons – mas ainda é allegro, porque é uma espécie de felicidade desmaiada, a alegria que precede a dor abundante e esplendorosa do existir. Estou em paz agora. E se terminei o allegro, a música continua. Porque ela nunca começou, e nunca vai acabar. Somente continua, continua, continua. Assim como eu. E como tu. Sempre existirá o és-tu. Até depois da morte. Porque viver é sempre morrer, e a morte é a vida que volta todos os dias depois da escuridão. A escuridão que tanto me fascina.

*Trecho retirado de um "romance" escrito por mim há um ano. Aos que me leram durante este período, dedico este texto a vós. Dedico este texto também – e especialmente – a Maria Auxiliadora Gontijo, a Dôra, uma das professoras mais importantes que já tive em minha vida. Minha gratidão, respeito e admiração são pouco para fazer jus à sua riqueza de espírito.

 

Caderno Literário


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