O
taxímetro
do prazer
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André
Azevedo da Fonseca

"Quem diria, eu, pé rapado, papaei a madame do bacana!"
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Caetano,
taxista: devorador ou devorado? Episódio de novela deixa implícita
a luta político-sexual em que se envereda a nova mulher
André
Azevedo da Fonseca
O episódio a seguir aconteceu em algumas cenas da telenovela
Mulheres Apaixonadas, de autoria de Manoel Carlos, exibida pela TV Globo.
Vale à pena uma breve reflexão sobre esse caso, pois ele
diz alguma coisa sobre a luta político-sexual em que se envereda
a nova mulher.
Caetano é um típico motorista de taxi moreno, queixo
quadrado, falador, camisa aberta, cheirando a suor e cigarro
casado com uma dedicada e maternal secretária de escola, Rosinha.
Evidentemente, como é de se esperar de um personagem com este
perfil, eis que o varonil garanhão não se contenta com
o arroz-feijão de seu lar e arruma uma namoradinha extra para
praticar com ela todas as safadezas que sua moral não permite
fazer com a mulher afinal, a cândida Rosinha é mãe
de seu filho, quase santa. Deve ser até pecado fazer certas coisas.
A namoradinha, uma dedicada (e lindinha) empregada doméstica,
não sabe que Caetano é casado. Ela trabalha na casa de
Sílvia, uma dessas grã-finas que, entediadas com o pífio
desempenho sexual e afetivo do marido, esbanjam a vida buscando outras
formas de distração shopping, cabeleireiro, etc.
Vamos espiar a doméstica pelo buraco da fechadura: Uau! E não
é que, por baixo daquela prudência servil de assalariada,
a morena fogosa é dessas que acendem labaredas de lascívia,
capazes de ferver até à ebulição os fluidos
de Caetano, o penetrador? Esses taxistas são demais mesmo! Tudo
que um machão quer da vida: de um lado a mãe de seus filhos,
e do outro uma namorada ingênua e gostosa.
Mas, voltemos algumas linhas
grã-fina entediada com o marido?
Essa mulher é a síntese da dialética entre caça
e caçadora, quer abater e ser abatida, devorar e ser devorada,
urgentemente! Só de olhar para a cara dela, qualquer telespectador
com pouca imaginação é capaz de imaginar as mil
e uma sem-vergonhices que estremecem suas virilhas e sobem pelo corpo
em arrepios desencadeando inconfessáveis fantasias eróticas
com trabalhadores másculos, morenos, queixos quadrados, faladores,
camisas abertas, cheirando à suor e cigarro
Só os
bons modos seguravam a libido dessa mulher. Ela é pura potência
erótica! A menor faísca de ignição seria
capaz de detonar uma verdadeira erupção do motor de sua
lascívia, levando o taxímetro de quem a conduzisse pelas
avenidas do prazer a ultrapassar todos os dígitos da devassidão
do orgasmo pleno e total!
Corta a cena. Esqueçamos as outras duas, porque a madame tem
algo importante a dizer. Vamos ao que interessa.
Na caixa de som do motel vagabundo, La vie en rose: clássico
da música popular francesa, mas em uma versão meio bossa
nova e cantada em inglês por algum devoto de Frank Sinatra (tipo
de versão que só aparece mesmo em trilha de novela ou
naquelas seleções fajutas de as melhores músicas
do século vendidas em conjuntos de CDs através de
telemarketing.) "Vem, gostoso, vem me fazer ver estrela",
diz a grã-fina Sílvia, peladona, mergulhada numa banheira
de espumas, para o erétil taxista um desfecho óbvio
da química da sedução (tele)folhetinesca que deveria
desembocar inevitavelmente no quatrilátero amoroso taxista-secretária-doméstica-grã-fina.
"Se os homens fizessem com as esposas o que fazem com as amantes,
não iam ter tanto chifre", diz Sílvia, a messalina;
no que Caetano, o erótico, responde com uma careta de reprovação.
Assim, a frívola madame realiza um verdadeiro exame de toque
retal em dois dos tabus ainda firmes no estereótipo do macho
latino-americano: a idéia da "esposa imaculada" e o
mito do "direito exlusivamente masculino ao orgasmo". Primeiro,
põe uma pulga atrás da orelha do sequioso taxista: será
que a sua esposa, mal-amada como eu, é assim tão virtuosa
quanto meu marido está certa que sou?, diz sem dizer ao taxista
que finge não entender direito. Se consideramos a transa de Sílvia
e Caetano como um ato político, a primeira leitura, fundamentada
naquele mito, levaria à conclusão precipitada de que o
que ocorreu foi uma espécie de "revanche" ou "vingança"
da classe trabalhadora que, através de um representante, levou
a melhor sobre o patrão porque transou com sua mulher e meteu
no capitalista-explorador-da-força-de-trabalho um vistoso par
de chifres humilhação suprema em uma cultura que
preza, acima de tudo, a honra do varão.
Assim, o trunfo de Caetano, o guloso, não é sexual
para saciar seus instintos, além de já ter garantidas
as rotinas conjugais da esposa, contava ainda com os encantos extras
e sempre disponíveis da namoradinha. Seu trunfo é sócio-político:
quem diria, eu, pé-rapado, papei a madame do bacana!
No entanto, essa leitura se mostra defasada quando consideramos as transformações
nas relações sociais entre os gêneros. A cultura
do ardente amante latino-americano, vista através da ótica
masculina, é fundamentada na idéia de que o penetrador
(o homem) é o verdadeiro é único possuidor do objeto
sexual (a mulher) e, portanto, o legítimo detentor do usufruto
das delícias do sexo.
A mulher é sempre compreendida como pouco mais que uma serva
que conclui seu papel com o orgasmo do macho. As únicas damas
com direito a manifestar (e supostamente obter) prazer eram as prostitutas.
Mesmo assim, analisando com mais cuidado, esse prazer na verdade também
era tido como duvidoso, pois o comum era atribuir a elas o fingimento
do orgasmo através de gemidos exagerados, ou então
certo gozo masoquista de mulher que gosta de ser machucada, ou mesmo
de apanhar tudo em nome da satisfação do garanhão.
Mas Sílvia, a dissoluta, ao mesmo tempo em que era usada, usava;
ao mesmo tempo em que era engolida, engolia.
Em sua ótica, era ela quem devorava o amante e realizava suas
fantasias sexuais. Assim, é possível elaborar uma segunda
leitura: quem comandava, quem conduzia, quem usufruía de verdade
as delícias do amor faça isso, faça aquilo,
venha cá, quero mais confirmando a relação
de dominação entre classes, era a grã-fina. Tudo
aquilo, para ela, era exótico, uma novidade infinitamente deliciosa,
uma transgressão que inspirava profundo senso de aventura e prazer
eu, uma mulher fina, no motel com um taxista ralé? Inadmissível,
impensável, só se estivesse doida varrida.
Foi um bom negócio: o prazer que recebia era estratosfericamente
maior do que o prazer que ofertava. O taxista era um instrumento, um
equipamento, um mero motorista sexual. É claro que ele gozava,
mas uma gota em comparação à cachoeira orgástica
da grã-fina; um tostão em relação a fortuna
de prazer da madame alegre; uma migalha de seu banquete; uma moedinha
nos lábios de seu caça-níquel.
Assim, inverte-se a situação e sobra para o garanhão
o papel de coadjuvante, de um esforçado operário que tem
o dever de, nas horas extras, executar mais um dos serviços que
deveriam ser de incumbência do patrão: saciar a concupiscência
da mulher, preencher seu tédio, distraí-la com uma atividade
esportiva qualquer, cumprir os caprichos da patroa. Dessa forma, a figura
da esposa fina e imaculada transforma-se em mulher destemida e desavergonhada,
uma "caçadora de prazer", exigindo que Príapo
se esforce em mil acrobacias eróticas para garantir a manutenção
das labaredas da insaciável alazã.
A revanche, portanto, é dela. E assim, parece susurrar aos telespectadores:
E agora machões? Digam aí quem é que come quem?
Resta ver como as coisas vão se resolver nos próximos
capítulos.