Tempo de Criança

Erileine Faria Rodrigues
1 período de Jornalismo


Eu estava em meu serviço justamente pensando no exercício de observar e descrever alguém que eu tinha para fazer, quando entra na loja um garoto de aparentemente uns 12 anos, com cabelos de cachos dourados, olhos grandes, arredondados, com um sorriso meigo, mas um semblante tristonho, vestido de forma muito simples com um short de um verde já desbotado e uma camiseta que parece ter sido ganhada de alguém, pois é bem maior que o tamanho que ele deveria estar usando.

Entra e me pergunta se eu tenho papelão, alumínio ou garrafas plásticas que eu possa dar-lhe, digo que não tenho mas que vou juntar e assim fica combinado que ele voltará para buscar, me agradecendo o garotinho sai carregando um carrinho onde está depositado os objetos arrecadados, que está aparentemente pesado para uma criança como ele.

Sinto uma mis-tura de compaixão, carinho, tristeza e revolta por imaginar que naquele mesmo momento, diversas crianças estão descansando ou até mesmo brincando depois de terem chegado da escola e almoçado, enquanto ele está andando sob um sol escaldante, trabalhando para ajudar sua família.

Uma criança como tantas outras que infelizmente possui uma responsabilidade de adulto, que troca horas de lazer por um trabalho cansativo como aquele.
Fico ansiosa para o ver novamente, não só porque o escolhi para fazer meu exercício, mas sim por querer observá-lo mais, tentar através do olhar compreender o que ele pensa, sente e quem sabe poder conversar com ele e até fazer amizade.

Ao final da tarde, ele passa novamente em frente à loja, mas desta vez não pára, deve estar voltando para casa. Agora com o carrinho repleto de caixas de papelão, garrafas e outras coisas que não consigo identificar devido a minha posição.
Nos dias que se seguem ele passa em frente ao meu serviço, sempre no mesmo horário. Dá uma discreta olhada lá para dentro e pergunta se já tem papelão.

Eu digo que não ele se vai rapidamente com um olhar tristonho, continua andando parando de vez em vez com a esperança de conseguir arrecadar um bom montante para vender. Em todos esses dias ele estava com o mesmo short, só mudando a camiseta, um chinelo havaiana já bem velho com um jeito de que pode arre-bentar a qualquer momento.

Uma semana se passou e eu consegui juntar uma boa quantidade de pa-pelão, alumínio e umas roupas do meu irmão que não estavam sendo usadas para dar ao garoto. Fico ansiosa por chegar o momento de lhe entregar. Ele vem andando e antes mesmo dele perguntar se tem papelão, como sempre, eu o chamo para entrar na loja. Apesar de enver-gonhado ele se aproxima, eu pergunto o seu nome e ele diz em um tom muito baixo como se não quisesse que eu entendesse que se chama Marcelo.

Digo que é um nome muito bonito e ele rapidamente me corta e pergunta se tem papelão _ pois ele não pode ficar ali parado perdendo tempo.
Eu entrego para ele tudo o que eu juntei e no seu rostinho antes preocupado surge um sorriso de agradecimento como se aqueles objetos usados fossem um presente precioso.

Apesar de vê-lo feliz não consigo me alegrar completamente, pois sei que a ajuda que eu lhe dei, proporcionou-lhe uma felicidade momentânea. Afinal o pouco que eu fiz para ajudá-lo não é suficiente para fazer dele uma criança como muitas outras que estão desfrutando sua infância, ele continuará trabalhando, sofrendo e tendo em seu rosto marcas de cansaço e de preocupações como as de um adulto.

Sei também que não posso desistir, pois às vezes esta felicidade que eu digo ser momentânea para o Marcelo pode ser muito especial, e acredito que se cada um fizer um pouquinho não só por ele, mas por todas as crianças carentes, as suas condições de vida podem melhorar e elas possam viver realmente o seu tempo de criança.

 

 

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