Crônica
Metamorfoses do cofrinho
|

|
Fernando
Machado
7 período de Jornalismo
Uma vez, quando era criança, eu e os amigos que jogavam bola
no nosso bairro vimos um senhor trabalhando a terra de um terreno baldio.
Concentrado no que fazia, sob um sol escaldante, o homem capinava e
não percebia que quase a totalidade de suas nádegas estava
de fora. Caímos todos na risada e fomos embora. Embora aquilo
fosse grotesco, tinha um lado cômico. Algum tempo depois, este
mesmo senhor virou vendedor de picolés no bairro e todos os dias
passava em frente à minha casa. Buzinando, gritando picolé,
olha o picolé e com o ignóbil reguinho, que é como
falávamos, cintilando sob o sol.
Depois, fui perce-bendo que deixar as calças ou as bermudas abaixo
da cintura era mais do que uma simples distração ou técnica
para aliviar o calor. O perfil dos adeptos revelava se tratar de um
estilo de vida: quase sempre homens casados, muitos deles aposentados,
velhos bonachões sem nenhuma preocupação com a
aparência. Passeavam de bicicleta e andavam nas calçadas
arrastando seus chinelos como se levassem atrás de si um símbolo
de despreocupação e liberdade. Talvez fosse uma forma
inconsciente de dizer que não davam a mínima para nada.
O tempo não parou e, tanto no primeiro, quanto no segundo grau,
um cofrinho de fora não deixou de ser motivo de gozação.
A coisa só mudou um pouco quando os skatistas também resolveram
deixar as bermudas bastante baixas, mas, ao invés do cóccix
nu, mostravam as cuecas. Menos mal. O chato é que a moda não
pegava com as garotas. Era bastante raro ver uma com o mucumbu, osso-do-pai-joão
ou uropígio (segundo o Aurélio), um pouco mais em evidência.
Se isso ocorria, algumas cutucadas entre os meninos alertavam para a
novidade. As garotas ficavam constrangidas e se ajeitavam quando percebiam
a verdade dos fatos.
Agora, na universidade, me dou conta da revolução que
tudo isso sofreu. Com o uso quase que exclu-sivo de calças baixas,
as chamadas saint-tropez, as garotas revelam muito de si ao se sentar.
Meus conceitos sobre a questão sofreram reformulações
radicais desde a primeira visão do picolezeiro e dos aposentados
do meu bairro, até o testemunho pessoal da adoção
desse estilo pelas mulheres em geral, e pelas universitárias
em particular. Formoso e delicado, abismal e cavernoso, gordo ou magro,
o fato é que qualquer cofrinho guarda em si um fabuloso senso
de liberdade,
de despreocupação e de paz. Por isso é uma conquista
da mulher.
Cada vez mais, de forma sublime, as mulheres vão perdendo o medo
de deixar à vista, aqui e ali, calcinhas brancas de rendinha,
de lacinho e com desenho de bichinhos ou até cuecas, conforme
já presenciei. Confesso que diversas vezes me sinto tentado a
depositar ali uma moedinha ou, quem sabe, lançar uma campanha,
fundar um partido, criar uma ONG. Mas, quer saber o melhor? Elas não
estão nem aí.