Só
Chicago?

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Fernando Machado
6 período de Jornalismo
No musical Chicago, Velma Kelly e Roxie Hart estão presas por
terem, cada uma, matado um homem. A primeira é uma famosa cantora
e dançarina e a segunda, mesmo sem muito talento, sonha com o
estrelato. Uma quer a liberdade e manter a fama, e a outra, a liberdade
e construir a fama. Para conseguir o que querem, dão tudo o que
têm para um advogado astuto que, manipulando os jornalistas como
se fossem suas marionetes, leva suas vedetes para as capas dos jornais.
É ele quem arma o circo da imprensa, quem cria as "notícias
quentes". As manchetes falsas e sensacionalistas dos tablóides,
somadas às dramatizações sentimentalistas nos tribunais,
acabam tirando as vigaristas da cadeia e as levando para os palcos da
Chicago de 1930. A dupla de assassinas arrasta multidões para
o cabaré.
Sonhos semelhantes ao de Roxie deve ter experimentado Flavinho Beira-Rio
traficante uberabense preso acusado de comandar o crime de dentro
da cadeia ao ver seu nome ganhando capas e espaços nobres
em um dos jornais de Uberaba. Guardadas as proporções,
Beira-Rio poderia ver em Beira-Mar o que Roxie via em Velma. Afinal,
o traficante do Rio de Janeiro é uma celebridade e está
sempre nos jornais. Fora das grades, poderia apresentar um programa
e distribuir beijos e autógrafos. Fazer papel de malvado também
é um excelente investimento. Ou então, Beira-Rio poderia
convencer Beira-Mar de que uma dupla, a exemplo de Velma e Roxie, agradaria
mais ainda. Que tal? O estilo poderia ser o sertanejo, o fanque ou o
rap. Em caso de uma dupla, com sorte, o uberabense teria a chance de,
um dia, subjugar a fama do parceiro. Principalmente se ele morresse.
Foi exatamente o que aconteceu com a carreira dos sertanejos Daniel
e Leonardo.
Quando cheguei em casa, após o cinema, o cantor Belo recentemente
acusado de envolvimento com o crime organizado_ saltava de bungee jump
em um programa de televisão. Uma mulher que, da arquibancada
do Maracanã, certa vez soltou um foguete em um jogador dentro
de campo foi capa da Playboy. As principais apresentadoras de televisão
comprovam que vale tudo nesse jogo: uma ganhou a fama ao conseguir "a
transa mais cara da história" com Mick Jagger, outra por
ter namorado Ayrton Senna, e a "rainha" de todas nos foi inicialmente
apresentada no colo do "rei do futebol". Hoje em dia, a fama
de Xuxa é algo tão complexo e cheio de reveses quanto
o também famoso nariz de Michael Jackson. No circo dos programas
de fofoca, com o intuito de permanecerem na mídia, celebridades
aparecem desmentindo inverdades que elas mesmas criaram. Os próprios
programas também fazem isto. Em meio à balbúrdia
e aos flashes, a ausência de talento passa despercebida. Tem muita
gente famosa por ser famosa.
Chicago não é apenas mais um filme de Hollywood a dar
certo charme para ladrões de banco, de obras de arte ou para
assassinos, mas o simulacro de uma parte da imprensa. Exemplos são
o que não nos faltam para atestar que não era só
na Chicago de Al Capone que o grotesco alimentava a sociedade.