Inclinação
é uma das principais curiosidades do morro
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Foto:Laura
Pimenta

Mesmo em um espaço disputado, como é o centro da
cidade, muitas pessoas temem estacionar o carro no morro.
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Em
números e porcentagens, fica difícil perceber a real inclinação
do lugar
Em meio a duas ruas centrais de Uberaba, o Morro da Onça tem
histórias não só entre seus moradores mais antigos.
Várias pessoas já fizeram parte do cotidiano do lugar.
Desconheço em Uberaba, outro morro com tamanho aclive. Não
só o carroceiro obrigava o burro a subir o morro, mas um sargento
de polícia, muito rígido por sinal, participou da história
do morro da onça e da história dos moradores daquele lugar
que lembram de seus mandos até hoje. "Um sargento há
algumas décadas fazia os atiradores subirem o morro correndo
de madrugada. Às quatro horas da madrugada eles subiam aqui,
davam a volta lá na Praça Santa Terezinha, descia a próxima
rua, voltava e subia de novo o morro correndo, lembrou seu Luís.
"Antigamente os atiradores tinham sede aqui em cima, e tinha um
general alemão que fazia eles subirem correndo. Eu achava um
absurdo porque o morro é muito forte, se já é difícil
de subir andando normalmente, imagine correndo. Mas eles subiam correndo,
era um horror, você não imagina, ele fazia os atiradores
subirem correndo e em fila", falou dona Odette indignada com a
dureza do militar.
São 21,4% de inclinação, distribuídos em
quase cem metros,. Olhá-lo da rua Govemador Valadares, ou seja,
ao pé do morro, é perceber um quarteirão à
sua frente o contraste existente entre o movimentado centro da cidade,
com suas ruas e avenidas com gente correndo apressada, e a sua quase
que constante calmaria, o pouco movimento de gente e carros que não
querem arriscar em descê-lo. Só para se ter um pouco mais
de noção da inclinação do morro da onça,
há alguns anos, foi proibida a subida de carros, quando então
o morro se tornou contra-mão.
De carro hoje, somente a descida é permitida. E ainda assim,
muitas pessoas temem em passar ou deixar o carro estacionado no morro.
"Você pode observar que cria uma graminha entre os paralelepípedos.
Quando está chovendo, molha a grama e carro nenhum podia subir.
Ele vinha até a uma certa altura, patinava e não subia.
Por isso tiveram que colocar como contra-mão, porque o morro
da onça é realmente muito perigoso. Já aconteceram
vários acidentes aqui", explicou seu Luís.
Já dona Zilda lembra que já teve que apelar muitas vezes
para os santos. "Quando a gente veio de mudança para cá,
meu marido tinha uma caminhonete, então eu ficava rezando, rezando,
para que a mudança não caísse morro abaixo. Porque
naquele tempo nem carro de praça não descia aqui, porque
tinham muito medo deste morro. Então eu ficava rezando pra não
acontecer nada com o meu marido quando ele fosse descer. Depois eu me
acostumei", lembra.
Observando mais uma vez o morro, dá para perceber que ninguém
subia e ninguém descia, quando uma vez ou outra, ouvi-se o barulho
dos pneus de um carro se aproximando. Começa a descer o morro,
é fatal, pé no freio, porque senão é suicídio.
Tem que ir devagar para não ter transtorno. E assim o carro desce,
no maior cuidado do mundo.
Rapidamente uma moça, de aproxima-damente vinte anos passa por
mim. Não percebi a subida dela, passou por mim bufando, quase
que sem fôlego. Mais parado do que normalmente, resolvi então
contar os degraus do morro. Do lado direito de quem desce, vinte e cinco
degraus, ao subir fui para o outro lado e contei trinta e quatro degraus,
que ajudam a diminuir o aclive do morro da onça. Mas mesmo assim
cansa.
Mais uma vez, nada nem ninguém passava, então pude reparar
que em algumas casas fios de alta tensão rodeavam o muro. Pensei
comigo: ladrão no morro da onça? Quem se arrisca a roubar
nessa ladeira? Dona Zilda me contou posteriormente: "O ladrão
subiu no segundo pavimento de minha casa. Ninguém acredita, mas
ele subiu. Depois ele saltou da janela, algo em torno de quatro metros,
e saiu correndo morro acima. Esse morro aqui não segura ladrão.
A maioria das casas já foi roubada", esclarece ela.
O que acontece também é que, o morro, assim como muitas
outras partes da cidade, está abandonado. Reclamaram-me que o
morro está muito sujo, largado mesmo. O morro da onça
encontra-se perdido no meio da cidade, ostentando ainda um ar de "comigo
ninguém pode" e preservando parte da história de
uma das sete colinas de Uberaba.