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última notícia
Nanda Guaritá Bento 7 período de Jornalismo Há mais de um século, diversos uberabenses param para ler as manchetes na rua Vigário Silva, 45. O trânsito ficou mais movimentado, o comércio prosperou e as fachadas das casas mudaram, mas o velho quadro conti-nua a chamar atenção de todos que cir-culam pelo centro da cidade. Para os idosos, a tradição parece tão essencial quanto o café da manhã. O grupo se reúne bem cedo, bate-papo na calçada e espera os títulos escritos com pincel atômico em caprichadas letras de forma. Lana, funcionária há 25 anos, é encarregada de levar os temas que serão tratados no jornal do dia como assassinatos, medidas do governo, assaltos, desempregos, greves, novidades no esporte, promessas políticas e etc. Porém, no dia 27 de outubro de 2003, o quadro trazia uma triste notícia: "Após 104 de veiculação ininterrupta, o Lavoura & Comércio paralisa suas atividades por questões econômicas e financeiras." Aquele aviso trouxe indignação aos leitores. O jornal já teve uma força política imensa, foi distribuído em cidades de diferentes estados, vendeu milhares de exemplares, constituiu um dos mais ricos arquivos brasileiros. Como uma simples frase poderia explicar o fechamento do mais antigo jornal de Minas Gerais e terceiro mais antigo do país? Parte da história ubera-bense estava de por-tas lacradas. Junto ao velho quadro, trinta e um funcionários se posicionavam para uma foto histórica. Fotógrafo, jornalistas, diagramadores, entregadores, editor, boys, ven-dedores, diretores, faxineira, integrantes do departamento comercial, responsáveis pela distribuição e pelo arquivo, secretárias. Alguns começavam a seguir carreira, outros já estavam na casa há sessenta anos como o Sr. Caetano. Quando percebemos o grave problema financeiro, todos tentaram fazer o impossível para manter o Lavoura & Co-mércio vivo. Agora, que o jornal sobrevive apenas na lembrança, um mistura de sentimentos invade o coração e a cabeça de cada um. Preocupações com os salários atrasados, derrota, medo do futuro e uma profunda dor. Apontar um ou mais culpados não me devolveria aquele emprego. Pessoalmente, sinto uma grande perda. Assinar a coluna social Observatório durante estes três anos foi, acima de tudo, uma honra. Com o maior prazer do mundo, vovô Netinho escreveu esta página por quase cinqüenta anos. Continuar o trabalho é uma forma de matar a saudade e de manter alguns dos seus ensinamentos vivos. A atividade me dava a oportunidade de ajudar o próximo, valorizar as riquezas da nossa terra, fazer novas amizades e ter retorno financeiro. Todos esses pensamentos sobre o Observatório vieram a minha mente mais tarde, quando refleti sobre o que tinha acontecido e sobre a minha participação no Lavoura. Mas, na hora do foto, a mistura que deprimia os outros funcionários não era a mesma que me assombrava. Eu só pensava em como o vovô se sentiria naquele momento. Ele era um dos primeiros a chegar no jornal. Comunicativo e muito humano, atendia aos pedidos de todos. Da senhora que gostaria de publicar a foto da filha debutante, dos noivos que irradiavam felicidade, do casal que completou Bodas de Ouro, do garoto aprovado no ves-tibular, da bela moça que completava mais um ano de vida, das organizadoras da festa beneficente, do uberabense que brilha profissionalmente. Acredito que se estivesse entre nós, um pouco do brilho do vovô Netinho se apagaria com as luzes do jornal. Afinal, a trajetória do Lavoura se entrelaçava com sua própria vida. |
O
fim de uma tradição
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