Meninos
de papel jornal

Jornaleiro - escultura de Lecy Beltran (reprodução)
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Dinheiro
arrecadado pelos gazeteiros é usado muitas vezes para suprir
as necessidades da família
Melina Afonso
6 período de Jornalismo
Nas esquinas mais
movimentadas de Uberaba é quase certa a presença de um
garoto oferecendo jornal. Na mão de um mesmo menino, podemos
comprar o Lavoura, os jornais de Uberaba e o da Manhã.
Às seis da manhã, começa a distribuição
das edições matinais diárias, os meninos passam
pela empresa preenchem um formulário que controla a saída
dos exemplares. Os rostos ainda parecem não acreditar que aquela
é a hora de começar o trabalho.
É trabalho sim, mesmo ilícito e exposto aos olhos do Juizado
de Menores, Conselho Tutelar e de qualquer órgão de proteção
ao menor. O trabalho que os chamados gazeteiros desenvolvem é
proibido assim como qualquer outro. Esses e outros trabalhos só
são permitidos para maiores de dezesseis anos, mas continuamente
vemos crianças de doze, dez e até nove anos na rua.
A realidade mostra que a lei não está sendo cumprida,
o conselho tutelar alega que pouco pode ser feito já que esse
tipo de trabalho é incontrolável. Até porque as
crianças não são fixas, hoje elas estão
lá e amanhã não. Embora muitas abordagens já
tenham sido feitas a essas crianças, o órgão não
tem autonomia para impedir que elas saiam de casa.
As famílias geralmente têm problemas, são desestruturadas
e às vezes nem sabem que os filhos estão na rua. As empresas
jornalísticas afirmam que as crianças que ali estão,
estudam, mas não há nenhum controle da escolaridade delas.
Jonathan de 11 anos já vende jornal há 1 ano, estuda e
ajuda a família com o que arrecada na venda de jornais. Assim
como nas bancas o valor que cabe ao vendedor é de R$ 0,40 centavos
para cada jornal que se vende. "Tem mês que eu ganho mais
dinheiro que todo mundo lá em casa...", comemora o garoto.
O dinheiro é levado para casa, lá ele é usado para
suprir as necessidades. Tem mês que paga a luz, no outro a água,
e assim vai. A criança não faz nenhuma objeção
sobre o trabalho que desenvolve, a não ser quando tem futebol
no campinho do bairro onde mora.
A feição muda a cada sinal de trânsito que se fecha
ou abre. No meio da avenida eles se divertem uns com os outros; no vermelho
o semblante é outro, ficam tristes e com cara de piedade. Entre
eles, dizem que isso é um truque, não tão falso
como podia parecer, afinal cada jornal é muito importante para
o final do expediente.
Nos dias de chuva, horríveis para o trabalho, "a gente fica
o dia inteiro escondendo da chuva e perde um monte de freguês",
diz Jonathan.
A esquina de uma rua movimentada, é o ponto de venda de Felipe.
Quando o sinal fecha, ele escora na grade de uma loja de roupas infantis
e fica esperando. A voz infantil, faceira e esperta pede: "ô
moça me compra um jornal", mesmo sem vontade de ler, dá
uma vontade de comprar e arrancar um sorriso omi-tido pela necessidade
de parecer triste.
Às vezes nem é só aparência triste, há
dias em que esse é realmente o estado de espírito de algumas
das crianças. No fundo dos olhos delas é fácil
ver a vontade que têm de estar dentro dos belos carros que por
ali passam.
Alias, é raridade algum garoto esconder o sonho de comprar um
carrão. Felipe quer ser advogado, e para fazer a escolha, bastou
ter distante contato com um motorista que por ali passa todos as dias,
para que ele passasse a admirar aquela profissão. Na verdade,
ele nem sabe bem como atua um advogado, mas as roupas e o carro do "Doutor"
foi crucial para a decisão.
Jonathan não sabe ainda o que quer ser, mas cogita a hipótese
de se tornar jornalista, acha legal o trabalho, pois para ele é
interessante, ter o nome em várias frases escritas em papel jornal.
Ser médico ou bombeiro também o faria feliz, mas também
que mal há, tem apenas onze anos, ainda tem muito pra pensar
sobre a profissão que vai seguir.
Claiton, outro garoto que trabalha como gazeteiro tem onze anos, está
na quinta série, mas já se reprovou duas vezes. Pela idade,
ele está na série correta, entrou mas cedo na escola e
por isso as reprovações não atrasaram o seu currículo.
Ele trabalha quase todos os dias na parte da tarde em uma determinada
esquina de Uberaba. Vende jornal para ajudar em casa como a maioria
dos gazeteiros. Estuda de manhã, chega em casa, almoça
e desce para trabalhar. À noite, o garoto, brinca com os amigos
e caí na cama para buscar mais um dia.
Em casa, ele divide o quarto com mais três irmãos, e o
outro quarto fica pra mãe, que cuida dos filhos sozinha. Trabalhando
como diarista ela ganha 300,00 reais por mês; faz parte do "bolsa
escola" aumentando a renda mensal para 315,00. É com esse
dinheiro que a família viveria se não fosse a ajuda do
filho mais velho, o Claiton.
O valor da ajuda não é fixo, cada mês tem um pouco,
mas qualquer quantia agrada a mãe. "Eu não exijo
do meu filho que ele vá vender jornal na rua, mas tinha uns amiguinhos
dele vendendo, aí ele achou que dava certo ir também,
eu disse que ele que sabia."
Claiton, também não se importa de ir para o centro vender
jornal, gosta do que faz. "Eu vejo cada coisa aqui no centro que
eu morro de rir, tem cada pessoa engraçada que passa aqui...
eu não quero parar de vender jornal, porque se eu não
vender, o que a minha mãe ganha fica mais apertado ainda para
gente lá em casa."
A realidade dos vários meninos mostra o quanto sonhar os faz
felizes. Saem de casa às vezes simplesmente por não querer
estar diante de tantos problemas. Lazer e diversão que o Estatuto
da Criança e do Adolescente destaca, fica por conta das ruas.
É nas ruas que essa necessidade é suprida.
Estar vendendo jornal para os mais infantis é uma diversão,
diferente de uma brincadeira de criança, já que nesse
caso o dinheiro no final do dia é o que realmente importa.
Essa realidade, em Uberaba é conseqüência do crescimento,
do desemprego, de tempos modernos. A grande maioria dos jornais faz
a utilização do trabalho infantil. Existem casos nas cidades
maiores de que a exploração é mais intensa. As
crianças passam noites ao relento esperando que as edições
fiquem prontas.
A utilização da mão-de-obra infantil é,
de fato, um assunto complexo. Lugar de criança, realmente, é
na escola. As crianças que estão fora dela, trabalhando,
não estão desperdiçando suas infâncias por
acaso. Elas são filhas dos milhões de brasileiros que
estão desempregados ou que vivem de bicos. Assim, os gazeteiros
são parte de uma realidade terrível e humilhante.
No específico dos gazeteiros em Uberaba, ainda é mais
complexo. As empresas alegam que eles estudam e que o trabalho não
prejudica a educação. De fato, grande parte deles estuda,
mas isso não os legalizam enquanto profissionais. O trabalho
é proibido, o fato de estudar ou não, não reduz
nem extingue a ilegalidade.
Além do mais, esse tipo de ocupação não
é considerada exploração infantil, como é
por exemplo o trabalho braçal e pesado desenvolvido no campo
e em minas. É um trabalho mais brando. O Conselho Tutelar reconhece
que a lei não está sendo cumprida.
A solução para o problema esbarra-se em questões
estruturais. Para vencê-las é necessário, por exemplo,
repensar a urgência de uma política eco-nômica de
redistribuição de renda e de um redimensionamento da educação
pública. "To-da criança na escola" precisa ser
mais do que um slogan político.
Enquanto isso, os jornais podem começar a fazer a sua parte.
Em vez de crianças, as empresas poderiam empregar os pais ou
os irmãos mais velhos dos atuais gazeteiros. As famílias
deles não seriam prejudicadas e os jornais deixariam de explorar
a mão-de-obra infantil. É uma possibilidade! O que não
devem continuar é noticiando com destaque, os índices
de Trabalho Infantil, enquanto insistem, eles próprios, em manter
crianças trabalhando.