O surgimento da comunidade e os grupos que auxiliam na luta contra as drogas


A fazenda tem plantação de frutas e verduras que ficam por conta dos internos

Muito trabalho e dedicação fizeram com que a comunidade ganhasse força na recuperação dos adictos

Em 1992, três pessoas reuniram-se debaixo de um barracão de lona e começaram um trabalho de ajuda na recuperação de cinco dependentes químicos. Tudo começou só com boa vontade, sem recursos ou estrutura nenhuma.

Maria Aparecida Ferreira participava da pastoral carcerária, um grupo voluntário que visitava presos na cadeia de Uberaba. Com o grande número de dependentes encarcerados, Maria Aparecida via a necessidade de ter um lugar de recuperação para dependentes na cidade, já que todos que precisavam de tratamentos tinham que ser enviados para instituições fora de Ube-raba, como em Araxá.

Maria Aparecida foi à Campinas conhecer o trabalho do padre Aroldo, que desenvolvia a técnica da FEBRACT (Federação Brasileira Comunidades Terapêuticas), um tratamento através da Laboraterapia e espiritualidade.

Em 1991, Maria Aparecida trouxe para Uberaba, o Nata (Núcleo Apoio a Toxicômanos e Alcoólatras), que são grupos de apoio às famílias de dependentes. Em novembro de 1992, nascia a comunidade Nova Jerusalém. Um outro membro da pastoral carcerária, Antônio Carlos, ofereceu um pedaço de terra que tinha herdado dos pais para ser a sede da instituição. Foi o suficiente para o início do projeto. Maria Aparecida, Antônio Carlos e um ex-presidiário que tinha se tratado em Araxá juntaram-se, compraram alguns mantimentos e foram para a fazenda com cinco dependentes.

O trabalho braçal ficou por conta dos residentes, que capinaram e plantaram as primeiras hortaliças. A espiritualidade foi feita por Maria Aparecida e pelos companheiros que, aos poucos, foram ganhando apoio de outras pessoas.
Eles faziam pechinchas na Feira da Abadia, recebiam doações e ganhavam voluntários na luta contra as drogas. Não tardou para a Prefeitura Municipal de Uberaba reconhecer a importância da comunidade e firmar convênio com a instituição.

Onze anos depois, a fazenda tem plantação de frutas e verduras e toda uma infra-estrutura com quartos, cozinha, salas para reuniões e locais adequados para o atendimento de psicóloga e dentista.

Na cidade, os residentes contam com uma casa de apoio que os recebe sempre que precisam, e um escritório, onde podem ser feitas as fichas para a internação, a triagem e os cuidados com os assuntos burocrático.

Longe da segurança da Nova Jerusalém, os já recuperados podem contar com o apoio do Nata, AA (Alcoólicos Anônimos), NA (Narcóticos Anônimos), que são grupos de adictos que já passaram pelo processo de tratamento e agora se encontram para buscar apoio e não voltarem ao mundo das drogas. Pessoas que passaram pelos mesmos problemas conversam e trocam experiências.

Para Valdir, o apoio desses grupos é indispensável. Valdir refere-se ao vício como uma doença incurável. Ele diz que a vontade de usar a droga nunca passa, mas é preciso ser mais forte do que ela. Essa força ele encontra nos grupos de apoio que considera seu "amuleto".

Talvez esse seja o momento mais difícil do tratamento: você tentou mudar, mas o mundo lá fora continua o mesmo. O receio da família, o preconceito, a reintegração na sociedade e a droga na sua frente. Para isso, durante esses nove meses os residentes recebem apoio de uma assistente social, que faz esse elo de ligação entre eles e os familiares. É preciso estar preparado para receber o dependente de volta na família.

O trabalho da assistente social ganha o reforço dos grupos de apoio aos familiares de dependentes. Amor Exigente e Abraço (Associação Brasileira Comunitária para Prevenção do Abuso de Drogas) fazem reuniões semanais para dar apoio e força. Como no AA e no NA, pessoas que passaram pelos mesmos problemas trocam experiências e ajuda mútua.

Os resultados nunca são "cem por cento". Muitos têm recaídas e voltam ainda piores para o mundo das drogas, mas Maria Aparecida não desanima. Para ela, a sociedade está doente. A droga é fácil e a relação entre os familiares está cada dia mais difícil. Não se educa os jovens sobre as drogas. Falta preparação e conversa porque hoje, o certo, por questão de status, é usar drogas. É a tal "integração social". Se no início é assim, o fim dessa história pode ser de exclusão total, da sociedade, da família e das coisas boas da vida. E na comunidade não faltam exemplos disso.

O exemplo de Valdir na recuperação das drogas

A força de vontade vence todos os obstáculos para o abandono do vício
Natural de Belo Horizonte, Valdir teve o primeiro contato com a maconha aos 12 anos. Ele queria fazer parte daquela galera que era conhecida como os "malucos da cidade". Não hesitou em experimentar todos os tipos de droga que lhe foram oferecidos. Escondeu da família o quanto pôde, mas aos poucos foram notando a sua mudança de comportamento. Para não magoar os pais, fugiu. O que ele chama de fuga geográfica: você muda de cidade, mas carrega o vício com você. Várias vezes ele repetiu essa atitude.

Onde chegava não era difícil encontrar companheiros que estavam nessa vida das drogas. Valdir fala que eles se conhecem pelo jeito de olhar nos olhos, no jeito de cumprimentar, eles sabem se aquele é um "dos seus".

Fotógrafo, Valdir deixou de registrar bons momentos de sua vida e, hoje, carrega na memória o inferno que viveu no envolvimento com as drogas. Do primeiro "baseado" à dependência total do crack passaram-se mais de dez anos e Valdir chegou a roubar para manter o vício. Cada vez queria mais "onda", drogas "fracas" já não o satisfaziam e assim veio parar em Uberaba - sem dinheiro, sem emprego, sem amigos e com uma só companheira: a droga.

Na cidade, arrumou um emprego na construção civil, mas todo o dinheiro que ganhava gastava com o crack. "As bocas" viraram sua casa, perdeu a confiança do proprietário do lar onde morava, perdeu o emprego e começou a roubar.
Doeu a consciência. Valdir fala que não gosta de magoar as pessoas, mas ele precisava sustentar o vício. Na verdade, Valdir demorou a perceber que ele era a pessoa mais magoada. E continuou nessa vida, até conhecer a comunidade.
Depois de um assalto, ele e mais dois dependentes tiveram que fugir de Uberaba. Foi quando um dos companheiros falou do trabalho da Nova Jerusalém e disse que era para lá que ele iria "fugir". Valdir ainda tentou continuar naquela vida, mas percebeu que precisava de ajuda. Foi então que procurou o escritório da comunidade, se inscreveu e passou pela triagem.

Mas, na época, não tinha vaga e ele teria que esperar para iniciar o tratamento.
Neste dia, ele estava sereno e choroso, foi a uma Igreja para rezar, mas não conseguiu tirar os olhos das bolsas das pessoas que lá estavam. E para saciar o vício, furtou todos que estavam ali rezando. Parecia que ia dar errado, mas graças à desistência de uma outra pessoa, Valdir ganhou a chance de tentar um nova vida.

No dia marcado, entrou na mesma Kombi e partiu. Sentiu um grande vazio. O começo foi difícil. Demorou seis meses para aceitar a programação. " Não adianta a pessoa ficar aqui com a mente em outro lugar. Assim, não existe mudança." E ele conta que gostava da rua, queria estar lá fora. Mas optou por ficar, ganhou uma segunda chance e começou tudo novamente.

Valdir não só mudou seus hábitos, ganhou a confiança, e hoje é coordenador do grupo. Passou por treinamentos e hoje não é apenas mais um adicto em recuperação, é um exemplo de força de vontade e de que todos lá podem vencer. "Não é fácil, a droga, sim, é muito fácil, ela chega em você sem você perceber, parece que a gente atrai", relembra.

Hoje, Valdir vai à cidade na hora em que precisa, mas durante o tratamento, ficou tão isolado quanto os residentes que estão lá. Posteriormente, com seis meses de tratamento, o residente pode ficar quatro dias na casa da família; no sétimo mês aumenta para seis dias; no oitavo, oito dias, e com nove meses de tratamento é graduado e sai definitivamente.

Quando se chega à fazendinha, os residentes trabalham na construção de mais salas para a comunidade. A psicóloga Célia brinca que a comunidade está em permanente construção. Mais do que construções materiais, a comunidade vive em construções de novas vidas que ali recomeçam.

 

Só por hoje!

 


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