Só
por hoje!
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Comunidade
Nova Jerusalém abriga 34 residentes em recuperação
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Dependentes
químicos em recuperação aprendem
a ser mais fortes que a vontade de usar a droga
Erika Machado
6 período de Jornalismo
O barulho se aproxima.
O ronco da Kombi avisa que está chegando a hora de partir. É
nela que os 34 residentes da Comunidade Nova Jerusalém foram
tentar uma nova chance. Cada um deles, em seus diferentes dias, esperaram
aquele momento em que partiriam rumo à nova vida.
O motorista e a psicóloga já estão acostumados
com aquele dia a dia. Entrar na Kombi da comunidade faz parte do cotidiano
dos dois. Para os "marinheiros de primeira viagem", tudo é
novidade. A sensação dentro daquele carro é estranha.
As angústias de quem teve que pedir ajuda para se reerguer misturam-se
com a alegria de quem retomou a vida limpo das drogas.
A Kombi leva e traz qualquer pessoa da fazenda, onde fica instalada
a Comunidade, até a cidade e vice-versa. Ela não carrega
só os passageiros, mas os sonhos de todos eles.
Ao longo dos 23 quilômetros que separam a fazenda da cidade, os
pensamentos dos que viajam perdem-se tentando entender para onde se
está indo. É engraçado como um lugar - antes desconhecido
- parece mais longe quando não se sabe o caminho que leva até
lá. Aquela viagem parece interminável. Olha-se para todos
os lados e não se sabe aonde vai chegar. Não se sabe o
que os espera, mas o que ninguém mais quer é esperar pelo
recomeço.
São 34 homens que, qual a fênix, tentam renascer das cinzas
deixadas pelas drogas. Todos que lá estão já chegaram
no grau máximo do vício. A psicóloga da comunidade,
Maria Célia Passos Ferreira, trabalha há três anos
atendendo os residentes que são chamados de "adictos em
recuperação", ou seja: são dependentes químicos
em recuperação. Quando ela chega, ainda cedinho, a maioria
deles está debaixo da árvore, nomeada como o "fumódromo"
da fazenda. Nos outros lugares, qualquer tragada é proibida.
Então, sempre que têm um tempinho, eles vão fumar
um cigarro que, ali, dos males, é o menor.
Ela faz um trabalho de reuniões em grupo e atendimento individual.
No primeiro encontro, eles se reúnem em um salão sentados
em círculo, de modo que todos possam se ver. E é assim
que o coordenador da comunidade faz questão que todos estejam,
sempre que recebem alguma visita.
Valdir, 31 anos, é mais um adicto em recuperação.
É ele quem coordena os outros residentes mas, para chegar lá,
foi um longo caminho, até que Valdir ganhasse esse voto de confiança.
Os olhos daqueles homens são fixos. Por um momento, eles pensaram
ser mais uma reunião com a psicóloga que estava ali para
ajudá-los. E realmente é uma ajuda, mas de outra maneira.
Saber o quanto aquele lugar é importante para eles e ajudar de
alguma forma, conhecendo e divulgando o trabalho daquela instituição,
é o nosso objetivo.
Todos se apresentaram. Alguns fizeram questão de dizer há
quanto tempo estavam internados, outros apenas pronunciaram secamente
o nome. Cada um que se expressava, ganhava os gritos e as palmas de
apoio dos companheiros, sempre puxados pelo coordenador: - É
isso aí, é isso aí! Legal, legal! Os gritos ainda
parecem ecoar nos ouvidos. Tirar força para ajudar o próximo,
quando se precisa de ajuda todos os dias. Esse é um dos lemas:
"Só por hoje!"
O processo de tratamento leva nove meses. Célia conta que é
o mínimo que o adicto precisa para tentar mudar os hábitos.
No dia-a-dia, eles têm horários para tudo. A rotina começa
cedinho. Às 6h da manhã, todos estão de pé.
O tratamento envolve trabalho braçal. É a chamada Laboraterapia.
Os residentes capinam, plantam e regam hortaliças e frutas. Cuidam
de animais e de toda a manutenção da fazenda.
O trabalho de sol-a-sol é o que desintoxica. A psicóloga
explica que com a Laboraterapia não é preciso o uso de
remédios, como é feito nas clínicas de internação.
Mas a moçada não gosta. Uns chegam a dizer que não
estão lá para trabalhar. "Se eles soubessem a importância
desse trabalho para a recuperação não reclamariam
tanto", explica Célia. E não é só o
corpo que precisa do trabalho. A mente precisa estar ocupada para não
pensar nas drogas.
Quando estavam envolvidos com as drogas, eles trocavam o dia pela noite,
não tinham horários e não dormiam o suficiente.
É claro que o organismo fica debilitado. O trabalho com a mente
envolve não só o atendimento psicológico, mas uma
espiritualização. A instituição é
uma comunidade católica. Orações e reflexões
fazem parte do tratamento. Grupos voluntários fazem momentos
de religiosidade, onde rezam, cantam e pedem ao Deus que acreditam,
uma ajuda para aquelas pessoas.
Ninguém é obrigado a seguir a religião católica,
mas o momento de reflexão, quando eles voltam-se para dentro
de si mesmos, deve ser respeitado e ajuda muito no tratamento.
Tudo é feito por eles. Na cozinha, a cada semana, quatro residentes
são responsáveis pelo "rango" da galera. Eles
cozinham, lavam e organizam a despensa. Graças a um casal de
voluntários que ensina receitas na cozinha, alguns residentes
já aprenderam a fazer quitandas que incremetam os lanches.
Da roupa suja, cada um cuida da sua, mas a higiene do local também
é feita em grupo, em sistema de revezamento. E tudo é
bem-estruturado, mas nem sempre foi assim.