Uberaba: cidade-estacionamento

Foto: Arquivo Revelação

Palacete Antônio Pedro Naves começou a ser destruído no dia 13 de dezembro de 2002.

Se não despertarmos logo, Uberaba irá se transformar, em breve, numa cidade-estacionamento. As pessoas vão fazer compras em Uberlândia e deixar os carros estacionados aqui...


Tiago de Melo Andrade (*)

Uberaba é uma cidade violentada continuamente! A última e estúpida agressão foi a demolição do Palacete "Antônio Pedro Naves". Quem passasse pela Rua Manoel Borges, à altura da esquina com a Major Eustáquio, sempre poderia contemplar o imponente sobrado neoclássico dos velhos e românticos primeiros anos do século que passou. Era um pré-dio magnífico e uni-dade integrante da nossa História e que não escapou ao furor utilitarista do progresso.

Em frente aos escombros, não pude deixar de ficar, ao mesmo tempo, perplexo e pesaroso, deplorando todo aquele desperdício. Desperdício de esforço dos antigos arquitetos, mais que artesãos e, sim, artistas, que colocaram a casa de pé! Quem não viu aquele desperdício de madeira, de tijolos, de recursos, de tempo?! Acredito que numa época de escassez tão grande como hoje (até a aparentemente inesgotável água dá sinais de cansaço), não é prudente desperdiçar tanto.

E, agora, a pergunta que não quer calar... Sim, porque não será a primeira suspeita não-infundada, o primeiro receio provável de todo bom uberabense: Será mais um estacionamento?!... Uberaba é uma cidade desfigurada com seus estacionamentos horrorosos, que se espalham como um câncer em metástase, agredindo e corrompendo o visual urbanístico, qual desolador descalabro e retro cesso... Será que há tanto carro assim para estacionar? No caminho que faço, a pé, do centro até minha casa, passo por diversos deles. Um, na Rua Alaor Prata, cercado de alambrado e pavi-mentado com asfalto, nunca está razoavel-mente cheio, ou melhor, de todo ocupado. Não se pense que passo por lá domingo ou de noite. Sempre passo por ali à tarde, hora em que o comércio funciona a todo o vapor, inclusive os bancos. Não raras vezes, vejo-o quase vazio.

Então me lembro do prédio antigo que havia ali. Era alto, pintado de amarelo-ocre e ricamente decorado com estuque. Compondo a obra artesanal do frentista-escultor daqueles tempos, uma cabeça de mulher pendia em meio a flores sobre a porta de entrada. Era divertido, senão enlevante, deter o olhar em todos aqueles ornatos esculpidos na fachada: cabeças, brasões, cordões de flores, pinhas, formas geométricas...

Um dia, passando por ali, uma surpresa, dessas que desmontam qualquer cidadão: o prédio estava no chão! Não pude sequer me despedir da cabeça de mulher, de sorrisinho que sempre me parecia maroto, que me vigiou durante tanto tempo. Às vezes, transitava ali sem olhar para o lindo sobrado, mas tinha sensação de que a vigilante cabeça me observava... Era uma presença que se foi.
Mais tarde, um estacionamento, que está quase sempre vazio, ocupou o lugar. Triste decepção para os 300.000 habitantes da Terra de Major Eustáquio, que vêem acontecer, em pleno centro urbano, algo semelhante à tradicional destruição de generosa mata, para ali fazer-se a alegria de indiferentes agricultores ou pecuaristas... O caminho ficou sem graça. Passo entre dois estacionamentos (o que muito me deprime) . A vista é um amontoado de prédios feios, toscos, construídos sob o signo do utilitarismo dominante. E como eu me arrependo de não ter contemplado, por muito mais tempo o prédio amarelo-ocre, suas flores, caras e caretas, agora reduzidas a pó!

Não é possível compreender o motivo que leva os empresários uberabenses a trocar o belo pelo feio. Não me venham dizer que é porque casa velha não dá dinheiro. Os europeus estão cansados de ganhar dinheiro com isso! Quanto será que movimenta o turismo europeu? Não sei o número certo, mas, com certeza, devem somar, até hoje, trilhões de dólares! Quem vai a Paris ou Veneza vai ver o quê? Prédios de vidro, edifícios, estacionamentos, tacanhos centros de compras? Não. Vão lá ver o patrimônio histórico, cultural. Casas, palácios, museus, obras urbanas de arte, curiosidades – enfim, belezas preservadas e expostas ao público.

Com certeza, os gananciosos empresários que destroem o casario de Uberaba, já viajaram à Europa e torraram lá muitos dólares. Talvez foram até a Itália e tiraram fotografias diante de lindas casas centenárias muito parecidas com as nossas, projetadas e construídas por arquitetos e escultores italianos. Visitaram belas praças e avenidas, museus, em Paris, onde o Louvre é parada obrigatória. Será que eles já visitaram os repositórios históricos de nossa cidade, com o interesse e recente Museu de Arte Decorativa? Pagaram caro para ver lá fora o que destruíram aqui. Gente estúpida!

Se não despertarmos logo, Uberaba irá se transformar, em breve, numa cidade-estacionamento. As pessoas vão fazer compras em Uberlândia e deixar os carros estacionados aqui...

Eu tenho um parente muito especial: o tio Marcos. Quando andamos juntos pelas ruas da cidade, ele sempre aponta para as casas e conta uma história sobre quem morava ali. Histórias heróicas, tristes, divertidas, de horror, mistério, informativas. Histórias que me fizeram entender mais a terra onde vivo e que muito amo; compreender melhor o presente, além de indicar um caminho para o futuro. Afinal, não posso calcular para onde vou, se não sei de onde vim.
No entanto, quando eu e meu tio passávamos diante de um terreno baldio, ele raramente se lembrava do que havia ali, é um link perdido, fora do ar – para usar um termo moderno.

As casas antigas e os prédios públicos são links, ou símbolos que dão acesso à nossa História! Sim, nossa História, pois, se você, leitor, nasceu ou apenas viveu parte de sua vida aqui, não há como simplesmente retirar Uberaba, a paisagem dela e o folclore dela da sua vida. E, se está cidade vai, obriga-toriamente, fazer parte da minha memória, da minha história, eu preferiria lembrar-me dela como a cidade dos palacetes exóticos do Zebu com seus domos, colunas, pinhas, brasões, pináculos, tudo misturado. Das casas simples de adobe, das janelas com vidros coloridos, dos alpendres, das praças com árvores frondosas, do coreto, das palmeiras, da Notre-Dame de Paris, do Hotel do Comércio e tantos outros patrimônios da cidade, que, se tivessem sido respeitados e bem cuidados, poderiam estar aqui, hoje, estimulando fotos de milhares de turistas que viriam ver as belas casas de uma Cidade-Especial. Quiçá não seriamos Patrimônio da Humanidade?

Infelizmente, nada disso aconteceu. A cada dia, Uberaba vem se tonando mais uma Cidade-Qualquer, com lojas cúbicas, mal rebocadas, revestidas de letreiros feios e ladeadas de estacionamentos mais tenebrosos ainda! No ritmo em que as coisas vão, em 10 anos, talvez, consigamos nos tornar Patrimônio da Humanidade, sob a legenda: "Ubera-ba é tombada a cidade mais feia do mundo. Um exemplo a não ser seguido" – dirão os jornais do mundo, num alerta aos povos de como uma comunidade pode se enfear, se destruir.

Eu, talvez ainda me lembre daquela cidade linda e única! Mas temo que, um dia, meus filhos tenham para lembrar apenas a Cidade-Estacionamento, igual a tantas outras por aí, coberta por horrível telhado de zinco. Sem nenhum link restante para saberem de onde vieram, onde estão e para onde vão.

Tiago de Melo Andrade é escritor, presidente da Academia Uberabense de Jovens Escritores (AUJE)

 

 

 

 


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