Albergue
possui casos à parte
|
Foto:Rafael
Ferreira
CHS, relacionamentos que não deram certo, amor e tráfico.
|
O Albergue
é um nicho onde encontram-se os mais variados estereótipos
humanos. Dá até para conhecer pessoas envolvidas com o
narcotráfico. CHS, 24 anos, trabalhou no tráfico de drogas
desde criança em uma favela de Santos. Chegou na roda de bate-papo
com um suingue de malandro,
perguntando sobre a possibilidade de conseguir um emprego em Uberaba.
Jovem
e sonhador, sabe os percalços pelos quais precisa passar se quiser
vencer na
vida.
Ficou adulto antes da hora. Aos 10 anos de idade, teve contato com um
traficante da favela onde morava. "O traficante é um herói
dentro do morro.
Quando vê uma criança que precisa de ajuda, vai lá
puxar um papo com ela,
fica sabendo que a família do moleque tá passando aperto
e oferece uma
cesta básica para o menino, que nem imagina o que pode acontecer",
conta.
Foi assim que aconteceu com CHS. O traficante ofereceu ajuda para a
família
dele, que não pensou duas vezes em aceitar. Em um outro momento,
a ajuda
vem maior: uma oportunidade de trabalho. "Tem pivete que se orgulha
em
trabalhar com traficante, mas pode ser até vantagem se você
passar dos 13
anos", relata.
A criança de 10 anos, mesmo recusando a proposta de trabalho,
é obrigada a
colaborar com o tráfico, pois tem uma dívida com o traficante.
Lembra da
cesta básica que foi fornecida à família? A partir
daí, o menino, que teve
uma vida inocente, entra para o crime. Torna-se então o entregador
de
dinheiro e drogas, conhecido como "aviãozinho" ou "mulinha"
De
acordo com CHS, é mais vantagem para o dono do tráfico,
pois o menino
vai para o Juizado de Menores e seus responsáveis o tiram de
lá. "E como não
tem outra maneira mais 'fácil' de conseguir um sustento, as crianças
sempre
voltam para o trabalho", argumenta. Além do mais, continua,
"o traficante ganha
dinheiro com o garoto, pois ele acaba se viciando em drogas e, então,
a
divida aumenta"
A forma
como traficantes inserem crianças no crime não é
novidade para
muitos leitores. CHS, seus amigos no morro e muitas outras crianças
passaram e passam por isso. Uma etapa de dificuldades para uma criança
que
mal sabe o que a espera. Depois disso, o menino vai para a frente de
batalha: se conseguiu sobreviver à guerrilha das ruas terá
a oportunidade de
manusear uma AR-15, uma escopeta, uma 9 milímetros e outras armas
pesadas, a maioria (deveria ser) de uso militar exclusivo.
CHS
casou-se aos 15 anos com o tráfico e com a mocinha de sua vida.
Ambos
relacionamentos que não deram certo. Sua esposa o traiu e seu
chefe no tráfico o
fez de bode expiatório. Depois disso, tentou viver uma vida mais
digna. Não
saiu do morro, mas procurou evitar contato com o submundo das drogas.
Foi
viciado e experimentou diversos tipos de entorpecentes: de ópio
à maconha;
do LSD à cocaína. Neste meio tempo, conheceu outra moça,
casou-se mais uma
vez e tornou-se um "soldado do tráfico", para conseguir
um dinheirinho.
Recebeu
treinamento em campos de combate escondidos dentro da favela. "Treinamento
feito só com os caras nos quais o tráfico sente confiança.
Se
conseguir passar por mais esta etapa, você pode controlar pontos
no morro e
até se tornar o braço direito do traficante ou tomar posse
do morro, coisa
que o cara tem que ter muita ginga para fazer", descreve.
Separou-se
e casou-se novamente. É um rapaz persistente mas, desta vez,
veio
para Uberaba tentar algo melhor. Viveu bem como serralheiro. Ele já
fez todos os tipos de trabalho que se pode imaginar. Até praticou
e
ensinou capoeira por 4 anos, além de outras artes marciais que
lhe salvaram
o coro por muitas vezes. Nunca matou, mas se precisar está disposto
para o
que der e vier.
Assim é a vida de quem passa pelo Albergue: uma luta para sair
de situações
de miséria, delinqüência e exclusão social
e um sentimento de ódio em ver
seu país "transformado em puteiro pois, assim, se ganha
mais dinheiro",
parafraseando o compositor Cazuza.