Guerra
da informação
Jornalistas
e professores analisam cobertura da mídia sobre a guerra
Fernando Machado
6 período de Jornalismo
Apesar dos protestos
pela paz em todo o mundo, inclusive nos Estados Unidos, o presidente
norte-americano George William Bush deu início aos ataques norte-americanos
a Bagdá, capital do Iraque, na madrugada de quinta-feira, dia
20. Segundo as pesquisas de opinião pública que estão
sendo divulgadas pela mídia, 70% dos norte-americanos são
a favor da guerra. O Brasil inteiro se preocupa com as consequências
dos ataques ao Iraque. Em Uberaba, como não podia deixar de ser,
a comunidade aguarda ansiosa as consequências que a guerra possa
trazer para a cidade e para a região. Jornalistas, estudantes,
professores e cidadãos debateram a questão. O possível
aumento no preço do barril de petróleo é um das
maiores preocupações, pois, caso aconteça, acarretará
aumentos nos transportes e em diversos outros setores.
Na opinião do jornalista Francisco Marcos Reis, abre-se na guerra
uma exceção no Estado, onde as liberdades individuais
ficam restringidas, um dos princípios sagrados da constituição
norte-americana. "Assim como ocorreu depois do 11 de setembro ocorre
agora esse medo de ataques contra a população", diz
ele.
Mas, segundo o jornalista, a primeira vítima da guerra é
mesmo a verdade. A intenção dos governos é fazer
com que apenas o que lhes é conveniente chegue à opinião
pública. "O que se viu nos inícios do ataque foi
pirotecnia, tal qual na Guerra do Golfo. Um míssel cruzando o
céu, uma fogueira ao longe", comentou.
Na Guerra do Golfo, a transmissão era exclusiva da CNN, uma rede
norte-americana. Agora, há outras coberturas, como a Al Jazira
dos Emirados Árabes, a agência de notícias Reuters,
que podem expressar uma visão menos americanizada do processo.
Mas a maior parte da cobertura ainda é feita pela imprensa dos
Estados Unidos. Dessa forma, advoga Reis, não se tem noção
do drama humano envolvido. Para ele, a política "do que
os olhos não vêem o coração não sente"
é uma desinformação. O jornalista vê na internet
uma esperança de informações melhores. "Alguma
pessoa no Iraque, jornalista ou não, pode muito bem colocar fotos
e textos na rede dando conta da verdadeira tragédia humana que
acontece em solo iraquiano", falou.
"Um show, um jogo de videogame, um filme a mais", na visão
da jornalista venezuelana e professora da Universidade de Uberaba, Norah
Shallymar Gamboa Vela, tem sido esta a tônica das transmissões
da guerra feitas pelas TVs. "Mostra-se os mísseis cruzando
o céu, mas não se mostra o lugar onde caem. Isto esconde
a verdadeira tragédia humana de telespectadores do mundo inteiro,
que não vê a guerra que está acontecendo realmente,
apenas um filme a mais", criticou. Ainda na crítica à
cobertura dos meios de comunicação, Vela relatou que a
CNN tem falado de "libertação do Iraque". "Libertar
do quê? E como, destruindo para reconstruir?!". A internet,
acredita Vela, pode ser um contraponto das TVs, podendo mostrar "o
outro lado da notícia". Ou seja, a posição
de presidentes de outros países que são contra a guerra,
a opinião de organizações não governamentais
contrárias a guerra, reunindo a comunidade mundial.
O presidente Luís Inácio Lula da Silva vem batendo na
tecla de que o Brasil não será afetado com a guerra. O
governo afirma que há estoque para consumo interno e, como lembra
o presidente da Associação dos Derivados de Petróleo
de Uberaba, Carlos Alberto Brandão, 90% do petróleo consumido
no Brasil vem da Petrobrás. O restante é comprado da África
e da Venezuela, o que dá certa razão ao discurso oficial.
De forma que se consome muito pouco petróleo vindo do Oriente
Médio no Brasil. "O preço do barril já vinha
sofrendo variações e certamente sofrerá outras
com a guerra, mas o cenário ainda é nebuloso demais para
se poder fazer perspectivas tanto para os revendedores de derivados
de petróleo quanto para o consumidor", estimou Brandão.
A empresária uberabense Maria Rita Rodrigues da Cunha morou em
Nova York por mais de uma década, onde ainda mantém uma
loja de móveis e objetos de decoração. Ela voltou
para Uberaba em dezembro passado e relata que, depois do histórico
11 de setembro, conviveu com o medo de um ataque terrorista. Agora,
o temor volta a rondar as mentes na "Grande Maçã"
e em todo o país. Ela conta que, embora a tensão tenha
sido grande na sociedade depois dos ataques atribuídos a Osama
Bin Laden, a rotina continuou. E acredita que, com os ataques ao Iraque,
a tensão aumentará juntamente ao nacionalismo americano.
"A verdade é que ninguém dorme tranquilo, mas ninguém
se entrega. Qualquer alerta na TV faz as pessoas se apavorarem",
diz a empresária.