Meio Ambiente
Faróis inimigos


Foto: Maurício de Castro Rosa

Retrato de Tamanduá Bandeira atropelado

Animais silvestres são presa fácil nas rodovias brasileiras

Maurício Rosa de Castro
6 período de Jornalismo


Por morar em Araxá e estudar em Uberaba, percorro diariamente um trajeto de 230 km (ida-e-volta) pela rodovia BR-262, que liga as duas cidades. Há quase três anos viajo cinco vezes por semana, totalizando em torno de 5000 km por mês. Nesta maratona percebo constantemente animais silvestres mortos à beira da rodovia. Dentre as várias espécies de animais destacam-se os tamanduás-bandeira, lobos-guará, tatus, gambás, sariemas e alguns tipos de aves. No começo cheguei a acreditar que o grande número de animais mortos poderia ser por maldade de alguns motoristas de caminhão, que acabavam atropelando-os por puro prazer.

Certo dia, numa dessas viagens, quando voltava de Uberaba para Araxá, acabei atropelando um lobo-guará. Eram aproximadamente 23h30, estava sozinho e viajava a uns 110 km por hora. Ele surgiu inesperadamente, cruzando a rodovia; todo esforço, não foi suficiente para evitar o choque. Hoje acredito que dificilmente todo motorista tenha culpa. É tudo muito rápido. Voltei imediatamente na tentativa de socorrer o animal, levando-o para algum veterinário, mas infelizmente não consegui localizá-lo. Provavelmente ele sofreu algum ferimento, e se arrastou para fora da rodovia.
Uma onça suçuarana, foi atropelada no km 197 da Br-050, entre as cidades de Uberaba e delta. O acidente ocorreu dia 10 de maio quando o animal tentava atravessar a rodovia. A onça é um animal raro em extinção, foi levada para o Museu de História Natural para ser embalsamada.

Laura Teodoro de Oliveira Fernandes, médica veterinária, afirma, que sem al-gum socorro dificil-mente o lobo que atropelei sobrevi-veria, qualquer que tenha sido o ferimento, pois é um animal muito sensível e se estressa facilmente.
Antônio Dérrico, motorista de ônibus que transporta há nove anos estudantes de Araxá que estudam em Uberaba, acredita que o número de animais silvestres atropelados é muito grande, e a maioria dos atropelamentos ocorre devido à reação dos animais ser contrária da que imaginamos. O agravante é que à noite só se consegue vê-los quando já estamos quase em cima. "O tatu parece uma pedra que de repente se move, e não dá tempo de desviar, o Lobo parece que fica bobo com o farol e o gambá é o pior deles. Desnorteado com os faróis, passa a correr em circulos.

Dérrico lembra que, certa vez, quase chegando a Uberaba, viu alguma coisa es-cura no asfalto. Acre-ditou ser um saco preto ou algo assim. "Quan-do fui desviar, passando para a outra pista, percebi que era um tamanduá dos grandes", conta. Para piorar a situação, quando estava bem próximo, o tamanduá se assustou com o barulho do microônibus e parou de uma vez, ficou em pé e abriu as patas dianteiras. Esta é sua forma de defesa; quando ameaçado, tenta abraçar suas vítimas, cravando suas enormes unhas. "Neste momento, não pude fazer mais nada, o impacto foi forte e fatal. Uma passageira que estava em um poltrona da frente, chegou a questionar que eu havia atropelado uma pessoa; falei para ela se acalmar, que era apenas um animal, lembra Derrico." A dianteira do microônibus amassou bastante e tinha pêlos de tamanduá por toda a suspensão e o escapamento.

Era comum ver animais próximos à estrada. Antigamente, quando comecei a fazer esse trajeto, ao entardecer, eu via e mostrava para os passageiros alguns animais, principalmente tamanduás que ficavam alimentando-se próximo à rodovia. Hoje só os vejo quando já estão no asfalto, sem vida. Numa segunda-feira, 10 de março, deste ano havia um logo após o viaduto ferroviário, sentido Araxá.

O cabo Melo da Policia Florestal de Araxá não culpa os motoristas pelos atropelamentos. Ele acredita que, se pudessem, evitariam os acidentes, mas questiona apenas que se os animais atropelados recebessem algum tipo de socorro, pelo menos alguns seriam salvos. Mas dificilmente um animal recebe socorro, Até porque a maioria dos atropelamentos ocorre durante à noite, dificultando a ação. Há ainda o medo e o risco de parar o carro em rodovias à noite.

Para o soldado florestal Gabriel, o maior índice de ocor-rência em Araxá é perto de áreas com algum tipo de reserva, onde à noite os animais saem para buscar alimento. Na reserva do Galheiro, próximo a Araxá, vemos Gambás, tatus, jaratatacas, cobras e capivaras atropelados. Na BR-262, entre Araxá e Uberaba, também são vistos tamanduás-bandeira, lobos-guará e sariemas. "O lobo-guará é mais comum na região de Sacramento", diz Gabriel. "Os fazendeiros, não apenas os veículos, ameaçam o lobo-guará. Eles caçam os lobos para proteger suas criações," observa Gabriel.

 

 

Animais silvestres são vítimas dos motoristas.

 


subir